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Vacina da COVID-19 com Bluetooth? Tem gente no Brasil que caiu nessa

Em redes sociais como Twitter e YouTube, circula o boato de que vacinas contra COVID-19 estariam tornando pessoas em pontos de Wi-Fi e Bluetooth ambulantes

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Vacinação é o método mais eficaz de combate à COVID-19. Isso é um fato científico que torna-se cada vez mais nítido: no momento, a maioria das internações e mortes pela doença registradas no Brasil são de pessoas não-vacinadas. Mas um boato que vem circulando pela internet é de que os imunizantes contra COVID-19 fazem com que pessoas sejam capazes de transmitir… Bluetooth? E tem gente que cai nessa.

De onde vem o boato de que vacina transmite Bluetooth?

Como muitas das notícias falsas que circulam pela internet, o boato de que seres humanos viram redes de transmissão Bluetooth após tomarem as duas doses da vacina contra a COVID-19 persiste em rede sociais como Twitter e YouTube há alguns meses.

Em junho, com o avanço da vacinação pelo Brasil, o Fato ou Fake, página do g1 responsável por checagens, se deparou com um vídeo viral de um homem falando que mais pessoas estavam se conectando à “rede Wi-Fi” por conta do Bluetooth. Segundo a pessoa, os vacinados estariam “marcados” por códigos estranhos. Seria possível visualizar esses códigos ao procurar por aparelhos Bluetooth no celular.

A desinformação é tão absurda quanto persistente. Um mês depois, a CNN Brasil inaugurou seu quadro “Vacina a Sério”, que desmente informações falsas sobre os imunizantes de COVID-19, como o boato do Bluetooth. A pergunta do quadro ainda trazia o rumor de que os vacinados seriam capazes de transmitir sinal de Wi-Fi.

Mais recentemente, tweets voltaram a citar esse boato. No Twitter, um usuário postou uma foto de sua tela de celular com diversas sequências de aparelhos Bluetooth, com a legenda “CENTENAS DE SEQUÊNCIAS. ENTENDEDORES, ENTENDERÃO”.

Imagem que circula com supostos pontos de conexão indicando seres humanos vacinados é falsa (Imagem: Reprodução)

Muitas vezes, fake news como essa se mantêm longe das bolhas mais conscientizadas das redes sociais, dentro de sua própria câmara de ressonância. Muitos desses núcleos — longe do alcance da ciência e dos fatos — continuam não só a acreditar na mentira, mas também a impulsioná-la para fora. Isso justifica a recorrência do mito da vacina com Bluetooth.

No vídeo da CNN no YouTube, é possível observar comentários que não são só de julho, mas também de agosto, setembro, outubro. Alguns foram escritos semanas atrás. Um deles diz:

Acontece sim [vacinados transmitem Bluetooth]!! Liguem o Bluetooth em um local de muita circulação de pessoas. Não são todas que emitem código. Mas existe sim! Aparelhos eletrônicos aparecem com nome, marca e modelo. Vacinados aparecem com código de números, letras e “:”. É uma sequência de 12 dígitos separados por dois pontos.

Outro comentário alega que a emissora está omitindo informações para esconder o que está “de trás dos panos”. A vacina transmitindo Bluetooth seria algo oculto à opinião pública:

Aham kkkkkk vcs não enganam mais não, a gente ja tá ligado no que tá rolando por detras (sic) dos panos

É impossível ser humano e poder emitir sinal Bluetooth

Não há fundamento para acreditar que as vacinas são capazes de introduzir, por meio de uma seringa milimétrica, componentes capazes de transformar um corpo humano em um transmissor de Bluetooth. Não é possível conectar aparelhos como a caixa de som da JBL, ou ainda transmitir fotos e vídeos ao nosso cérebro (ainda).

À AFP, o professor de Engenharia e Nanotecnologia da UFRJ, Tiago Balbino, explicou que há dispositivos capazes de se conectar à rede que podem ser inseridos debaixo da pele humana ou animal, como chips. Mas a tecnologia não avançou a ponto de inserir equipamentos microscópicos por meio de seringas.

Ao g1, o professor da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em microeletrônica pelo Instituto Politécnico de Grenoble, na França, José Camargo Costa, afirma que o boato é absurdo — para variar, como toda teoria da conspiração:

“Uma pessoa que toma uma vacina não vira um equipamento de telefonia celular. A comunicação via Bluetooth precisa de um equipamento porque nosso organismo não gera os sinais do Bluetooth nem os sinais de Wi-Fi, nenhum sinal desses de comunicação. Nós não somos geradores de sinais Bluetooth nem de Wi-Fi, nem de nenhum sinal de rádio utilizado”

Para se conectar por Bluetooth, o corpo humano precisaria emitir ondas de rádio. Ninguém é capaz de emitir essas ondas por vontade de pensamento, desejo ou mesmo após ouvir palestras de coach quântico. Nenhum vacinado precisa passar por homologação da Anatel — diferentemente de qualquer equipamento que emite frequências no Brasil.

Sobre as alegações de que vacinados emitem um sinal identificável por uma série de números ou letras, qualquer um pode nomear uma conexão Bluetooth e colocar, por exemplo, AstraZeneca123. Não é possível provar que o sinal é emitido por pessoas pelo padrão no nome da rede.

“Não existem chips líquidos dissolvidos nas vacinas. As vacinas contra a COVID-19 são seguras. Quando chegar a sua vez, vacine-se”, concluiu a presidente da Associação Brasileira de Microeletrônica, Linnyer Beatrys Ruiz Aylon.

Com informações: g1, AFP e Instituto Butantan