Uma reportagem do jornal Estado de Minas publicada ontem levanta um ponto interessante sobre a abertura da loja de músicas e filmes da Apple no Brasil. Segundo Alexandre Atheniense, advogado entrevistado pelo jornal, o fato da Apple vender esse tipo de conteúdo no Brasil com preços em dólar vai contra a lei: todos os preços de produtos vendidos no país, sejam virtuais ou não, devem ser mostrados em reais de acordo o Código de Defesa do Consumidor.

Filmes na loja brasileira: dólar não pode.

Filmes na loja brasileira: dólar não pode.

A garantia da empresa de que os preços serão em reais no ano que vem não deve ajudar muito também: a sugestão de um coordenador do Procon de Minas Gerais consultado pelo jornal é de que a gigante da maçã seja denunciada ao Ministério Público para que ajuste os preços o quanto antes e se encaixe na legislação brasileira. Ele cita os artigos 3 e 31 do Código de Defesa do Consumidor, mas é no artigo 52 que isso está realmente explícito:

No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre:
I – preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;

Uma coisa que o advogado provavelmente não lembra é que desde o lançamento da loja de aplicativos para iOS da Apple a empresa já vende conteúdo no país com preços em dólar. Esse comportamento é repetido na Mac AppStore, loja de aplicativos para computadores da Apple. E imagino que esse seja um dos motivos da necessidade de um cartão de crédito internacional na loja – realizar transações na moeda americana.

Então, ao menos na teoria, já faz algum tempo que a Apple estaria indo contra a lei na surdina, pois a AppStore para iOS não é exatamente nova – foi aberta em junho de 2008. Alexandre diz ainda que “não interessa que o produto seja virtual; se a música está à venda aqui, a informação tem de estar em reais”, o que deve englobar também os programas.

Em contraste, o Android Market se adequou nesse aspecto: ele mostra os preços em reais para contas de brasileiros e apenas na hora do pagamento a transação é feita em dólar, como explica esse artigo de ajuda no fórum do Google. Mas enquanto obedece um lado, escorrega no outro – ao vender jogos sem a classificação indicativa, a loja de aplicativos do Google ainda não se enquadra totalmente nas leis brasileiras.

O que isso significa ao usuário final? Se a Apple não se adequar, poderemos ter problemas na compra de programas para seus gadgets no futuro. Se a culpa disso é da burocracia brasileira ao ser restrita demais ou da Apple ao não estudar as leis antes de abrir as lojas no país, fica a cargo de você, leitor, decidir.

Atualização às 16:18 | O colega Pedro Burgos, do Gizmodo Brasil, levanta outra bola: o artigo 52 do CDC diz respeito a venda de itens “que envolva outorga de crédito ou concessão de financiamento” e por isso a exibição dos valores em dólar não seriam exatamente ilegais, já que o que a Apple vende não é parcelado ou financiado. Mas vale lembrar que a iTunes Store brasileira aceita apenas cartão de crédito. Isso já não é uma modalidade de outorga de crédito? E já não seria motivo o suficiente para que os preços fossem exibidos em reais?

O leitor Felipe Cepriano apontou também uma coisa nos Termos e Condições da iTunes Store no Brasil, mas eu notei outra: eles dizem que “o Serviço iTunes é operado pela Apple a partir de seus escritórios nos Estados Unidos”, o que indicaria que a representação brasileira da empresa não é responsável ainda pela iTunes Store. Mas logo depois diz que “Todas as transações realizadas por meio do Serviço iTunes são regidas pelas leis brasileiras, independentemente de quaisquer disposições sobre conflitos de leis”. Confusão?

Já tentamos contato com a Apple Brasil pedindo esclarecimento mas até agora a empresa permanece tão muda quanto uma porta.

Atualização às 16:35 | O título foi alterado para refletir as novas informações.

Com informações: Estado de Minas. Agradeço ao Bruno Maeda pela rápida consultoria.

Comentários

Envie uma pergunta

Os mais notáveis

Comentários com a maior pontuação

João Paulo Mesquita
Rapaz, nossa Justiça é uma coisa, hein. Até agora, nada...
Vitor Fernandes
Se passaram anos e a Apple insiste em vender em dólar no iTunes...
Henrique Bass
Eh e depois de todo esse tempo ainda não foi feito nada. O preço d euma música ta quase 4,00 e álbuns quase 40...
Getúlio Pimentel ™®
E quanto é que voce pagou em reais?
Claudio G De Marchi
QUE COISA MAIS DE MACACO MESMO. O PREÇO É EM DOLAR E PRONTO. PRODUTO INTELECTUAL VENDIDO ONLINE PRODUZIDO LA FORA COM CUSTO DE PAIS EFICIENTE É MAIS BARATO MESMO. NA HORA DE COLOCAR O R NA FRENTE DO SIFRÃO AI ENTRA O PT E O SEU CUSTO BRASIL COM 100% DE IMPOSTO COM RETORNO ZERO
Ju
Pois é... Comprei R$80,00 em app e só me toquei agora, que estou devendo R$ 240,00, que o valor é em dólar, não em real. Engraçado que, como uso cartão pré pago, por não possuir um cartão internacional, coloquei R$ 80,00 para poder comprar um app de + - R$ 20,00. Como foi debitado apenas R$ 20,00 do cartão, eu fiz a festa, achando que seria cobrada em real. Cá estou eu, endividada por motivos de: burrice.
Matheus Pinheiro
Isso mesmo André. De primeira o conteúdo parece até em conta, mas acaba sendo o preço de uma mídia física. Filmes e CDsquase sempre ficam sendo bem mais caros.
Guilherme Parreira
Também acho bobagem. Compra quem quer.
André
O mais absurdo é que eles nem ao menos deixam claro que o preço está em dólar. Aparece só $9.99 ao invés de US$9.99, e como a App Store está em português isso me fez imaginar que seriam R$9.99. Só fui descobrir o engodo quando chegou a primeira conta, e aí já era tarde demais (ainda mais que com a empolgação de ter um iPad novo, que vem quase sem nenhum aplicativo, a tendência é comprar vários aplicativos logo na primeira semana). Com isso a Apple pode até estar ganhando uns trocados a mais, mas vai perder a confiança de muitos clientes.
Almy Fróes
Eu acho que o que pega é a questão dos impostos mesmo. Aliás, pra ilustrar a discussão, não sei se voces sabem, mas em 2008 (o ano da crise, nao sei se foi 2008 ou 2009 exatamente) Warren Buffet, um dos homens mais ricos do mundo, ganhou dinheiro mesmo na crise, pois investiu em outra coisa que não eram ações Sabem em que ele investiu? Comprou reais. http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/2021_DEITADO+EM+BERCO+ESPLENDIDO
Johnny Jonathan
Bom, ele usou uma palavra que é um nome, mas as pessoas sempre usam como adjetivo pejorativo: burocracia. Ele pergunta se a burocracia brasileira é arcaica no meio digital ou a apple que ta burlando tudo. Não conseguir ver a tendencia a parcialidade. Pelo menos na minha leitura eu acabe inclusive vendo a apple como vilã, mesmo sendo um tano fanboy da maçã e não gostar muito de leis burocráticas. Mas talvez eu já tinha uma opinião antes de ler o que fez o não sentir o texto a parcialidade.
Rodrigo Fante
A maioria que compra não se cadastra na app store brasileira, mas sim na americana, daí pode comprar jogos.
caio
to nem ai, meu maior interesse são os jogos e ela nem vai vender... o unico meio de conseguir os jogo é com iphone destravado? =/
Marcelo
nem tudo pode ser perfeito..
Marlon Quandt
@Ramon Melo, se informe melhor antes de chamar os outros de mentirosos, pois apesar do Mojica (Zé do Caixão) ser um ator/diretor que teve o auge do sucesso a muito tempo, ele continua na ativa, e no caso eu me referia a seu filme Encarnação do Demônio, que é de 2008, mesmo ano de Jogos Mortais 5. Não soube do debate político mas também não participaria, pois acho uma bobagem e não levo em consideração a classificação indicativa do governo.
Exibir mais comentários