Comprar games no Canadá não é tão barato como parece

Colunista comenta os preços cobrados para ter jogos num país bem distante. E revela que não é muito mais em conta do que no Brasil.

Izzy Nobre
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Era uma terça-feira quando recebi o email do Thássius, nosso intrépido editor aqui no TB. Eu estava fazendo cruzadinhas e tomando limonada, que é o que eu geralmente faço nas terças-feiras. Entre um gole do refresco e uma tentativa de apagar uma consoante aplicada ao quadrado errado, li a missiva do colega.

Nela, o Thás me fez uma sugestão curiosa para o tema da minha coluna desta semana. Ele me sugeriu que eu falasse um pouco sobre os custos de ser gamer aqui no Hemisfério Norte, especificamente em relação ao Canadá. Como ele elaborou, temos uma ideia boa sobre como é ser gamer no Brasil (é como quase tudo no nosso país, infelizmente: um pouco complicado), mas no geral a situações em outros países é uma incógnita. Por morar aqui, tenho uma boa perspectiva dos valores exigidos pelo passatempo gamer.

Com exceção talvez de empinar pipa, todo hobby é consideravelmente oneroso. Geeks têm a infeliz distinção de serem atraídos por hobbies particularmente caros: trading card games, revistas em quadrinhos, colecionar filmes e action figures ou, como é o caso relevante a esta coluna, games. E coitados daqueles (como eu e talvez você) que gostam de todos esses simultaneamente; estes interesses formam uma receita gourmet perfeita para o gradual porém inexorável esvaziamento de uma conta bancária, não importa em que país você more. Quando se unem, estes hobbies formam um Megazord de compras que precisam ser explicadas e justificadas para os pais ou esposas.

Antes de mais nada, uma pequena observação: falo na posição de alguém que mora fora do Brasil há quase uma década, e que não era lá tão gamer quando morava aí. Por isso, meu conhecimento do cenário gamer nacional atual pode estar seriamente defasado. Se em algum momento eu disser algo como “aqui no Canadá, a gente faz X” como que deixando implícito que acredito que o mesmo não se faz no Brasil, sintam-se à vontade para me corrigir se necessário.

Pois bem. Aqui fora, existem essencialmente duas opções mainstream para comprar jogos: o chamado “retail puro” e as lojas de revenda.

Por retail puro, compreenda as lojas que operam da mesma forma como qualquer outra loja de qualquer outro produto: tais lojas recebem carregamentos de seus distribuidores (ou, às vezes, diretamente das fábricas dos tais) e os colocam na prateleira por um preço um pouco acima do que pagaram pelo mesmo.

Nesta categoria entram lojas como Walmart, Best Buy, Future Shop e outros estabelecimentos que acabam se tornando mecas tecnológicas para nossos compatriotas que visitam o exterior. Eles vendem games novinhos, ainda lacrados naquele plástico cuja remoção é tão satisfatória. Aliás, nos anos 1990 minha mãe tinha uma dessas traquitanas usadas para selar comida antes de guardar na geladeira, e eu tinha mania de empregar a maquininha para selar meus bonequinhos e minhas revistinhas da “Turma da Mônica” apenas para poder redesfrutar o prazer de romper seus lacres.

Em geral, os preços para lançamentos de Xbox 360 e PS3 oscilam entre 50 e 60 dólares canadenses, o que seria equivalente a R$ 85 e R$ 102. Jogos do Wii raramente chegam a 50 dólares, mesmo no lançamento.

Como você pode perceber, não é lá tãããão mais barato do que no Brasil quanto você talvez imaginasse. Em contrapartida, o salário mínimo no Canadá é em torno de 1.500 dólares canadenses (e nem mesmo funcionários do McDonalds aqui ganham salário mínimo; no caso, o piso salarial é meio que uma sugestão aos empregadores, que geralmente pagam um pouquinho acima disso).

Mas como falei no começo, realmente não é lá tão barato quanto você talvez pensasse que fosse. De fato, embora o poder aquisitivo aqui seja consideravelmente maior, os tais 60 dólares canadenses não são exatamente o troco do pão ou moedinhas que você encontra no painel do carro. Por isso existe a outra opção; uma um pouco controversa.

Além do “retail puro”, existem lojas de revenda como a EB Games (que é a encarnação canadense da GameStop americana). EB Games era o ramo gamer da finada Electronic Boutique (daí a sigla), uma loja de eletrônicos que estava dando seus últimos suspiros na época em que cheguei no Canadá. A Electronic Boutique se foi, mas a EB Games foi comprada pela GameStop e seguiu adiante.

Spider-Man 2 no PS2

Embora também venda games novinhos, o modelo principal de negócios são a revenda de jogos usados. E aí reside a controvérsia.

A EB Games compra games velhos dos clientes (ou melhor, trocam-nos por crédito na loja). À primeira vista parece um bom método de obter algum valor por um jogo velho que você não planeja jogar novamente. Essa ilusão desaparece quando você tenta trocar jogos na loja e descobrem que eles valem, quando muito, entre 5 e 10 dólares. Por si só isso já parece uma furada; essa impressão se concretiza em certeza quando você dá uma olhada nas prateleiras da loja e encontra os mesmos jogos sendo revendidos por 30 dólares.

Eu tentei trocar jogos na EB Games uma vez, há muitos anos. Um dos games era Spider-Man 2 para PS2, considerado “raro” na época (sabe-se lá por quê). O balconista da loja me contou, empolgadamente, que havia meses que ninguém oferecia Spider-Man 2 para troca. O valor que eles me deram pelo game? Sete dólares. Desde os tempos coloniais um brasileiro não era tão explorado por gringos.

Se você quer apenas comprar games, a EB Games não é uma opção ruim: os jogos usados são bastante baratos em comparação aos novos, e há uma garantia de 30 dias. Trocar jogos com eles, por outro lado, é algo que não recomendo. Não é à toa que há um sentimento geral de ressentimento em relação às práticas da EB Games ou da GameStop.

Você teria alguma ressalva em relação a comprar games usados, ou vale tudo em prol de um desconto?

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