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Decapitações voltam a aparecer no Facebook, que alega “liberdade de expressão”

E não existe nem um aviso ou pop-up anterior para avisar sobre as "imagens fortes"

Jacqueline Lafloufa
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Depois de uma série de denúncias em maio deste ano, o Facebook suspendeu temporariamente a exibição de vídeos que mostrassem pessoas sendo decapitadas, para evitar danos psicológicos em longo prazo em quem por ventura viesse a assisti-los. A decisão foi tomada com base em deliberação do conselho do Facebook, mas agora a situação foi revertida e a suspensão não está mais em funcionamento.

Segundo a própria rede social, permitir a exibição de tais conteúdos faz parte da “liberdade de expressão”, já que os usuários devem ser livres para assistir e condenar tais vídeos. A rede social ainda avisou que está considerando a hipótese de inserir uma janela de aviso antes do início do vídeo, para alertar sobre as imagens fortes, mas isso ainda não foi implementado.

O caso voltou à tona com o compartilhamento de um vídeo que mostra uma mulher sendo decapitada por um carrasco de um cartel de drogas no México. Os usuários que denunciaram o vídeo, marcando-o como impróprio, receberam como resposta que o vídeo “não violava as regras do Facebook acerca de imagens fortes” (!) – ou seja, não estava mostrando alguém sendo machucado (!!), ameaças à segurança pública, roubo ou vandalismo.

“Há muito tempo que o Facebook é um lugar que as pessoas usam para compartilhar suas experiências, particularmente quando estas são ligadas a eventos controversos, tais como violações de direitos humanos, atos de terrorismo e outros eventos violentos”, esclareceu um porta-voz do Facebook, ressaltando que as pessoas compartilham esses conteúdos para repudiá-los e não para celebrá-los.

Ninguém curtiu ver a mulher decapitada, Facebook...

Ninguém curtiu ver a mulher decapitada, Facebook…

Indignações com direitos humanos a parte, psicólogos alertam que bastam apenas alguns segundos para que vídeos do tipo, como os que mostram decapitações, destruam o psicológico de quem o assistiu, tenha sido por vontade própria ou por acidente. “Quanto mais gráfico e colorido for o material, mais psicologicamente destrutivo ele é”, afirma Arthur Cassidy, ex-psicólogo que coordena uma filial do Yellow Ribbon Program, que trabalha na prevenção de suicídios. O fato de o Facebook permitir que adolescentes a partir dos 13 anos façam cadastros na rede social também piora a situação, já que o impacto de conteúdos violentos desse tipo pode deixar um traço permanente na mente de um jovem.

Há quem argumente que vídeos violentos podem ser facilmente encontrados em outros locais da web, como no YouTube, mas o sistema de exibição do Facebook, que popula o feed de notícias dando destaque a determinados conteúdos e incentivando o compartilhamento e a divulgação de materiais, é considerado um agravante.

Além disso, deixar nas mãos do Facebook a decisão sobre o que pode ou não ser veiculado aos usuários é algo que incomoda alguns ativistas, como Jeremie Zimmermann, da La Quadrature du Net, organização francesa de direitos digitais. “O Facebook desempenha um papel profundamente antidemocrático quando faz qualquer tipo de escolha, quaisquer que sejam as boas razões que ele usa para tomar a decisão. De acordo com o estado de direito, apenas uma autoridade judicial deve ser capaz de restringir as liberdades fundamentais”, defende ele.

Até mesmo o primeiro ministro britânico fez questão de se manifestar contra a decisão da rede social, alegando que a empresa “deve explicações sobre suas ações para os pais preocupados”:

E você, acredita que o Facebook tem razão ao permitir que tais vídeos sejam divulgados, ou não? Um aviso de “imagens fortes” seria suficiente para proteger o psicológico das pessoas mais sensíveis? Seriam mamilos mais polêmicos do que um carrasco de um cartel matando uma mulher como na época da guilhotina?

Com informações: BBC e Telegraph

Jacqueline Lafloufa

Bacharel em literatura, especialista em jornalismo científico e comunicação digital, Jacqueline Lafloufa também aprendeu sobre ciência e tecnologia no colégio técnico ETEP. Já trabalhou como programadora, mas hoje atua como produtora de conteúdo, ghostwriter, roteirista, escritora profissional, pesquisadora e podcaster. Foi autora no Tecnoblog de 2013 a 2014 e também já colaborou com o Facebook.

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