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É o fim da dominação da Nintendo nos portáteis?

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7 anos atrás
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Estamos entrando naquela interessante etapa do nascimento de uma nova geração de consoles. Não, evidentemente não estou falando dos consoles “de mesa” — apesar do Wii U ter sido apresentado na E3 na semana passada, ele ainda está bem distante de chegar às nossas salas (quando nem data de lançamento nem preço são anunciados, pode ter certeza que o negócio ainda vai demorar pra sair).

Além disso, é aparente que a missão da Sony e da Microsoft com seus periféricos que detectam movimento é estender a vida útil de seus consoles oferecendo-os como uma alternativa aos gamers casuais. Se a estratégia funcionará como esperado é impossível prever; sou um pouco cético, mas tudo indica que não veremos um sucessor ao Xbox 360 ou ao PS3 por mais alguns anos.

Mas o front portátil já está entrando na next gen. Após tantos redesigns dos portáteis da geração atual, a Nintendo e a Sony finalmente resolveram mover a tecnologia de bolso pra frente. Com a Nintendo, temos o 3DS; com a Sony, o recém-nomeado PS Vita.

E eu acho que esta será a batalha de consoles mais interessantes e imprevisíveis das últimas gerações, em boa parte porque o status quo dos videogames portáteis mudou drasticamente nos últimos anos.

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Historicamente, a Nintendo sempre dominou o mercado portátil. O Game Boy original vendeu quase 120 milhões de unidades no mundo todo e essencialmente se tornou um símbolo dos anos 80. E considere que não era a estréia da Nintendo na indústria de bolso; antes do Game Boy, a sua série Game and Watch também dominava o interesse do público.

A tradição se manteve por várias gerações. Assim como o Game Boy muitos anos antes, o Game Boy Advance e o DS também lideraram a categoria com ampla vantagem em relação à concorrência (que, até o advento do PSP, era representada por videogames completamente obscuros). E nem mesmo a gigante Sony conseguiu tomar o trono da Nintendo como líder absoluta no mercado portátil. E olhe que eles tentaram arduamente.

Nos aproximamos do fim do ciclo de vida de ambos consoles, tendo o DS alcançado 146 milhões de unidades vendidas ao redor do mundo — mais que o dobro dos 67 milhões de PSPs vendidos. Considerando que ambos os consoles foram colocados no mercado mais ou menos ao mesmo tempo (no Japão a diferença foi de um mês; nos EUA, quatro), é uma imensa disparidade.

Isso pra não falarmos na praticamente humilhante diferença em jogos vendidos: 839 milhões para o DS, um contraste imenso em relação aos humildes 251 milhões do PSP. Analistas de videogames chamam esta proporção (games vendidos pra cada plataforma) de attach rate. O attach rate do PSP foi de 3.74 (em média, um dono de PSP comprou menos que quatro games). A proporção do DS é de 5.74, consideralmente maior se você levar em consideração o volume que isso significa.

No final das contas, a situação do PSP acabou virando um loop de feedback negativo: o console vende poucos games, o que desinteressa desenvolvedores, o que resulta em menos jogos para a plataforma. E menos jogos produzidos acabam significando menos jogos vendidos. É um ciclo vicioso que sem dúvida contribuiu para a posição do PSP como eterno lanterna dessa geração.

Nintendo 3DS: botão deslizante controla intensidade da profundidade nas imagens 3D

Isso, obviamente, é parte do passado. Embora o legado da Nintendo seja de total dominação do pódio portátil, nesta geração ela começou de forma meio decepcionante. O 3DS vendeu bem menos do que esperado, conforme o presidente da Nintendo, Satoru Iwata, foi obrigado a admitir a contragosto. Com uma vida de bateria sofrível (o máximo que as resenhas reportaram foram quatro horas e meia de jogatina) e um preço salgado, não é tão surpreendente assim que a adesão ao 3DS tenha sido lenta.

E acima de tudo, o carro chefe do console — o efeito tridimensional que não requer óculos especiais — é completamente dispensável, com muitas resenhas chegando a dizer que a opção de desligar o efeito 3D é a melhor de todo o console. Quando o principal apelo de um produto (ou seja, aquela característica que é importante o bastante pra que seja anexada ao próprio nome do aparelho) é considerado redundante e às vezes até irritante, há um problema sério.

Com tantos defeitos, o 3DS não está convencendo o público e faz o PS Vita parecer uma alternativa melhor antes mesmo de ter sido lançado.

Outro fator que talvez explique essa inversão de valores é que o público que consome jogos portáteis mudou muito nos últimos anos. A popularização de smartphones e lojas virtuais (seja a App Store ou o Android Market) colocou joguinhos nos bolsos do mundo inteiro. Estou sendo hiperbólico, sim, mas os números não mentem: os minigames de 99 centavos de dólar definitivamente roubaram um pouco do “trovão”, por assim dizer, dos consoles portáteis tradicionais.

E talvez aí esteja a razão do aparente fracasso inicial do 3DS. O Nintendo DS dominou o ecossistema da sua época porque consumidores não tinham uma alternativa mais barata ou conveniente pra acessar o tipo de jogo mais casual que sempre foi o carro-chefe da plataforma. Hoje em dia, uma considerável parcela do público-alvo do Nintendo DS tem iPhone ou iPod Touch com um sistema de compra de jogos que requer apenas o toque de um botão virtual.

É possível que o público tenha decidido que só precisa de um console casual no bolso — inevitavelmente, eles irão optar pelo que é mais barato e conveniente. E poucas coisas são tão baratas e convenientes quanto joguinhos de 99 centavos de dólar que podem ser comprados pelo próprio aparelho com apenas um clique.

Ainda haverá, como sempre é o caso, jogadores que não se satisfazem com joguinhos casuais de apertar botões na tela de LCD. E nesse nicho mais exigente, acredito que o PS Vita oferecerá uma opção mais robusta que o 3DS porque a maioria dos usuários só verá 3D no nome mesmo.

PS Vita

Como falei de início, esta será uma competição mais interessante do que a hegemonia histórica da Nintendo no bolso dos gamers. Ver um console portátil da Sony no topo de vendas enquanto o da Nintendo amarga números cada vez menores seria uma quebra de paradigma quase inaceitável.

Mas a gente também nunca imaginava que veria Mario e Sonic no mesmo jogo, né? O tempo dirá.