Humor de privada também nos games

Izzy Nobre
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Se você acompanha minha coluna com frequência, deve saber que eu tenho o hábito de exaltar os videogames ao nível de obra de arte. Não apenas a parte técnica dos games são uma arte à parte (o visual, a música, a atuação de voz, entre outros); o enredo de muitos games em alguns casos deixa seus equivalentes Hollywoodianos no chinelo.

Mas há o outro lado do espectro também. Nem só de alta arte vivem os videogames; alguns deles são bem adeptos ao que os gringos intitulam de “toilet humor“, ou “humor de privada” no bom português. Humor de privada seria o menor denominador comum da comédia, o humor baseado naquilo em funções corporais que contemos quando em público por boa educação: flatulências, eructações e algumas coisas ainda piores.

Lembra dessa cena de Debi & Lóide? Humor de privada literalmente

Dizer que esse tipo de coisa é apreciado por alunos de escola primária talvez pareça uma análise um pouco elitista demais. Por outro lado eu sou obrigado a admitir que, diante do uso que alguns games dão pra esse gênero de humor, meu argumento de que games são arte acaba precisando de uma ressalva.

The Sims

 

The Sims é um dos games mais populares de todos os tempos. Aparentemente, não se alcança tanta gente assim sem se apelar pro supracitado denominador comum. Eu perdoo o fato de que o jogo permite que o uso da privada seja um comando válido pro seu personagem porque, afinal de contas, é um simulador de vida. Mas o jogo não para aí.

Em The Sims, uma das interações que se pode ter com os NPCs é a juvenil brincadeira do “puxe meu dedo”, uma brincadeira norte-americana trazida ao solo nacional graças ao programa Beavis and Butthead nos anos 90. Um dos personagens oferece seu dedo indicador ao outro, convidando-o a puxa-lo. O interlocutor o puxa, ao que o parceiro responde com um peido.

Às vezes eles nem exigem interação com um outro personagem.

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Sem dúvida você deve ter se maravilhado quando, ao jogar The Sims pela primeira vez, viu que os criadores do jogo deram atenção a funções corporais. Não é todo jogo que implementa isso…

Try Not to Fart

Em The Sims, as gracinhas com gases e idas ao banheiro eram contextualizadas pelo fato de que o jogo é um simulador de vida. Por mais crítico desse tipo de humor que você seja, você terá de admitir que necessidades biológicas fazem parte da proposta do game.

Try Not to Fart não tem esse mesmo privilégio.

Pode-se dizer que este pequeno título independente disponível na Xbox Live Arcade é um simulador, também. Em Try Not to Fart (literalmente “Tente Não Peidar”), o seu personagem conhece uma garota e passa por todos os estágios de corte, indo do primeiro encontro até o nascimento do primeiro filho. Acontece que o seu bonequinho digital tem um problema sério de gases, e cabe a você impedir que o sujeito se envergonhe na frente da garota.

Um revés curioso deste game é a mecânica empregada pra controlar a flatulência. Na esmagadora maioria dos jogos, geralmente você precisa executar uma combinação de botões para “soltar” algo — com o perdão do trocadilho. Em Try Not to Fart é exatamente o contrário: você deve seguir sequências cada vez mais difíceis de botões pra não soltar algo. É quase um Genius, sendo que a punição para o erro é soltar gases na frente da nova namorada.

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Simples, com uma arte que faz South Park parecer uma obra da Pixar. Mas tem um certo charme, admita.

Team Fortress 2

Você já sabia que este aqui ia entrar na lista, não é?

Team Fortress 2 é um jogo repleto de um senso de humor mais depravado. Portanto, a adição de uma arma como essas não é lá tão fora do tom do game.

Uma das armas que o Sniper pode destravar é o jarate, um jarro de vidro cheio de urina. Quando ensopado de xixi, o inimigo recebe maior dano das outras armas. Quando usado nos colegas de time, o xixi apaga o fogo causado pelo lança-chamas do Pyro.

Note a atenção aos detalhes da animação. Segundos após ser encharcado com a urina, o sujeito está respingando xixi por todo canto. Classe!

Boogerman

Ahhh, Boogerman. Este jogo rendeu a um pobre colega de classe a alcunha de “mentiroso” pro resto do ano. A molecada da sala simplesmente não conseguia acreditar que um jogo como o descrito pelo nosso amigo existia.

Do começo ao fim, Boogerman é uma ode à escatologia. O próprio nome do personagem — que segue a nomenclatura clássica dos super-heróis (nome de algo significante somado ao sufixo “man”) — pode ser traduzido livremente como “Homem Catota”. Suas armas contra os inimigos são melecas de nariz e arrotos.

Aliás, note no screenshot que os medidores de munição do protagonista são, respectivamente, um dedo tirando meleca do nariz e um potente arroto do herói. Como se não bastasse isso, ao pular em cima dos heróis, o Boogerman solta um peido.

Ah, e mais tarde no jogo o personagem principal adquire a habilidade de planar graças aos seus flatos.

E pra achar powerups no game, o Boogerman chafurda pilhas de lixo. É uma overdose de nojeira.

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É como se o grupo de desenvolvimento do jogo fosse uma turma de quinta série, cada um disposto a ser mais criativamente asqueroso pra chocar os demais. Boogerman é tão gratuitamente repugnante que conheço gente que se sentia mal jogando o game. Um deles é o autor deste texto.

Pois é, nem todo game é arte.

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