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Publicitários ameaçam usar metaverso para campanhas políticas no Brasil

Já estão pensando como o metaverso pode ser usado para comícios eleitorais no Brasil; como a política se encaixa nisso tudo?

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Campanhas eleitorais poderiam ser realizadas no metaverso (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Campanhas eleitorais poderiam ser realizadas no metaverso (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Metaverso. Ultimamente, todo mundo está falando desses mundos virtuais que prometem ser revolucionários. Enquanto inúmeras empresas já começam a explorar como essa tecnologia pode ser usada para criar novos produtos e serviços, publicitários já pensam como tudo isso pode afetar a política.

Nesta semana, a jornalista da Veja Josette Goulart publicou em seu blog que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, ouviu de publicitários algumas dicas bizarras para as eleições. Segundo eles, o metaverso poderia ser usado para fazer comícios virtuais e, posteriormente, esses universos paralelos poderiam até mesmo ter partidos e eleições próprias.

Vamos recapitular um pouco. Resumidamente, o metaverso é um mundo virtual onde as pessoas podem interagir através de avatares, quase como em um jogo online. No entanto, diferente de games ambientados em universos fantasiosos, o metaverso tenta importar a realidade para o digital, trazendo empresas, marcas, NFTs e mais uma série de oportunidades econômicas. Lembra do Second Life? É algo parecido, mas com redes blockchain, criptomoedas e carteiras digitais.

Decentraland é um dos principais metaversos (Imagem: Reprodução/ Decentraland)
Evento realizado no Decentraland, um dos principais metaversos (Imagem: Reprodução/ Decentraland)

E como a política pode se encaixar nessa história? Bom, eu também não tenho a resposta para essa pergunta, mas podemos usar a imaginação e um pouco de pesquisa para pensarmos em algumas possibilidades.

E se o metaverso fosse usado em eleições no Brasil?

Assim como os publicitários sugeriram ao Kassab, uma das aplicações mais palpáveis do metaverso no jogo político é a realização de eventos virtuais, como comícios eleitorais. Sim, provavelmente você deve estar achando essa possibilidade um tanto quanto absurda, eu também, mas é realmente possível que essa seja a realidade daqui a alguns anos.

Na prática, um candidato poderia alugar um lote virtual em algum metaverso, como The Sandbox, Decentraland ou Cryptovoxels. As estruturas podem ser customizadas e vídeos, fotos e áudios podem ser adicionados aos ambientes. No final das contas, é possível organizar algo grandioso muito mais rapidamente do que no mundo real.

Para o político, isso pode ser vantajoso em muitos aspectos, tanto financeiramente quanto no apelo do evento para seu público alvo. Afinal, um comício eleitoral no metaverso certamente será muito menos chato que os tradicionais.

The Sandbox é um metaverso que permite alugar terrenos para realizar eventos (Imagem: Reprodução/ The Sandbox)
The Sandbox é um metaverso que permite alugar terrenos para realizar eventos (Imagem: Reprodução/ The Sandbox)

Além disso, a divulgação do evento pode ser feita através de mais canais e com grande potencial de divulgação orgânica. Afinal, o metaverso segue sendo um espaço de inovação e está chamando muita atenção da mídia, então é de se esperar que um evento desses ganhe até mesmo visibilidade internacional.

Para o eleitor interessado, o evento é acessível através de qualquer computador, com possibilidade de interação em realidade virtual se você tiver acesso aos equipamentos necessários. É uma estratégia particularmente interessante para se conectar com empresas e com o eleitorado mais jovem e antenado nas novidades tecnológicas, mas certamente será excludente para um grande público.

Chegamos a um ponto muito importante para essa discussão. Não sei como essa história de metaverso vai se desdobrar nos próximos anos, mas vai demorar muito para que essa tecnologia seja plenamente acessível para a população brasileira

O brasileiro ainda tem pouco acesso ao metaverso

De acordo com a pesquisa TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) de 2019, 45% das famílias brasileiras cuja renda é de até 1 salário mínimo não possuem nenhum tipo de acesso à internet. No total, 28% dos domicílios ainda estão totalmente desconectados. Nem vou começar a falar da inacessibilidade dos equipamentos de realidade virtual por aqui.

Além das mais óbvias barreiras, o metaverso ainda é algo muito difícil de se entender e usar. Mesmo quem tem acesso à internet e a um dispositivo que possa acessar algum dos principais metaversos, é preciso também ter algum conhecimento de games e de carteiras digitais para não ter muitas dificuldades.

O The Sandbox, por exemplo, é considerado o maior metaverso da atualidade. Para acessá-lo, é necessário criar uma conta vinculada a uma carteira digital e realizar o download do aplicativo. Ainda que não seja um processo particularmente pesado, computadores antigos não devem rodar app.

Muitos brasileiros ainda não têm acesso à internet (Imagem: Misha Feshchak/Unsplash)
Muitos brasileiros ainda não têm acesso à internet (Imagem: Misha Feshchak/Unsplash)

Então, digamos que um político brasileiro promova um comício eleitoral já no ano que vem. Com quem ele vai falar? O metaverso segue sendo algo extremamente nichado e ainda elitizado. Infelizmente, NFTs, blockchain, criptomoedas e realidade virtual são coisas muito fora da realidade da população brasileira.

Um evento político realizado no metaverso certamente iria para os noticiários, poderia até mesmo chamar atenção da mídia internacional, mas, na prática, distanciaria ainda mais a classe política do brasileiro comum. Com otimismo, talvez esse cenário mude nas próximas décadas e se encontrar no metaverso com seus amigos se torne algo rotineiro.

O metaverso pode ajudar a sociedade a se expressar

Se os políticos já pensam em usar o metaverso a seu favor, os cidadãos também podem fazer o mesmo. Conforme a tecnologia se torna mais acessível à população e mais pessoas se conectem ao metaverso, é interessante pensar como a distância física e o pseudoanonimato podem impactar como a sociedade se expressa.

Desde 2013, estamos vendo o brasileiro se tornar mais crítico e ativo na política. Manifestações voltaram a acontecer com alguma frequência, juntando milhares nas ruas. Mas ainda há muitas preocupações que impedem mais pessoas de se manifestarem, como falta de tempo, medo da violência e distância dos grandes centros urbanos.

O metaverso mistura o mundo real com o virtual por meio de tecnologia (Imagem: Lucrezia Carnelos/Unsplash)
O metaverso mistura o mundo real com o virtual por meio de tecnologia (Imagem: Lucrezia Carnelos/Unsplash)

Bom, agora existe o metaverso. Ainda que excludente para muita gente em 2021, nos próximos anos podemos esperar que as pessoas usem esses mundos para se manifestar. Isso é um fenômeno que já vimos nas redes sociais, com hashtags no Twitter e “vomitaços” no Facebook, por exemplo. Para o bem ou para o mal, as pessoas se tornam corajosas na internet.

E daqui a 30 anos?

Vamos exercitar ainda mais a imaginação. O Facebook, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, mudou seu nome para Meta recentemente. A mudança serviu para simbolizar o novo foco da companhia de Mark Zuckerberg no metaverso. Desde então, essa palavra está em todos os cantos da internet.

O universo humano mudará e a vida de seus filhos parecerá estranha. Estranha para você, pelo menos. O mundo digital promete dominar o mundo real, e não é tão absurdo pensar que cada um desses universos digitais construa um sistema político próprio.

Com o avanço do DeFi (finanças descentralizadas), de redes blockchain e das criptomoedas, um metaverso pode operar globalmente, sem vínculo com qualquer país ou moeda tradicional. Com os exemplos que temos hoje, esses mundos virtuais são governados por uma comunidade, de um jeito similar à governança descentralizada das criptomoedas.

Conforme o metaverso se desenvolva, é razoável pensar que a política também fará parte desses universos. Afinal, se estamos falando de um reflexo digitalizado da realidade, com lotes, empresas e uma economia própria, é natural que seja necessária a implementação de algum sistema de governo.

Acho que podemos esperar a ascensão de uma nova classe política dedicada exclusivamente ao metaverso. Imagine prefeituras e governos distritais, com eleições realizadas através de redes blockchain para determinar os governantes. É assustador imaginar como o mundo que conhecemos pode mudar tão rapidamente.