Arquivo Jogos

Vários “inceptions” do mundo dos videogames

Izzy Nobre
Por

As melhores ofertas,
sem rabo preso

Em 2003, Matrix Reloaded me fez ponderar muito sobre o que viria a se tornar um dos temas que considero mais intrigantes em qualquer ficção: realidade recursiva.

E sim, estou ciente de que O Décimo Terceiro Andar tratou do tema de forma muito mais elegante e sem final cheio de respostas insatisfatórias, mas a ausência de kung fu o fez perder alguns pontos pra trilogia dos irmãos Wachowski.

Realidade recursiva é a ideia de uma simulação dentro de outra simulação. No âmbito gamer, designa jogos que existem dentro dos jogos que você está realmente jogando. Sinta-se à vontade para clicar neste botão quantas vezes quiser durante a leitura desta coluna.

Existe uma forma bem difícil de atingir esse nível de recursividade. Em Minecraft, por exemplo, é possível (com uma paciência que eu imagino se aproximar daquela de um personagem bíblico famoso por sua placidez) construir um computador analógico. Primeiro a turma se contentava em construir coisas como relógios e calculadoras, mas teve quem foi além e não apenas montou um computador dentro do joguinho, como também programou uma versão rudimentar do jogo que eles estão jogando para construir o computador.


Assista ao vídeo no YouTube

Fico com sono só de imaginar o trabalho miserável que um indivíduo desses tem de criar um computador analógico dentro de uma realidade virtual. Por outro lado, esses são os caras que me deixam despreocupados caso uma super tempestade solar ou guerra nuclear reverter nossa civilização à Idade da Pedra. Haveriam diversos destes malucos reconstruindo nossa tecnologia com paus e pedras já no outro dia.

Mas essa é a versão “faça você mesmo”, que é bem mais difícil. Felizmente, pra experimentar realidade recursiva em games você não precisa ser um exímio programador com conhecimento íntimo do funcionamento de um computador (ao ponto de construir um no que é essencialmente uma caixa de Lego virtual).

 

Este é o Pen Ultimate, que agora que eu paro pra pensar é como se fosse o Galaxy Note do protagonista de The Dig. O PDA (lembra desse termo?) era usado pra se comunicar com outros personagens do jogo. Mas se você estivesse de saco cheio de decifrar como diabos combinar os inúmeros itens que você carrega no seu bolso mágico, você pode clicar naquele botãozinho do canto interior esquerdo e jogar Lunar Lander – com direito a comentários do Comandante Boston quando avacalha a alunissagem.

Existem inúmeros exemplos de realidade recursiva nos games de console também. Um bom exemplo é o clássico Shenmue, que tive a oportunidade de reencontrar jogando na casa de um amigo dono de Dreamcast. Posso reportar seguramente que (pelo menos no que diz respeito aos gráficos do jogo) a experiência foi semelhante a procurar fotos contemporâneas das garotas símbolos sexuais dos nossos anos juvenis: é melhor ficar com a lembrança de infância mesmo.

Shenmue foi provavelmente o primeiro jogo que me lembro em que o protagonista podia passear por um arcade, tendo acesso a versões completas de vários fliperamas clássicos.

Todos eram jogos produzidos pela Sega, obviamente. Dois deles (Space Harrier e Hang-On) foram originalmente programados pelo próprio criador de Shenmue. Numa era pré-GTA San Andreas, que nos apresentou a um nível de autonomia no mundo virtual que beira a galhofagem, era um realismo absurdo.

O recente Sonic Generations tem recursividade autorreferente: ao atingir 7.777 pontos, você pode comprar um controle de Mega Drive e então jogar o Sonic original quando passa perto de um Mega Drive no jogo.

Um exemplo que os viciados em MMO devem lembrar bem é que você pode jogar Bejeweled e Peggle dentro de World of Warcraft, que em particular é uma funcionalidade que eu acho que sintetiza bem a ideia de recursividade em games. Embora seja uma função legal e que traz à tona questões filosóficas que eu adorava discutir na época do lançamento de Matrix Reloaded (em relação à inevitabilidade de uma simulação avançada permitir que uma segunda ou terceira simulação aconteça dentro dela), o fato de que esses minigames são geralmente ativados em WoW pra combater o tédio entre uma tarefa e outra no jogo (por exemplo, se deslocar entre dois locais muito distantes) torna a seguinte pergunta inevitável:

Se o jogo é tão maçante que você se sente compelido a jogar outro jogo dentro dele, por que você está jogando-o?

Uma vez fiz essa pergunta a amigos viciados em WoW e a resposta veio tingida com graus variados de animosidade. Em defesa deles, admito que na época postulei a pergunta no formato de uma imagem “engraçadinha” feita justamente pra provocar o fã do jogo. Vou admitir que não é exatamente retórica formal.

Compartilhe com a gente outros exemplos de recursividade em games enquanto jogo Geometry Wars aqui no PGR2!

Izzy Nobre

Ex-autor

Israel Nobre trabalhou no Tecnoblog entre 2009 e 2013, na cobertura de jogos, gadgets e demais temas com o time de autores. Tem passagens por outros veículos, mas é conhecido pelo seu canal "Izzy Nobre" no YouTube, criado em 2006 e no qual aborda diversos temas, dentre eles tecnologia, até hoje.

Mais Populares

Responde

Relacionados

Em destaque