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Guitar Hero realizou meus sonhos musicais, e a Microsoft pode trazê-lo de volta

Rock Band e Guitar Hero marcaram história dos jogos musicais, morreram, renasceram e hoje vivem na lembrança de uma legião de fãs

Felipe Vinha
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Guitar Hero morreu, mas deixou seu legado (Imagem: Guilherme Reis/Tecnoblog)

Quando a notícia de que a Microsoft havia comprado a Activision Blizzard, um sinal de alerta se ligou. Agora a empresa era a dona de várias das marcas do conglomerado, incluindo aí a série Guitar Hero. Isso significa que podemos ter um renascimento real da marca nos videogames em um futuro não muito distante? Eu mesmo fui um dos animados com a possibilidade, já que a série Guitar Hero foi a responsável por realizar o meu sonho de ser um músico – ainda que de mentirinha.

Já tentei tocar guitarra e violão, já quis ser o garoto “cool” da sala de aula que puxa um Legião Urbana com a viola na mão. Mas nunca rolou. Toco, porém, um pouco de bateria real, mas não tenho tanta coordenação motora para exibir grandes solos. Mesmo assim, a bateria não é um instrumento tão portátil que você pode levar para a escola e se exibir na frente das amizades.

Frente a tudo isso, me resumi a ser um apreciador de música, não produtor dela. Foi quando, em 2005, conheci o jogo Guitar Hero, da então produtora Harmonix.

O trailer do Guitar Hero original

Música no controle

Jogos musicais não eram novidade em 2005. Eu já gostava deles, mas era mais comum que existissem em formato de dance, como Pump It e Dance Dance Revolution, fenômenos dos fliperamas. Guitar Hero também não tinha formato inédito, ele se inspirava na série GuitarFreaks, popular no Japão e que nunca teve uma grande chance no ocidente.

Guitar Hero consistia em “tocar” as músicas que passavam na tela, acertando botões coloridos na ordem e ritmo certo. Até o terceiro jogo a marca permitia jogar com controles tradicionais, mas era primordial ter a “guitarrinha de plástico”, um controle em formato de instrumento, que passava a sensação de realmente ser um rockstar na frente da sua TV.

A Activision entrou na jogada em 2007, quando comprou a RedOctane, parceira da Harmonix na produção do jogo. A partir daí a própria Harmonix também foi comprada, mas pela MTV, e resolveu produzir sua própria marca, chamada de Rock Band e expandindo a possibilidade para jogar com mais instrumentos – guitarra, baixo, bateria e até mesmo microfone para os vocais.

Rock Band trouxe toda a banda para se unir (Imagem: Divulgação/Harmonix)

E aí é que começou a minha grande saga com os famigerados instrumentos de plástico.

Instrumentos falsos, música de verdade

Vivemos no Brasil e videogame por aqui sempre foi muito caro. Acessórios pouco comuns, então? Ainda pior. Uma guitarra falsa de Guitar Hero chegava a custar mais da metade de um salário mínimo. Eu trabalhava, mas ganhava pouco ou um valor que não era compatível com a maior parte dos meus hobbies, ao menos em termos de jogos eletrônicos. Ainda assim conseguia comprar uma coisa ali e aqui, economizando alguma grana.

Como disse, Guitar Hero permitiu jogar com controles tradicionais, os joysticks, por um tempo, até ali em Guitar Hero 3: Legends of Rock. Depois disso, por influência de Rock Band, os joysticks morreram e os jogadores foram obrigados se direcionar aos instrumentos de plásticos e notas coloridas. Não eram baratos e nem fáceis de achar, já que importação não estava ao alcance de todos naquela época e os impostos sempre foram cruéis.

Por sorte, uma empresa nacional chamada Leadership Group resolveu criar suas próprias versões das guitarras de plástico. Ainda que bem menores e sem a mesma qualidade das originais, elas eram mais baratas, o que permitiu o acesso para mais pessoas.

Eu, um antigo amigo e nossas guitarrinhas de plástico em uma festa (Imagem: Acervo Pessoal)

Para se ter uma ideia, uma caixa da guitarra de Guitar Hero 3 custava, sozinha, entre R$ 600 e R$ 800, dependendo do estado de conservação ou da boa vontade de quem vendia. Já as versões da Leadership saíam por até R$ 300, com a possibilidade de encontrar promoções e descontos em pequenas lojas de games e informática que ficavam em shoppings.

Era uma grande oportunidade para, enfim, embarcar na onda. Parcelando em milhares de vezes com um cartão de crédito, ficou mais tranquilo para qualquer um que queria ter uma guitarrinha e se divertir de maneira mais realista nos jogos musicais do momento.

Dá para notar que, pelo preço, não era possível esperar uma enorme qualidade no acessório. A foto abaixo compara a versão da Leadership com a oficial da época e as diferenças são muitas:

Guitarra da Leadership era bem menor e menos resistente (Imagem: Reprodução)

Ainda assim, o controle “alternativo” funcionava bem e, principalmente, fazia seu papel de trabalhar como uma mini-guitarra nas mãos dos jogadores. Com ela em mãos, aliás, minha diversão foi garantida durante algum tempo, já que na época eu ainda tinha o PlayStation 2 e, graças ao popular desbloqueio Matrix, o acesso aos games era facilitado para jovens em seus 18 ou 19 anos sem muito dinheiro no bolso.

A banda se une

Ter a guitarra era o primeiro passo, mas o restante seria difícil. Afinal, com a expansão dos instrumentos, a graça passava a ter mais gente para jogar junto, cada um em um controle ou posição na banda, como baixo, bateria e até vocal. Se já foi difícil comprar a guitarrinha, o que eu poderia fazer com a bateria?

Lá pelos anos 2007, quando o primeiro Rock Band foi lançado, ter um kit completo era impossível. Nos EUA ele era vendido por um preço até relativamente em conta, US$ 170, contendo microfone, bateria, guitarra e jogo. No mesmo ano a cotação do dólar estava na faixa dos R$ 2,50 – que saudades –, então a conversão direta colocava o kit no mesmo patamar do que era cobrado apenas na guitarra até um passado próximo.

Mas nem tudo é tão simples para o gamer brasileiro, claro.

Comprar um kit de Rock Band no Brasil, sem trazer na mala numa viagem vinda de fora, podia te custar até R$ 3 mil, ou um pouco menos. As importadoras metiam a mão sem nenhuma pena e dificilmente era possível encontrar o kit com todos os instrumentos abaixo dos R$ 2 mil, mais ou menos o mesmo valor que era para ter um console da época.

O que um desse custava no Brasil era uma brincadeira de caro, tá? (Imagem: Divulgação/Harmonix)

Fiquei um bom tempo sem ter nada além da guitarra alternativa e de um microfone, que era barato, pois servia qualquer um com cabo USB. Só quando Rock Band 3 foi lançado, ou seja, em 2010, que consegui ter acesso a mais instrumentos, obtendo alguma vantagem ao buscar em locais de compra e venda de usados. Também ajudou o fato de que, nessa época, eu tinha um salário maior e posição mais estável no mercado de trabalho. Hobbies caros são complicados.

Foi também com Rock Band 3 que a coisa se complicou mais, pois o jogo adicionou um novo instrumento: o teclado. Por um golpe de sorte, alguns anos depois consegui viajar para os EUA e trazer, na bagagem, não apenas o teclado mas também pratos para a bateria que eu já tinha, deixando a banda ainda mais completa. Com tudo, comprando usado, trazendo na mala e usando equipamentos antigos, consegui gastar menos de R$ 1 mil, o que era uma economia bem considerável para o tempo.

Foi em Rock Band 3 que nasceram os teclados

Até que… Tudo se desfez.

Guitarras de plástico na fogueira

Entre 2013 e 2014 vimos o nascimento de uma nova geração de consoles. PS3 e Xbox 360 estavam ficando para trás, dando lugar a seus sucessores. No caso do PS3, que era meu console titular, a má notícia é que meus jogos existentes não funcionariam no novo aparelho, devido à ausência da retrocompatibilidade. Uma pena, mas não tinha o que ser feito, a não ser migrar para outra marca – algo que eu não queria na ocasião.

Em 2014, decidi vender todos os meus instrumentos de Rock Band para desocupar o espaço que eles tomavam em casa. Além disso, foi a chance de recuperar um pouco do dinheiro que eu havia gasto neles. Não fazia sentido mantê-los, já que meus jogos não funcionariam no novo videogame. Nessa mesma época aconteceu a grande queda e decadência dos jogos musicais de ritmo e a principal culpada foi exatamente a Activision.

Acontece que, enquanto a Harmonix manteve a série Rock Band até então com três games principais e pequenas expansões de conteúdo e spin-offs como LEGO Rock Band e The Beatles Rock Band, a Activision transbordava o mercado com inúmeras versões de seu Guitar Hero, o que deixou o gênero em uma situação complicada.

O mercado não aguentou e Guitar Hero saturou (Imagem: Reprodução/Reddit)

Entre 2008 e 2010 foram lançados mais de 10 jogos da marca e derivados, incluindo versões para Nintendo DS, consoles e até o famigerado DJ Hero, que teve sua sequência lançada no ano seguinte do original. Leia de novo e pense bem: 10 jogos em três anos, uma média de três jogos por ano. Nem Call of Duty tem tamanha audácia.

As vendas, claro, despencaram. O interesse geral do público também. Por mais que Rock Band estivesse fazendo um trabalho decente, focando em expansões e no DLC em vez de novos jogos incompatíveis com os anteriores, a Activision seguiu o caminho da sede gananciosa e sua série musical pagou caro por isso, assim como seus fãs.

Estes motivos levaram a minha vida de “artista musical de mentira” a um hiato. Era a hora de separar a banda e cada um tocar seus projetos solo de vida, tomar um tempo com a família ou qualquer outra desculpa que esses rockstars famosos usam na hora de dar uma pausa.

Mas não por muito tempo.

Triunfal renascimento

Em 2015 a Harmonix surpreendeu o público e anunciou que Rock Band estava voltando. E ainda melhor: todos os instrumentos existentes seriam compatíveis com a nova versão, mesmo em consoles mais atuais. Foi naquele momento que me senti bobo: eu tinha toda a banda completa e sem defeitos, inclusive com as melhores versões possíveis de cada instrumentos, mas vendi pela ilusão de que jamais veria um novo Rock Band, pensando que a série estava enterrada, graças ao fracasso do gênero. Mas não, ela estava de volta.

Rock Band 4 foi lançado em 2015 e veio também compatível com todas as DLCs que os fãs já haviam comprado. Era o cenário perfeito e o melhor dos mundos, mas eu não tinha mais os instrumentos. Fui atrás de conseguir todos de novo, desta vez exclusivamente em sites de usados, como OLX e Mercado Livres da vida. Demorou um pouco, e quase fui enrolado por uma pessoa que tentou me vender uma bateria com os contatos completamente enferrujados, mas no fim das contas obtive um kit completo por preços bem em conta, já que “ninguém” mais ligava para esses jogos.

O retorno com Rock Band 4

Foi também em 2015 que a Activision tentou resgatar Guitar Hero do limbo, com o game Guitar Hero Live. Agora ele usaria uma guitarra inédita, ou seja, era incompatível com modelos anteriores, e o jogo funcionaria como “serviço”, sem DLCs e com acesso a uma espécie de rádio ao vivo para tocar músicas extras além do setlist principal. Desnecessário dizer que, apesar de diferente e promissor, o modelo fracassou e o game vendeu pouco, o que levou seus servidores a serem encerrados pouco tempo depois – mas eu comprei, tá? E aproveitei o que deu.

Uma prévia do funcionamento de Guitar Hero Live

Por outro lado, Rock Band 4 chegou a ter uma boa sobrevida. Na verdade, o jogo está ativo, com servidores funcionando e recebendo conteúdo inédito mesmo hoje, em 2022. No meio do caminho tivemos até uma expansão que trouxe várias novidades ao conteúdo, chamada de Rock Band Rivals. A Harmonix caprichou aqui, trouxe de volta o que importava e sem se prender a firulas ou coisas desnecessárias, o que nos levou, por exemplo, a perder músicas com teclado, instrumento que ficou só em Rock Band 3 mesmo.

Rock Band 4, ou Rivals, também segue ainda como boa opção para reunir amigos em casa e se divertir em uma festa. Os instrumentos, infelizmente, não são mais tão fáceis de se achar, já que não são fabricados, mas uma caçada em grupos do Facebook, sites de usados como Enjoei, OLX, Mercado Livre ou qualquer lugar similar pode te levar a surpresas agradáveis, com preços minimamente decentes.

Os acordes que definem o futuro

Com a compra da Activision Blizzard pela Microsoft, Phil Spencer, diretor da divisão Xbox, já comentou a respeito de um possível retorno da marca Guitar Hero. “Eu estava olhando a lista de marcas [após a aquisição], digo, vamos lá! King’s Quest, Guitar Hero…”, comentou, falando ao The Washington Post. “Esperamos poder trabalhar com eles quando a negociação for finalizada para garantir que tenhamos recursos para trabalhar em marcas que amo desde minha infância e que as equipes realmente querem se envolver”, complementou.

Vale lembrar que, ao longo de todos esses anos citados, muitos outros games musicais surgiram mas não prevaleceram, para além de Rock Band e Guitar Hero. Rock Revolution, Rocksmith, Dance Central, entre outros que ficaram pelo caminho. Nenhum deles também chegou perto de ter o mesmo impacto cultural da dupla citada ao longo do texto – exceto por Just Dance, mas esse é outra história.

Veremos os dois jogos no mercado, juntos mais uma vez? (Imagem: Reprodução)

Se Rock Band vai muito bem, obrigado, Guitar Hero ainda tem um caminho longo para se provar, mais uma vez, pela frente. Enquanto isso, o sonho de ter uma carreira musical de mentirinha já foi bem realizado na minha juventude. Hoje em dia os instrumentos ainda ocupam minha sala e o jogo está sempre pronto, atualizado, para ser jogado na próxima reunião de amigos.

Felipe Vinha

Ex-autor

Felipe Vinha é jornalista com formação técnica em Informática. Já cobriu grandes eventos relacionados a jogos, como a E3, BlizzCon e finais mundiais de League of Legends. Em 2021, ganhou o Prêmio Microinfluenciadores Digitais na categoria entretenimento. Foi autor no Tecnoblog entre 2020 e 2022, escrevendo principalmente sobre games e entretenimento. Passou pelos principais veículos do ramo, e também é apresentador especializado em cultura pop.

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