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GOG pisa na bola e levanta dúvidas sobre distribuição digital

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Não é de hoje que os jogos em que eu mais me interesso são os “abandonwares”. Há quase 10 anos eu já caçava na web todo site obscuro que oferecia velhos joguinhos de computador para download. A única diferença é que, naquela época, os abandonwares em que eu me interessava eram coisas realmente paleozóicas, como Indiana Jones and the Temple of Doom e Alley Cat.

As aspas no abandonware não são para ênfase sarcástica ou por acreditar que a palavra é alienígena para vocês, e sim porque o termo que define esse tipo de jogo sofreu uma mudança nos últimos anos.

O “abandon” de abandonware devia-se à suposição de que tais jogos, por serem mais antigos, haviam sido literalmente abandonados pelos desenvolvedores. Sem espaço no mercado tradicional (aquele composto por lojas de tijolo e cimento, o status quo único e vigente na época), não havia recurso para vender os joguinhos mais antigos. Haviam sido “abandonados”, o que significava carta branca para baixá-los a bel-prazer.

Com o advento do formato de distribuição digital (iTunes, Steam e outros), os detentores de direitos autorais desses joguinhos antigos acharam o meio perfeito pra trazer suas criações de volta ao mundo dos cifrãos.

E aí que entra o GOG.com.

Capa da página do serviço, alguns meses antes de ir ao ar.

Conheci o GOG.com antes do lançamento do serviço. O site se espalhou rapidamente entre fóruns e sites de notícias gamers, e assim que entrou em operação, cadastrei-me e comprei alguns joguinhos. O GOG se diferenciava das outras alternativas de distribuição digital por oferecer conteúdo totalmente independente de medidas draconianas de DRM. Você paga, baixa o seu jogo e faz com ele o que preferir — grava num DVD de backup, instala em quantos computadores quiser, hospeda no seu servidor caso não confie no dos caras… Enfim, a liberdade é plena.

E nos últimos anos o serviço agradou os usuários, com constantes promoções e adições de conteúdo novo. E, subitamente, o site manda a bomba:

Queridos usuários do GOG,

Recentemente tivemos que pensar seriamente se poderíamos manter o GOG.com da forma que é. Debatemos por um bom tempo e, infelizmente, decidimos que o GOG.com simplesmente não pode permanecer em sua forma atual.

Somos muito gratos por todo o apoio que recebemos de todos vocês nos últimos dois anos. Trabalhar no GOG.com foi uma grande aventura pra todos nós e uma jornada inesquecível ao passado, através de uma longa e maravilhosa história de jogos de PC.

Isto não significa que a ideia por trás do GOG.com se foi para sempre. Estamos fechando o serviço e colocando esta era para trás enquanto novos desafios esperam.

Numa nota técnica, nesta semana estaremos implementando uma solução que permitirá a todos baixar novamente seus jogos. Fiquem ligados nesta página e nos sigam no Twitter e no Facebook para mais novidades.

Sem mais nem menos, sem qualquer aviso prévio, o serviço aperentemente fechou as portas. Alguns sites de tecnologia suspeitaram tratar-se de um golpe de marketing, e de fato era: o GOG voltou ao ar, prometendo relançar o site com várias novidades. O aviso de adeus era uma pegadinha.

A julgar pelos comentários na página do Facebook do GOG, a maioria dos usuários não ficou feliz com a brincadeira. Apesar de perder acesso aos seus jogos apenas por poucos dias, a brincadeira trouxe de forma brusca o lembrete de que num mundo estritamente digital não há garantias. Quando se compra o DVD de um jogo, ao menos você tem algo tangível na gaveta. Já o modelo digital é etéreo, intangível.

Demorou algum tempo para convencer o consumidor de que a distribuição digital poderia ser um negócio válido, e é no mínimo irresponsável da turma do GOG fazer uma brincadeira que coloque essa confiança em risco. Até mesmo os maiores defensores da distribuição digital tiveram que admitir que a barreira da intagibilidade dos bens adquiridos via download está sempre no horizonte.

Por outro lado, algumas das críticas em relação à história não são lá tão razoáveis. Uma das reclamações que eu li por aí é que, se o GOG tivesse saído do ar definitivamente, os clientes estariam sem recurso para baixar os jogos novamente, e que isso é uma sacanagem com o consumidor.

Eu não posso concordar completamente com essa análise, porque neste quesito a distribuição digital não se diferencia da alternativa, o comércio “físico”. Se você compra um jogo numa loja e perde o disco, não deveria ser responsabilidade da loja substituir o jogo perdido, não é? Eu não acredito que ter uma fonte inesgotável de cópias de segurança seja o carro chefe da distribuição digital. Isso é particularmente relevante no caso do GOG, que não usa nenhum tipo de DRM e facilita seus backups pessoais.

O que você acha disso? Que o GOG foi um tanto irresponsável na brincadeira, creio que isso é unanimidade. Mas você continua acreditando na distribuição digital ou o susto te levou de volta para as lojas?