Os leitores desta coluna sabem que minhas impressões sobre o Nintendo 3DS não são das melhores. Expliquei algumas vezes por que acredito que o novo console portátil da Nintendo está caminhando em direção à infâmia comparável a do Virtual Boy, e acho (embora seja suspeito para falar isso) que usei argumentos cujos méritos se mostram evidentes nas tendências atuais relacionadas ao console.

Entretanto, os fanboys esperançosos têm uma resposta para minhas análises negativas. Uma resposta de uma palavra só que, a despeito da concisão, carrega um argumento difícil de rebater:

Pokémon.

É isso aí. Sempre que os fãs da Nintendo se vêem às voltas com críticas ao 3DS, eles apontam que devemos esperar o carro-chefe dos consoles portáteis da Nintendo antes de vaticinar a morte prematura do aparelho mais recente. E é uma resposta à altura.

A única ressalva que guardo em relação à minha “profecia” do fracasso do 3DS é, de fato, o poder histórico da franquia dos monstrinhos de bolso de movimentar consoles da Nintendo das prateleiras pros bolsos dos consumidores.

O apelo da longa série é indiscutível. O gameplay é praticamente perfeito para a natureza de um videogame portátil, e a profundidade do jogo permite que tanto crianças como adultos se percam no mundinho virtual dos bichinhos fantásticos.

Acompanhe-me na retrospectiva dos principais jogos. Para os fins desta lista, considerarei apenas os jogos “cânones” da série, excluindo assim os diversos remakes e spin-offs. Acredito que estes não têm a mesma importância histórica — afinal, enquanto Pokémon Red é antológico, um game como Hey You, Pikachu é completamente dispensável.

Pokémon Red, Green, Blue e Yellow (1996)

A capa de Pokémon Red

Esta foi a primeira geração dos games, lançados no Japão em 1996 e na América do Norte em 1998. Pokémon Green é o mais obscuro, pois não foi lançado fora do Japão. Yellow veio também em 1998, seguindo a imensa popularidade do anime baseado na série. 

Os primeiros jogos estabeleceram as mecânicas básicas da franquia: a batalha de monstrinhos, a captura, a dinâmica “mundo aberto” que permitia livre exploração do ambiente do jogo (ao contrário dos jogos com “fases” que eram comuns àquela época) e a “filosofia” de tentar obter todos os pokémons.

A existência de múltiplas “versões” do jogo nasceu de um aspecto interessante do gameplay. Embora houvesse 151 pokémons a ser capturados, nenhuma cópia individual do jogo tinha a lista completa; alguns eram exclusivos a Red, outros ao Blue. Era necessário trocar pokémons com os amiguinhos na escola pra obter os monstrinhos que não estavam disponíveis na sua versão do jogo — o que firmou a o componente social como uma parte intrínseca do jogo.

Pokémon Silver, Gold e Crystal (1999)

Pokémon Gold no GB Color

Estes três jogos compuseram a segunda geração da franquia, desta vez para Game Boy Color. Estas continuações adicionaram 100 novos pokémons ao mundo do game, trazendo o total para 251 e inicando o que se tornaria uma tradição entre os fãs xiitas do jogo original — ignorar todos os pokémons além dos 151 originais. Se você cresceu curtindo Red ou Blue e o desenho animado na Eliana, arrisco dizer que você faz parte da turma que desconsidera tudo que chegou depois do Mewtwo.

Crystal foi uma miscelânea dos dois outros games dessa geração, com a adição de algumas subtramas e a opção de escolher o sexo do seu personagem. Crystal foi o Yellow dessa geração, digamos assim.

Vale lembrar que 1999 foi também o ano em que o primeiro filme baseado na série estreou nos EUA. A febre pokémon havia dominado o mundo àquela altura.


(Vídeo do YouTube)

Pokémon Ruby, Saphire e Emerald (2002)

A boxart da versão Ruby de Pokemon

A terceira geração da franquia deu as caras no Game Boy Advance três anos depois. Estas versões introduziram na série as batalhas duplas, isto é, aquelas em que quatro pokémons trocam sopapos em pares.

Apesar das resenhas positivas — algo que é uma constante em relação à franquia —, esta geração vendeu um pouco menos que as anteriores. É compreensível: embora não se deva tentar consertar o que não está quebrado, àquela altura já havia 10 jogos de Pokémon que eram essencialmente mais do mesmo (e olha que só haviam se passado 6 anos desde a estreia da série).

Emerald continua a tradição do terceiro jogo que é uma versão especial dos dois anteriores, com pequenas modificações na trama.

Esta geração adicionou 135 pokémons, levando a contagem a 386 monstrinhos. Aqueles 151 originais eram tão simples que alguns de nós sabíamos todos os seus nomes. Agora, isso seria impossível pra gente da nossa idade.

Pokémon Diamond, Pearl e Platinum (2006)

Diamond, Pearl e Platinum são os games da quarta geração de Pokémon. Agora num console com capacidades de comunicação sem fio, estes foram os primeiros jogos da série a permitir multiplayer que não apenas dispensava os cabos, mas que também funcionavam através da internet.

Ok, tecnicamente já era possível jogar Pokémon sem fio desde 2004 (através da gambiarra que era o Game Boy Advance Wireless Adapter), mas não dá pra comparar uma coisa com a outra. Dessa vez a funcionalidade é nativa, e não requer que você esteja sentado do lado de um amigo pra encher o Bulbassauro dele de porrada.

Apesar de um notável upgrade nos gráficos (os ambientes agora eram modelados em três dimensões) e de uma fenomenal integração com a tela de toque do Nintendo DS, Pokémon continua sendo essencialmente o que sempre foi desde 1996. Em gameplay e em visual o jogo ainda é muito familiar; no departamento sonoro então Diamond/Pearl/Platinum é uma lástima. Apesar do hardware avançado do Nintendo DS, os pokémons ainda soam quase idênticos às primeiras versões do jogo.

107 novos pokémons foram adicionados nessa geração, trazendo o total a 493 bichinhos.

Pokémon Black e White (2010)

Pokémon Black no Nintendo DS

Durante a história da saga, a Nintendo costumou lançar uma geração de Pokémon por console. Quebrando esta regra não-oficial, em 2010 o Nintendo DS recebeu a nova geração da série, os títulos Pokémon Black e White. E alguns já consideram esta iteração da franquia uma das melhores até hoje.

Além das novidades de sempre — mais pokémons, uma nova região, uma nova trama —, Black e White trouxeram capacidades online mais robustas e algumas adições bem vindas ao gameplay, como as batalhas triplas (ou seja, seis pokémons brigando ao mesmo tempo, divididos em dois times de três bichos cada) ou em rotação (nessas os seus pokémons e os do adversário ficam sendo trocados constantemente, o que adiciona uma nova camada de estratégia a um jogo a essa altura já bastante formulaico).

Além disso os visuais levaram uma recauchutada; apesar de utilizar a mesma engine do jogo anterior, Black e White abusam da câmera móvel que faz o cenário em 3D parecer bem mais vívido. Além disso, dessa vez os pokémons não são apenas sprites estáticas durante as batalhas: eles se movem! É incrível que demorou tanto para implementarem isso; talvez fosse uma decisão de manter o visual clássico.

Black e White trouxeram 150 novos pokémons (ou seja, atualmente a soma total é de 643).

Concluindo

Apesar de 15 anos sendo basicamente mais do mesmo, a popularidade e o apelo de mercado de Pokémon nunca foram tão fortes. O último lançamento da série é considerado um estouro comercial e de crítica (tornando-se inclusive o terceiro jogo de Nintendo DS mais vendido do ano). Uma nova geração para o 3DS já era uma inevitabilidade prática antes mesmo da Nintendo ter anunciado planos para uma continuação.

E realmente será a salvação para o console portátil moribundo. Ou será que depois de Black e White, até mesmo os fanboys já cansaram da série? O tempo dirá.

por Thássius Veloso » Esse não é o escopo dessa coluna, então eu peço licença ao Izzy Nobre para embeddar o vídeo abaixo. Acredite se quiser, aí está a origem da voz do Pikachu.


(Vídeo do YouTube)

Pika-pi!

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