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É hora de dar adeus aos consoles portáteis

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Apesar de todos os créditos dados ao Steve Jobs em relação aos gadgets que a Apple lançou durante sua gestão, uma coisa é notável quando assistimos alguns keynotes antigos: o homem era um visionário, sim, mas em alguns momentos ficou claro que nem ele sabia exatamente o que tinha em mente para alguns dos seus produtos.

Um bom exemplo disso é a apresentação do primeiro iPhone. Além de chamar alguns dos apps nativos da época de “widgets” (um termo que caiu em completo desuso na plataforma iOS), o Steve se gaba de um Safari que, ao contrário de alguns navegadores portáteis contemporâneos, mostra páginas inteiras em vez de dar ao usuário uma versão condensada dos sites.


(Vídeo do YouTube)

Como qualquer usuário de aparelhos com browser portátil deve saber, esse não é exatamente o melhor método para visualizar sites num aparelho de bolso. Ter que navegar por um site numa telinha pequena como a do iPhone não é uma experiência de uso confortável; tanto é que muitos sites (incluindo o próprio Tecnoblog) têm versões mobile de suas páginas. Ironicamente, uma função que o “pai” do iPhone — calma, estou usando o termo de forma liberal! — criticou quando apresentou o smartphone ao mundo.

Outra função que Jobs não tinha em mente quando trouxe o iPhone ou o iPod Touch ao mundo é que as plataformas virariam um competidor de peso no improvável mercado de games portáteis. Já abordei o fenômeno aqui no TB, há pouco mais de um ano, neste artigo que mostrava a influência que a plataforma atingiu em apenas um ano.

Na época, a fatia do mercado de games (conforme ilustrada por vendas de software) havia saltado de 5% para 19%. Aumento considerável, mas não suficiente para desequilibrar o status quo ou assustar os chefões da indústria.

No ano seguinte, a tendência se manteve: games para iOS e Android (sim, o Android Market também entra na conta!) eram responsáveis por 34% das vendas de games portáteis, contra 9% do PSP — voltando a amargar na lanterna de onde nunca realmente saiu — e 57% do todo-poderoso Nintendo DS.

Foi mais ou menos aí que a indústria percebeu que a tendência não iria retroceder, e que o paradigma do console portátil estava seriamente sob ameaça. Os investidores da Nintendo fizeram burburinho tentando convencer a direção da empresa a investir no mercado portátil fora do seu hardware proprietário, algo que o presidente da Nintendo desconsiderou imediatamente.

E agora, em 2011, a situação é esta:

Software de games portáteis por receita - Estados Unidos

Como se pode ver, houve uma perigosa canibalização do mercado outrora dominado pela Nintendo — há meros dois anos a empresa dominava 70% da receita gerada por games de bolso; tal fatia foi cortada pela metade. Ninguém esperaria que quando a Nintendo finalmente começasse a perder dinheiro (uma soma de 1,31 bilhão de dólares, aliás — ela havia dito a investidores que perderia apenas metade disso), seria por causa de “joguinhos de celular”.

E a situação só tende a piorar. O iPhone 4S, que apesar de ser primariamente um celular, acaba invariavelmente colocando nas mãos do dono uma alternativa embutida à idéia de um console portátil dedicado. E como a Apple vendeu 4 milhões de iPhones no primeiro fim de semana de lançamento do seu novo celular, isso representa um aumento significativo de base instalada da plataforma.

E não é apenas isso. Há também o iPod Touch, cujo potencial como console portátil a Apple já percebeu há muito tempo. Tanto que o aparelho já vem, desde o lançamento da terceira geração, sendo anunciado como console portátil em seus comerciais:

http://www.youtube.com/watch?v=Imxf_Fql0j8
(Vídeo do YouTube)

E há ainda um outro recente fator que, embora talvez não seja ainda conhecimento das massas e não afete imediatamente o apelo do iPod Touch, inevitavelmente ganhará tração. Este recente fator é um conceito tão simples que pode ser resumido em um ícone e duas palavras:

“PC Free”. Com o advento do iOS 5, os aparelhos que utilizam a plataforma deixam de ser um satélite do seu computador e podem existir num vácuo. Na prática, o que isso significa é que o iPod Touch se aproxima mais ainda de ser um console portátil. Não é mais necessário gerenciar o aparelho num computador; basta dar um gift card da App Store para um moleque que tenha um iPod Touch (e o preço do aparelho não é muito distante dos consoles portáteis competidores) e o gadget jamais precisará ser plugado a um PC. Nem para updates.

E isso muda completamente a forma como o iPod Touch é visto e usado. Muda também o iPhone, evidentemente, mas o iPod Touch e sua independência de contratos com operadoras o colocam mais próximo da posição de console portátil. Agora que o MP3 player não orbita mais o seu computador pessoal, você pode compra-lo, liga-lo, e sair jogando.

Fazer previsões registradas de qualquer espécie é um negócio arriscado (tanto no ramo de tecnologia quanto qualquer outro), mas o 3DS e o PS Vita serão os últimos consoles portáteis dedicados e aposto todas as minhas fichas nisso. Sim, eu sei que os gamers hardcore dos portáteis (o que parece um total paradoxo, não é?) repudiam completamente a idéia de um console sem botões.


Em mãos: PlayStation Vita, direto da E3 2011

Essa antipatia é um repeteco curioso da birra que jogadores de FPS tinham com jogos de tiros nos consoles, lembram disso? Embora tenha enfrentado essa rejeição no começo, atualmente FPS de console é um gênero estabelecido. E embora haja ainda um foco de resistência que jura que jamais jogará FPS em periféricos que não sejam teclado e mouse, Call of Duty Modern Warfare vende 6,5 milhões de cópias no primeiro dia de venda (só nos EUA e Reino Unido).

E isso prova que a direção que o mercado e o público consumidor toma nem sempre é um reflexo da preferência da minoria crítica.

Volte a analisar aquele gráfico de vendas lá em cima. A tendência não pode mais ser contida: estou firmemente convencido que nenhum futuro console portátil da Nintendo ou da Sony pode reverter o dano causado por atraentes smartphones/tocadores de mídia com loja online de jogos por um dólar. Competir em igualdade contra a ameaça dos joguinhos da App Store e Android Market demandaria à Nintendo ou à Sony uma completa reestruturação da forma como elas vendem seu peixe.

Ultimamente venho fazendo no Twitter a seguinte pergunta aos meus seguidores: “quem entre vocês já considera um aparelho iOS (ou mesmo um celular Android) como alternativa aos consoles portáteis?” Embora eu não tenha feito um  registro formal das respostas, posso afirmar empiricamente que há um número enorme de pessoas que pensam como eu.

E você?

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Luan Almeida Do Nascimento
Oi Gabriel voltou depois de 3 anos dessa matéria e te afirmo, portáteis no fim e Nintendo lançará jogos para Smartphone, triste história.
Guest
As calculadoras, que só servem para calcular, seriam um bom exemplo de algo especializado. O que as pssoas buscam, na verdade, são equipamentos multifuncionais...
marcelorakto
Hmm... não sei direito oq devo comentar '-' Bom, eu tenho um PSP e acho muito bom jogar nele, mas não consigo imaginar jogar em um celular, tipo, acho que os jogos não seriam tão profundos, acho que seriam jogos apenas para aquelas pessoas que do nada pensam: ''vou dar uma jogadinha''. Eu acho que quem é meio hardcore não vai gostar muito de jogar na telinha pequenininha de um celular, sem botões e até meio difícil de segurar... Sei lá, eu tenho um celular, e acho os jogos que baixei e comprei para ele não muito válidos, só dá para passar um tempinho jogando e depois cansa. Não sei se deu para entender muito bem oq eu quis dizer, mas espero q quem leia o comentário entenda.
Gabriel Ayres
Oi amigo estou aqui com meu 3ds e smartphones ainda não são videogames portáteis.
gabriel
meu deus que tristeza pensar que os portateis vao acabar...
Renata
Pessoal, Vamos com calma nessa hora de falar que o console XYZ vende pouco ou nada. Isso varia um pouco de região para região. Neste site tem uns gráficos, até onde sei, confiáveis: http://www.vgchartz.com/. E a queda de venda do Wii é fato, tem uma reportagem da CNET sobre isso: http://goo.gl/DuwmW. Ainda não li nenhuma análise mas acredito (minha opinião!) que os ataques a PSN afetaram negativamente as vendas do PS3 (que a Sony fique mais esperta agora). Eu não digo que será o fim dos consoles portáteis, mas, certamente, o modelo que conhecemos está com os dias contados. É preciso inovar mais. O esquema da Sony de integrar o PS Vita com o PS3 eu achei interessante a princípio, é uma ideia bem legal. Precisamos de outras assim. Muito embora eu concorde com o @danielneves, "Não dá para comparar o Wii já no fim de sua carreira com o Kinect", eu acho que a Microsoft e a Sony estão devendo, principalmente considerando a diferença de "idade" entre os três. Tenho um Kinect, e tive acesso a um PS Move recentemente (testei com Heavy Rain e Killzone 3), e, não digo nunca que são ruins, mas é fato que eu esperava mais. Ok, eles podem ser melhores do que o Wii Remote, mas, isso hoje, anos depois do lançamento da tecnologia da Nintendo. E eu honestamente acho a precisão do Wii Remote ainda superior à de seus concorrentes.
Alan Lupatini
Ninguém espera, mas podemos observar a tendência de que os smartphones - ou XperiaPlay-likes - ganhem mais espaço. Já existem jogos pra smartphones e tablets melhores que muitos sucessos de DS e PSP. Acho que indústria de games ainda precisa aprender muito sobre como desenvolver pro mobile, mas, quando aprenderem, acredito que os desenvolvedores vão se jogar de cabeça na App Store e no Android Market.
@gpilotti
Gosto de comentários/matérias assim como essa, sem nenhum tipo de senso crítico, baseada no "achômetro" que se sustenta pela falácia argumentativa famosa: "meus amigos usam assim" e ainda, para terminar, vomita números para provar um ponto de vista, ainda que, os números vomitados não provem nada do ponto de vista (pelo menos não pra quem os lê). Mas, sim e não. PSP e DS perderão usuários pro iOS, Android e pro PSP Vita, com toda a certeza, mas irão se focar em outro nicho: os gamers hardcore. Assim como os consoles como o PS3 e o Xbox se focaram no nicho HC e o Wii se focou no nicho mais família. Tem espaço para ambos os mercados sobreviverem sem muitos problemas, afinal, nem todo mundo quer jogos casuais e/ou com controles touch (problema terrível de se jogar em qualquer plataforma que não tenha botão físico algum). Os dois sobrevivem e ninguém espera que o Android ou o iOS tenham 90% do mercado de games portáteis.
@richardmaguiar
Eu já uso o Xperia Play no lugar do meu PSP, e se sair os jogos de luta como Tekken e Soul Calibur pra ele vou abandonar o PSP completamente.
Peter
Discordo totalmente!!! Sou um usuario do Xbox e recentemente comprei um PS3 e advinha o que acabei comprando logo depois. Um PSP!!! Sabe pq? A Sony criou um sistema de acesso remoto para o seu novo portatil, eu simplismente posso jogar meus jogos do PS3 em qualquer lugar que eu esteja. E como se estivese com meu PS3 no meu bolso, simplismente fantastico.
@danielneves
Se o Kinect fosse mesmo o real "adversário" do Wii, teríamos mais Kinects vendidos que Wii, e isto não é o que ocorre. As vendas do Wii tem diminuído pois ele está saturado. Mesmo com poucos lançamentos, seus lançamentos ainda são maiores e melhores que o que sai para Kinect. Just Dance por exemplo, em sua terceira versão vendeu muito mais para Wii que para Kinect. E qualquer uma dos 3 Just Dance lançados para Wii vendeu mais que qualquer outro jogo de música para Kinect. Não dá para comparar o Wii já no fim de sua carreira com o Kinect.
Vinicius Kinas
Um equipamento especializado (calculadora, celular simples, camera digital) sempre vai se sobressair em termos de bateria (e muitas vezes qualidade) sobre um equipamento de uso geral. Mas, diferente das calculadoras - que quem usa e leva por aí, sabe que os smartphones não substituem, e ainda assim é um nicho muito específico - os jogos portáteis miram um um publico alvo que muito provavelmente vai ter um smartphone também, e com o poder de processamento do smartphone chegando nos consoles, desenvolvedores de jogos podem chegar à conclusão que conseguirão atingir um público muito maior com os smartphones, mantendo a mesma qualidade.
Marcos de Oliveira
Nao vejo ninguem comentando que os jogos dos consoles portateis NAO custam 1 dolar e talvez isto explique um pouco o rumo das coisas...
Luiz Siqueira Neto
A calculadora, que só serve mesmo para calcular, não foi deixada de lado; muitas pessoas preferem equipamentos especializados. Outro fator interessante é que se você usa diversos aparelhos para coisas diferentes as baterias tendem a durar mais.
@_Welt
@Gabriel Augusto Alguns jogos já chegam perto (pra não dizer que são iguais) aos jogos dos portáteis que na maioria das vezes tambem são versões reduzidas de jogos dos Consoles "de Mesa". Concordo que a maioria dos jogos ainda são casuais mas com as recentes evoluções nos celulares acredito que jogos mais elaborados deixarão de ser exceções. Dá uma olhada em ShadowGun e Way of Samurai que você vai entender melhor o meu comentário, isso sem falar na versão de bolso de Call of Duty que é muito interessante e tem modo online muito bem feito. Deixo uma questão pra ser levada em conta, o que será que movimenta as vendas dos portateis: Jogadores Casuais ou Hardcores? As empresas não continuarão desenvolvendo jogos e consoles apenas para atender as necessidades de jogadores Hardcores.
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