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Como a web ajuda os candidatos-celebridade

Bia Kunze
Por

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sem rabo preso

Graças à internet, a comunicação entre candidatos e eleitores deixou de ser uma via de mão única. Com os blogs e as redes sociais, o eleitor é mais ativo no processo.

Diferente de países onde o voto não é obrigatório, as chances de surgirem no Brasil eleitores espontaneamente engajados é muito pequena. Um dos discursos mais célebres do então candidato Obama — que se tornou a cartilha da eleição digital — foi filmado por um cidadão comum e postado num site de vídeos. Mesmo com toda uma equipe de marketing e comunicação trabalhando, o cidadão espontaneamente cria conteúdo e o espalha.

Internautas ainda são uma parcela pequena do eleitorado brasileiro, por isso as cyber-campanhas por enquanto são fracas. Nem se compara ao alcance e força da TV, por exemplo. Por isso candidatos fazem o possível e o impossível para ganhar uns segundinhos a mais na tela.

Quando a disputa é por um cargo minoritário, chamar a atenção é ainda mais penoso.

A web não é cara como a mídia tradicional. Pode ser uma boa alternativa para partidos de orçamento mais modesto. Com um pouco de criatividade, é possível chamar a atenção de internautas e fazer com que os próprios produzam marketing espontâneo. É para isso que existem os candidatos-celebridade.

O papel dos candidatos-celebridade

Jogadores de futebol, artistas e pseudo-celebridades podem até ter as intenções mais nobres quando anunciam a disputa por um cargo público. Mas geralmente, é um partido que os procura fazendo o convite. Não raro, partidos de pouca expressão, também chamado de nanicos. Trazer uma figura popular para a legenda pode significar uma presença forte nas casas legislativas, já que na verdade, as vagas não pertencem ao candidato, e sim, à sigla.

Um deputado eleito com dezenas ou centenas de milhares de votos levará de carona para a câmara mais alguns candidatos, mesmo os que tiverem votação inexpressiva. Foi o que aconteceu com o finado Enéas Carneiro e seu igualmente finado PRONA: em 2002, candidato a deputado federal por São Paulo, obteve a maior votação da história brasileira para tal cargo. Com isso, o partido conseguiu votos suficientes para, através do sistema proporcional, eleger mais cinco — que não chegaram nem a 1000 votos. Em 2006, mesmo doente, foi reeleito com a quarta maior votação no estado.

Por isso a lista de candidatos, digamos, bizarros, em partidos nanicos é grande. Há celebridades de todos os naipes.

O comediante Batoré, por exemplo, ganhou fama através do programa A Praça é Nossa, do SBT. Hoje pleiteia uma vaga de deputado em Brasília. Porém, não é calouro na política: ele já atuava como vereador em Mauá-SP e se considera politizado. Recentemente deu uma entrevista elogiando o colega de partido (PP) Paulo Maluf. Piada de mau gosto…

Mas a maioria das celebridades eleitorais é mesmo novata no ramo. Alvo de muitas críticas pela falta de experiência política, a candidata-funkeira Suellen Rocha, conhecida como Mulher Pêra, se mostra despreocupada: “Tenho alguns assessores por trás de mim.” (sic) Em marketing, pelo menos, ela é competente: num evento com dezenas de políticos veteranos, aproveitou a oportunidade para gravar depoimentos de apoio. O mais notório foi o do senador Suplicy, que a “recomenda fortemente”. O vídeo, uma pérola, rendeu ao senador o apelido de Homem Banana.

Os partidos sabem como ninguém o quanto jogadores de futebol podem angariar votos. Não é à toa que há tantos deles em campanha. Aproveitando a euforia pelo centenário do Corinthians, os ex-jogadores Marcelinho Carioca e Dinei tentam sensibilizar torcedores com slogans “profundos”, como “Candidato do povão, 100 anos do Timão. Dinei. Fui!”

Mas bola da vez é, sem dúvida, o palhaço Tiririca — o verdadeiro viral eleitoral de 2010. Sua campanha a deputado federal em SP é tratada com o maior empenho pela sua legenda, o PR, que além de selecionar o melhor número (2222), banca todos custos. É a grande esperança de votos do partido.

A tática está funcionando. Muitos internautas apóiam a candidatura, alegando “voto de protesto” ou que estão cansados das raposas de sempre. Ou que, de fato, pior não fica, como diz o bordão do pleiteante. Nas redes sociais, vídeos, tuítes e posts se alastram espontaneamente, junto com manifestações favoráveis ao humorista, entre elas:

“É o candidato mais honesto nas suas propostas até agora”
“Se for pra votar em palhaço que seja pra votar no Tiririca”
“Pelo menos faz a gente rir”
“Voto no Tiririca, porque é verdade, pior que tá não fica!”
“Merece ganhar, pelo menos é sincero!”
“Tiririca é do povo” etc.

Numa entrevista dada a um jornal, fica bem evidente que Tiririca é um mero marionete da legenda. O tiro, ops, voto de protesto, pode sair pela culatra: um dos candidatos do PR que pode chegar à câmara federal na garupa do comediante é Valdemar Costa Neto, que renunciou ao cargo de deputado federal em 2005 para escapar da cassação após ser acusado de envolvimento no caso do mensalão do PT. Também foi acusado pelo Ministério Público Eleitoral de compra de votos nas eleições de 2006. Mas se safou.

Além do PR, todos os partidos da coligação “Juntos por São Paulo” (PT, PRB, PC do B e PT do B) podem se beneficiar de uma eventual votação maciça de Tiririca.

Diz-se que a web é a nata da opinião pública brasileira. Será que os internautas estão prontos de verdade para mudar a qualidade do voto no nosso país? Responde aí, ô abestado!

Bia Kunze

Ex-colunista

Bia Kunze é consultora e palestrante em tecnologia móvel e novas mídias. Foi colunista no Tecnoblog entre 2009 e 2013, escrevendo sobre temas relacionados a sua área de conhecimento como smartphones e internet. Ela também criou o blog Garota Sem Fio e o podcast PodSemFio. O programa foi um dos vencedores do concurso The Best Of The Blogs, da empresa alemã Deutsche Welle, em 2006.

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