Início » Jogos » 11 de Setembro: tudo mudou também nos games

11 de Setembro: tudo mudou também nos games

Avatar Por

No último domingo, o mundo inteiro acompanhou (“comemorar” ou “celebrar” não é exatamente o verbete mais adequado pra ocasião) o aniversário de dez anos dos ataques de 11 de Setembro, um dos mais importantes — se não o mais importante — acontecimentos da década passada.

Independente da sua posição ideológica sobre os atentados de 2001 (há quem dedique solidariedade aos americanos; há aqueles que culpam a política externa dos EUA de atrair a animosidade de militantes islâmicos, e há até quem crê que os ataques foram forjados pelo governo Bush), pelo menos uma coisa em relação àquele dia é indiscutível: 11 de setembro de 2001 deixou uma marca irreversível na nossa geração.

Esse tipo de evento tão significante costuma ecoar por todas as facetas da cultura popular. Uma das primeiras sequelas culturais do 11 de Setembro, aquela que lembro com mais nitidez, e que me fez perceber que qualquer retrato futuro de Nova Iorque sofreria mudanças resultantes do atentado, foi a remoção do primeiro trailer do filme do Homem-Aranha, cujo clímax envolvia as finadas torres:


(Vídeo do YouTube)

Este trailer foi lançado poucos dias antes do atentado. A Sony, o estúdio responsável pelo filme, optou por tirar o trailer dos cinemas. A ferida nacional ainda era muito recente.

Como podia-se esperar, os games também sofreram mudanças similares por causa dos atentados. Eis aqui algumas das mais relevantes.

Red Alert 2

Command and Conquer: Red Alert 2 saiu quase um ano antes dos atentados ao World Trade Center. Entretanto, a EA sentiu que a capa do jogo, devido aos recentes acontecimentos, seria inevitavelmente alvo de críticas em relação a insensibilidade.

O jogo, que trata de uma invasão em solo americano, utilizava na capa imagens de monumentos históricos americanos sob ataque.

Antes

Ninguém podia culpar a Electronic Arts. Destruir ícones culturais é uma ferramenta clássica de obras de ficção pra chocar o expectador. Acontece que, com os ataques recentes, a imagem adquiria um mau tom.

A capa então foi modificada pra isto:

Depois

Como você pode ver, omitiram as imagens de pontos turísticos em chamas, e a capa acabou ficando com um visual mais genérico.

SpiderMan 2: Enter Electro

Neste game para o PS1, o clímax era uma luta do Aranha contra um de seus vilões clássicos, o Electro, no topo do World Trade Center. Aqui está uma imagem do jogo antes dos atentados:

O jogo em sua forma original nunca foi lançado. Em vez daquela última fase (“Top of the World“), o game foi lançado com esta (“The Best Laid Plans“):

As Torres Gêmeas viraram um arranha-céu só, com a textura da lateral também alterada pra um visual menos reconhecível.

Spider-Man 2

Este título do PS2 foi desenvolvido num mundo já sem o World Trade Center. Para prestar homenagem às vítimas do atentado, o jogo incluiu — uma medida polêmica na época — uma reprodução do Tribute In Light, uma instalação artística que fica no local onde as torres se encontravam. 88 holofotes projetam raios de luz paralelos, reproduzindo uma imagem similar à das torres quando estas existiam.

Tributo ao World Trade Center

SpiderMan 2 era um de meus jogos favoritos do PS2. A presença das luzes honrando a memória das vítimas destoava muito do tom leve e bem humorado do jogo; era uma lembrança sombria do terror daquele dia que causava uma estranha dissonância por causa do contexto meio brincalhão do game.

Army of Two

O este jogo (que eu julgo pouco apreciado tanto pela crítica quanto pelo público) retrata um tema que se tornou também polêmico nos anos seguintes ao ataque de 11 de Setembro e ao envolvimento bélico gringo no Oriente Médio — o uso de empresas de segurança privada (no bom português, “mercenários”) como complemento ao exército americano. O nome “Blackwater” é familiar a quem acompanhou a controvérsia.

Os heróis da história são mercenários que trabalham pra uma empresa estilo a Blackwater. E a abertura do jogo deixa bem claro qual foi o estopim para o envolvimento deles no Afeganistão:

http://www.youtube.com/watch?v=zG0wHbJT55U
(Vídeo do YouTube)

Grand Theft Auto 3

Originalmente, os carros de polícia de GTA 3 tinham um esquema de cores que lembrava muito mais os carros da força policial de Nova Iorque:

Fazia parte do contexto da série de emular as cidades de Nova Iorque, Miami e Los Angeles. Entretanto, a Rockstar decidiu que os atentados terroristas em Nova Iorque tornaram a ideia de um maluco correndo pela cidade e tocando o pânico um pouco azeda. Por isso, modificaram a cor dos carros, pra diferenciar um pouco.

Considerando que o resto da cidade virtual de Liberty City é uma irmã gêmea da metrópole real, o gesto parece bem fútil. Foi também removido um personagem que incitava o jogador a causar destruição em Liberty City pra atacar a economia da cidade. Aí sim é uma mudança relevante.

Este exemplos reforçam uma ideia que tenho a muito tempo — games são uma forma de arte e, como tal, acabam servindo como um reflexo do seu tempo.

Comentários

Envie uma pergunta

Os mais notáveis

Comentários com a maior pontuação

@renanbdr
Vendo na wikipedia, o jogo foi lançado em agosto, então nossas cópias realmente existem, hahaha!
@renanbdr
eu tenho muita certeza disso também. Posso estar fazendo confusão, mas lembro MUITO de pular entre prédios no final do Spidey 2, lutando contra o Electro.
Yangm
Só prestou a parte do "Aí quando umas das cenas se torna realidade, os ianques viram moralistas e se horrorizam ao lembrar que não são invencíveis."
Yangm
E que pelos vídeos parece ser um console legal para a época :(
Yangm
@brunogbd quando você fala literalmente, você quer dizer que não tem nenhuma EXCEÇÃO. Não adianta remendar, o que foi dito não tem como ser desdito.
ÐaviD
Eu me lembro que o poster do primeiro filme do homem-aranha também foi recolhido (ou modificado, não sei ao certo). No poster, aparece o reflexo das Torres Gêmeas.
@cdmarx
Cara!!! Lembro muito desse trailer do Spiderman, mesmo o tendo visto somente uma vez. Depois meio que usaram o filme para aliviar o sentimento de impotência que o acontecimento gerou. P.S.: Comemorar se refere mesmo a lembrar juntos ou simplesmente relembrar, apesar de soar estranho pela associação da palavra com coisas boas.
Agnatos
Não entendi o lance da hipocrisia mano Rodrigo.
Rodrigo
A velha hipocrisia... Jogos e filmes cansaram de destruir monumentos dos norte-americanos com mísseis, bombas, incêndios e o que viesse pela frente, seja pelas mãos de terroristas, monstros e até alienígenas. Aí quando umas das cenas se torna realidade, os ianques viram moralistas e se horrorizam ao lembrar que não são invencíveis. E se tivessem destruído a Estátua da Liberdade? Teríamos suicídios em massa de Nova Iorque até San Francisco? Não. O Bush era estúpido, mas não tanto. Sabia que se destruísse o símbolo máximo dos americanos, além de um motivo para começar a guerra no oriente, ia despertar uma revolução civil ao redor do mundo.
Vergilio
#off topic Izzy o que vc teria a dizer sobre a reviravolta do 3DS?
Hawk
~Nova Iorque~
@tduarte
No Flight Simulator, antes do 11 de setembro você podia acertar os prédios, agora você só passa por dentro deles, se não me engano.
@Dougfane
Isso é comum, quando acontece algo desse tipo, acaba por modificar toda a sociedade, e não só os games, como também os filmes e séries de TV, acabem tendo de se adaptar as mudanças para não causar choque, estranhamento ou mesmo revolta nos cidadãos.
bawlaw
ahh que coisa chata.. nao aguento mais ouvir falar disso. pensei que ficaria livre aqui pelo TB
Guilherme
Kid, como sempre, excelente texto. Mas fiquei com uma coisa na cabeça. Eu tinha o Spider-Man 2: Enter Electro do PS1, e lembro com quase 100% de certeza que a última fase se chamava "Top of the world". Lembro até que o Peter falava isso na animação antes de entrar na fase. Assim como também tenho praticamente certeza que tinha que ficar pulando entre as duas torres pra conseguir derrotar o Electro. Será que não foram lançadas algumas cópias com a fase original, e depois ela foi alterada? Abraços.
Exibir mais comentários