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A difícil arte da tolerância

Seja paciente ou assuma de vez o lado Saraiva que existe dentro de você.

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9 anos atrás

Muita gente me escreve perguntando como me tornei consultora em tecnologia móvel. Alguns pedem dicas de como enveredar por essa área. A resposta é um tanto complicada.

Eu nunca busquei isso para minha vida. Aconteceu por acontecer. O blog cresceu muito desde 2002, quando nasceu, e passei a ser procurada espontaneamente para ajudar novatos, ninjas ou desesperados para resolver pepinos digitais, dar dicas ou simplesmente aconselhar (ou não) a compra de um produto ou serviço. Não raro, virei mediadora de conflitos entre operadoras, fabricantes e consumidores.

Isso foi tomando cada vez mais tempo, e, por sugestão da família e de amigos, decidi explorar comercialmente este ramo. Além de ser uma personal trainer digital, dou cursos, palestras e até consultoria para empresas que querem lançar serviços ligados à mobilidade.

Mas sabem o que eu acho? Não é minha expertise de quase uma década que me destaca. Nem o blog famoso. É o fato de eu ser uma pessoa comum como meus próprios clientes, que abre mão do informatiquês e leva a experiência diária na bagagem. E claro: muita paciência.

É exatamente aqui que o pessoal veterano em TI tropeça na hora de ajudar os clientes.

Outro dia eu estava numa missão de configurar o smartphone de um cliente com uma conta Exchange. Para minha surpresa, soube depois que a empresa onde ele trabalha é grande. Daquelas que conta com seu próprio departamento de informática para resolver probleminhas como o dele. Por que não pediu a eles que configuarassem o email?

Ele deu um longo suspiro antes de responder. "Porque eles fazem eu me sentir um completo imbecil... Cada pergunta boba que faço deixa eles com um sorrisinho de deboche."

Sim, caros leitores ases da informática... Vocês certamente já se identificaram com situações semlhantes, não? Aquelas que fazem despertar o "Seu Saraiva" oculto que existe em cada um...

Seu Saraiva, o senhor por aqui? (imagem: MofoTV/Rede Globo)

— Caramba, essa toupeira fica repetindo agá-te-te-pe-doispontos-barra-barra-www antes de todo site de internet que cita...

— Putz, o cidadão não tem capacidade nem de reiniciar um modem...

— O cara quer botar um cabo VGA numa porta HDMI... fala sério!

— De onde surgiu essa anta que não consegue achar nem a pasta downloads do próprio computador?

— Pffff... Não acredito, ele usa Internet Explorer 6!

Vestiram a carapuça? Pois bem, antes de zombar do medíocre conhecimento de informática do próximo, façamos uma analogia. Você, uma sapiência do mundo digital, vai até meu consultório extrair um dente do siso. Depois da cirurgia, explico que, se você quiser, não precisa voltar para retirar os pontos. Depois de 7 dias, você mesmo pode cortá-los e removê-los. Parece simples, mas você se sente inseguro. Prefere agendar o retorno. Como vocês se sentiriam se eu fizesse uma cara zombeteira e abanasse a cabeça, pensando: "Um baita homão desses, não tem capacidade nem de pegar uma tesoura e cortar um fiozinho..."

Estamos no piloto automático quando se trata de intolerância. Nos irritamos com os sinais vermelhos, com gente que demora na fila do caixa, com falta de vaga de estacionamento do shopping... E com a infeliz criatura que chama Wi-Fi de Hi-Fi.

Praticar a arte da tolerância não se trata de ser bonzinho, gente boa, o cara que todos têm prazer de consultar e recomendar, e, por isso mesmo, é só elogios perante o chefe. Estamos nos auto-arrebentando com pressão alta, derrames, infartos. Nos irritando com bobagens. Perdendo a compostura por coisas pequenas. E nos alimentando da soberba, ainda mais quando desfrutamos algum tipo de conhecimento que boa parte dos mortais comuns não possui.

"Sou o mais esperto, não pego fila pois faço tudo online. Sou o mais culto, não vejo novela nem Big Brother, só séries norte-americanas. Sou mais inteligente que esses panacas que pagam pau para Apple, pois uso Android. Meu gosto é mais refinado que o dessa ralé que enche seu perfil do Orkut com gifs animados. Aliás, nem Orkut eu tenho! E estou pensando até em sair do Facebook e ficar só com o [coloque aqui o nome da rede social descolada da vez]."

Sejamos mais pacientes e humildes. Se você discorda, então saia do armário e assuma seu lado Saraiva logo de uma vez, respondendo a plenos pulmões toda e qualquer pergunta idiota que lhe fizerem:

— Esse botão ON/OFF é para ligar e desligar o computador?
— Não! Quando você aperta esse botão, um russo chamado ONOFF lá do outro lado do mundo despacha um monte de propaganda de Viagra para o seu email! Pergunta idiota, tolerância zero!