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Todo presidente recebe título de mérito científico, até mesmo Bolsonaro

FHC, Dilma, Temer e agora Bolsonaro: todos os presidentes recebem o título de grão-mestre da ciência no Brasil, até os que desafiam consenso científico

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Na quinta-feira (5), Jair Bolsonaro condecorou a si mesmo com o mais alto título da Ordem Nacional do Mérito Científico: o grão-mestre. É algo que deveria ser corriqueiro – essa honraria existe desde os tempos de Itamar Franco – mas chamou a atenção porque o presidente vem fazendo diversos ataques a consensos científicos, e promovendo remédios sem eficácia comprovada contra a COVID-19. Pior: ele deu o prêmio de comendador a dois cientistas que destoam de suas opiniões, mas acabou voltando atrás.

Bolsonaro Coin foi criada para representar a força da candidatura de Jair Bolsonaro em 2022 (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Apesar de desafiar a ciência inúmeras vezes, Bolsonaro é grão-mestre, honraria dada a todos os presidentes desde 1993 (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Presidentes recebem honraria desde 1993

Veículos da mídia e políticos de oposição ficaram espantados porque Bolsonaro publicou um decreto no Diário Oficial da União condecorando a si mesmo pelo mérito científico. No entanto, o presidente está seguindo uma regra que vale há cerca de três décadas.

A Ordem Nacional do Mérito Científico foi criada em 1993, em decreto assinado por Itamar Franco, para prestigiar brasileiros e estrangeiros que ganharam destaque por suas contribuições na área da ciência ou tecnologia.

O decreto passou por modificações ao longo dos anos, mas uma das regras permaneceu basicamente inalterada: o Presidente da República é sempre o Grão-Mestre da Ordem; e o Ministro da Ciência e Tecnologia é sempre o Chanceler.

Por exemplo, em 2015, a então presidente Dilma Rousseff realizou algumas alterações na medida que dava a honraria ao cargo mais alto da República, mas não fez mudanças no título de grão-mestre. E em outro decreto, Michel Temer se denominou como grão-mestre da ordem.

Bolsonaro vs. ciência

Porém, Bolsonaro é conhecido por suas declarações anticiência. No decorrer da pandemia, enquanto brasileiros sofriam com os efeitos da doença, ele promoveu remédios sem eficácia comprovada contra a COVID-19 em diversas ocasiões — lives semanais, discursos e falas a apoiadores.

Um dos medicamentos sem eficácia comprovada propagados pelo presidente foi a cloroquina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o remédio não é eficaz para tratar a doença provocada pelo novo coronavírus. Entre os principais efeitos colaterais está a arritmia cardíaca, que pode levar à morte.

Em outra ocasião, o atual grão-mestre da Ciência mencionou que brasileiros “mergulham no esgoto e não acontece nada”, em alusão à infecção da COVID-19. Mais recentemente, o presidente disse que desistiu de tomar a vacina contra a doença, alegando que está com alto índice de anticorpos após ter sido infectado em agosto de 2021. Novamente, a afirmação do presidente é contestada por epidemiologistas e infectologistas.

Bolsonaro vs. cientistas

Dentro do próprio decreto, Bolsonaro criou outra polêmica: ele deu honrarias a cientistas e profissionais da saúde que destoam de seu posicionamento… mas resolveu revogar.

O chefe do Executivo havia concedido o título de comendador para várias pessoas, incluindo Marcos Vinícius Larceda, médico infectologista da Fiocruz Amazônia; e Adele Schwartz Benzaken, diretora do Instituto Leônidas & Maria Deane, da Fiocruz.

Lacerda foi um dos membros da equipe de pesquisadores que, em abril de 2020, conduziu um estudo para medir a eficácia da cloroquina em pacientes graves com COVID-19. Uma das descobertas é de que altas doses do medicamento em casos graves podem levar à morte.

Já Adele Benzaken foi demitida do Ministério da Saúde antes da pandemia, em janeiro de 2019. A pesquisadora era diretora do Departamento de IST/HIV-Aids e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde, e foi dispensada por causa de uma cartilha feita para homens trans, como afirmou ao jornal O Globo na época. A pasta disse que a demissão “foi um entendimento entre as duas partes”.

Nesta sexta (5), Bolsonaro revogou os trechos do decreto que mencionam Lacerda e Benzaken.