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Quem tem medo de NFC? As verdades e os mitos sobre pagamento por aproximação

Em alta, pagamento por aproximação ainda gera dúvidas e preocupações; especialistas explicam se método é seguro

Bruno Ignacio
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Você tem medo do contactless?
Você tem medo do contactless? (Imagem: Guilherme Reis/ Tecnoblog)

Os pagamentos por aproximação cresceram muito rapidamente durante a pandemia. Seja pelas transações com cartões contactless ou via NFC em smartphones, a possibilidade de reduzir o contato com a maquininha se tornou uma proteção adicional contra a COVID-19. No entanto, os relatos de golpes e a dispensa de senha para concluir uma compra ainda assustam os brasileiros.

Segundo um levantamento da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), os pagamentos contactless, com uso da tecnologia NFC (Near Field Communication), são hoje a modalidade de transação que mais cresce no Brasil. No primeiro trimestre de 2022, 30% de todos os pagamentos presenciais foram realizados por aproximação.

Mesmo com tanto crescimento, o brasileiro ainda parece estar receoso em relação ao contactless. Uma narrativa comumente disseminada é que criminosos podem, por exemplo, passar discretamente uma maquininha por sua bolsa ou carteira e realizar uma transação sem você perceber.

Seria esse medo justificado ou exagerado? Por mais que não existam dados concretos sobre a frequência de fraudes envolvendo essa tecnologia, há diversos relatos de consumidores denunciando transações indevidas via NFC. Afinal, o que é verdade e o que é lenda sobre essa tecnologia?

Os benefícios: transações mais rápidas e práticas

Em entrevista ao Tecnoblog, Edson Ortega, vice-presidente de risco da Visa no Brasil e porta-voz da Abecs, explicou que a chegada dos cartões contactless trouxe uma grande lista de benefícios para os consumidores e comerciantes. Todas essas vantagens, alinhadas com as práticas de combate à COVID-19, causaram um crescimento gigantesco no uso dessa modalidade de pagamento nos últimos anos.

“A experiência do usuário é a palavra-chave aqui. Eu, por exemplo, só uso a função de aproximação para pagamentos, pela facilidade e agilidade na operação. Mas essa linha de benefício vai mais além. Em alguns tipos de comércio, a maior velocidade e eficiência no atendimento faz uma diferença absurda no final do dia.”

Edson Ortega, vice-presidente de risco da Visa

Ortega também destaca a facilidade de se começar a usar a função de pagamentos via NFC pelo celular. Isso dá ao consumidor mais uma alternativa prática e rápida para realizar compras, enquanto dispensa a necessidade de carregar consigo um cartão físico.

Pagamento por aproximação (imagem: Tecnoblog)
Pagamento por aproximação usando o celular (imagem: Tecnoblog)

A tecnologia se tornou mais conhecida e utilizada no início da pandemia. Dados da Abecs indicam que o pico inicial de crescimento foi registrado no primeiro semestre de 2020. Na época, a alta no uso do NFC foi de 330% durante o período.

No primeiro trimestre de 2021, os números continuaram decolando. Com as medidas de distanciamento social, os pagamentos por aproximação cresceram 372% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Em 2022, esse crescimento se tornou ainda mais acelerado. Somente no primeiro trimestre deste ano, foram contabilizadas 2 bilhões de transações via NFC, alta de 474% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Assim, a modalidade contactless já representa 30% do total de pagamentos presenciais com cartões, segundo a Abecs.

O Tecnoblog também conversou com a economista e coordenadora do programa de serviços financeiros do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ione Amorim, sobre a tecnologia NFC e sobre o receio do brasileiro diante da funcionalidade.

“O cartão, ou ainda o NFC do celular, permite que o consumidor realize pagamentos com mais praticidade, sem precisar usar senhas. A transação é mais rápida ao simplesmente encostar o cartão… Esses são pontos positivos dessa tecnologia que se popularizou especialmente entre os mais jovens. São facilidades para o cotidiano, mas há um outro lado com o qual devemos tomar cuidado.”

Ione Amorim, economista e coordenadora do programa de serviços financeiros do Idec

Os contras: difícil de contestar transações

Nenhuma tecnologia é perfeita. Conforme destacado por Amorim, a popularização dos pagamentos por aproximação também evidenciou alguns problemas envolvendo essa modalidade e como ela funciona atualmente.

Por exemplo, há pouca transparência entre os emissores de cartões e o consumidor. Qual o limite para transações contactless? Quando é necessário colocar senha? É possível desativar a função? Muitas pessoas não sabem, e as instituições financeiras pecam em informar os usuários.

Pagamento por aproximação
Muitas pessoas sabem pouco sobre o pagamento por aproximação (Imagem: Divulgação/Visa)

“Na primeira vez que tive contato com a tecnologia, eu confesso que logo pensei nos possíveis problemas de segurança”, afirma Amorim. Segundo a economista, os contras dos pagamentos por aproximação ainda são bastante expressivos. “Me lembro que antes da pandemia, ainda no carnaval de 2018, vi um grande número de denúncias sobre golpes com pagamentos por aproximação, principalmente em blocos de rua.”

Amorim acredita que a pandemia trouxe uma nova necessidade de evitar o contato físico pelo medo de se contaminar com o vírus. Assim, se criou mais um motivo para que o consumidor optasse pela tecnologia NFC na hora dos pagamentos presenciais. “No entanto, muitos aderiram à tecnologia sem conhecer nada sobre ela, inclusive seus riscos”, afirma a especialista.

Para ela, outro ponto delicado nesta história foi o amplo lançamento da tecnologia NFC sem a devida orientação aos consumidores:

“Por exemplo, não há um termo de adesão, o recurso é ativado sem o consentimento do cliente, não se explica em quais momentos a tecnologia pode ser usadas e tampouco se fala sobre seus riscos. Você pode ser vítima de uma transação indevida ao manter seu cartão em lugares como bolsas e mochilas em ambientes lotados, como ônibus, metrô e etc.”

Por mais que os valores máximos autorizados para esse tipo de operação sejam relativamente baixos, pequenas transações passam despercebidas mais facilmente, demorando para que o consumidor as identifique. Além disso, muito provavelmente a vítima não vai conseguir identificar quem fez a compra indevida.

O que é possível fazer é entrar em contato com a administradora do cartão e avisar que foi vítima de uma operação não autorizada. “No entanto, o processo de contestação é mais difícil. Não é tão simples provar que não foi você que realizou uma compra presencial”, explica Amorim.

“As instituições, ao venderem só as facilidades, também se tornam responsáveis por eventuais golpes, já que não informaram devidamente o consumidor. Por exemplo, há pessoas que nem sabem que seu cartão possui a função de pagamento por NFC, enquanto muitas outras desconhecem que é possível desativar o recurso, se assim quiser.”

Ione Amorim, economista e coordenadora do programa de serviços financeiros do Idec

A economista também diz que as instituições não informam claramente os limites para transações por aproximação ao usuário. Segundo ela, o consumidor deveria poder controlar esse valor de maneira fácil e rápida.

O medo: vítimas relatam transações indevidas por NFC

O Tecnoblog identificou dezenas de denúncias de compras não reconhecidas via cartões de crédito e débito realizadas por aproximação no canal Consumidor.gov. Em alguns casos, houve o roubo da carteira ou cartão da vítima, enquanto em outros a pessoa nem sequer entende como a transação poderia ter sido realizada, indicando um possível golpe.

Celulares roubados são porta para fraudes financeiras (Imagem: Gilles Lambert/Unsplash)
Vítimas relatam golpes com pagamentos por aproximação (Imagem: Gilles Lambert/Unsplash)

Após ter o cartão furtado, este consumidor relatou múltiplas pequenas transações feitas via NFC com seu cartão:

“Perdi meu cartão e as compras foram feitas por aproximação e internet. Em nenhum momento foi autorizado por mim o desbloqueio da função por aproximação. O banco me informou que não poderia fazer nada em relação às compras indevidas… as compras totalizaram R$ 892,00”.

Outra vítima afirma que identificou vários pagamentos indevidos, realizados por aproximação com seu cartão. A pessoa afirma não ter sido furtada e diz que mantinha seu cartão consigo o tempo todo, indicando um possível golpe:

“Me foi informado que não poderiam fazer nada, já que o cartão estava comigo e a compra havia sido feita por aproximação. Quando fiz o cartão, não me foi repassada essa informação de que o mesmo seria por aproximação. Caso soubesse, jamais teria feito, pois vejo constantemente as fraudes e ataques feitos contra quem possui cartões com essa facilidade.”

Este consumidor relata outro possível golpe, quando percebeu várias transações indevidas realizadas por aproximação com seu cartão de crédito:

“Três compras de R$100,00 foram feitas no mesmo estabelecimento e efetuadas no mesmo minuto… Após vários dias de ligações na tentativa de resolver o meu problema, fui informado que o valor não será ressarcido. A central considerou que as compras foram seguras e feitas por aproximação.”

Um fator comum entre as diversas reclamações é a falta de informação sobre como desativar a função de pagamento por aproximação de seus cartões. Outra queixa constante é a dificuldade em se comprovar que a compra via NFC não foi realizada pela vítima.

Na prática, é necessária uma distância de 4 cm entre o cartão e uma maquininha para realizar uma transação por aproximação. A modalidade já vem habilitada automaticamente na maioria dos cartões atuais. Assim, muitas pessoas nem sabem que é possível alguém mal-intencionado passar uma maquininha perto de sua bolsa ou carteira e, dessa forma, realizar discretamente uma compra.

Google Pay (imagem: Divulgação)
É necessária uma distância de no mínimop 4 cm para o NFC funcionar (imagem: Divulgação/ Google)

Mesmo assim, o número de denúncias ainda não é muito expressivo, ainda que esteja crescendo. Dados do Procon de São Paulo mostram que, entre julho de 2021 e maio de 2022 foram registradas 407 reclamações relacionadas a pagamentos por aproximação. Isso pode ocorrer pelo simples desconhecimento sobre a tecnologia e sobre esse tipo de fraude, ou ainda porque elas realmente não são tão comuns assim.

O mito: clonagem do cartão por NFC não existe

Segundo Ortega, existe a crença de que os pagamentos por aproximação poderiam, de alguma maneira, facilitar a “clonagem” do cartão e das informações contidas nele, mas ele garante que isso é um mito e que a modalidade é segura. “Isso não existe. Os dados transmitidos por contato ou remotamente são igualmente encriptados, então a clonagem não é possível em nenhum dos casos”, explica o executivo.

“É importante deixar claro que a tecnologia de criptografia que temos em um cartão com chip de contato é a mesma de um cartão contactless. Em ambos os casos, a segurança é a mesma e é muito alta. O mobile payment (pagamentos via NFC por meio de celulares) também carrega o mesmo nível de confiabilidade.”

Edson Ortega, vice-presidente de risco da Visa

Mas o maior medo do brasileiro diz respeito aos possíveis golpes permitidos pela tecnologia NFC. Conforme argumentou Ortega, tecnicamente falando, realmente é possível que alguém aproxime uma maquininha de pagamentos da carteira ou bolsa da vítima, “a tecnologia até permite isso”. No entanto, para ele esse medo popular não é tão justificado.

Durante a entrevista, Ortega trouxe dados levantados pela Abecs. Durante dois anos, a Associação realizou estudos no mercado nacional e internacional para definir o limite padrão de R$ 200 para compras por aproximação sem a necessidade de se colocar senha. Segundo o executivo, a vasta maioria de golpes e fraudes sempre ocorreu com valores mais altos, “de R$ 800 para cima”.

Privacidade e proteção de dados (Imagem: Pete Linforth/Pixabay)
Transações contactless e por inserção possuem o mesmo grau de criptografia de dados (Imagem: Pete Linforth/Pixabay)

Golpes com contactless não compensam o trabalho

Explicando um pouco melhor esses supostos golpes, Ortega diz que, para cada transação, os operadores dos cartões e as instituições financeiras possuem mecanismos que avaliam o grau de risco que determinada operação representa. “Dependendo do padrão comportamental do usuário do cartão, uma transação por aproximação pode ser bloqueada automaticamente se for determinado que há um alto risco de ser uma fraude”, diz Ortega.

O executivo explica que, por parte de empresas de serviços financeiros como a Visa, há sistemas de inteligência de rede neural “de última geração” que avaliam os riscos de pagamentos por aproximação. A partir dessa triagem, cada entidade que emitiu o cartão pode tomar diferentes ações, de maior ou menor precaução, bloqueando a compra, solicitando senha, ou permitindo que a transação aconteça uma primeira vez.

Além desses mecanismos, Ortega acredita ainda que, por parte do fraudador, realizar esse tipo de golpe não é algo muito simples, rápido ou prático. Afinal, o criminoso teria que conseguir uma maquininha. Por vias tradicionais, geralmente se abre uma conta em uma credenciadora, se registra o equipamento e, como um suposto comércio, o equipamento também passaria a ter seu volume transacional monitorado.

“Um cadastro caracterizado como uma loja de brinquedos, por exemplo, chamaria a atenção se múltiplas operações ocorressem a cada dez segundos. Além disso, é avaliada a localização do negócio, qual seria a entrada média de capital, volume de vendas e muitas outras coisas.”

Edson Ortega, vice-presidente de risco da Visa

Ou seja, a não ser que o criminoso possua uma maquininha adulterada e que funcione ilegalmente, todos esses procedimentos são complexos, trabalhosos e arriscados demais para realizar fraudes de valores baixos. Para Ortega, esses golpes simplesmente não compensam para o criminoso.

Como se prevenir contra possíveis golpes via NFC?

Mesmo com todos os mecanismos e dificuldades, criminosos ainda podem conseguir achar um jeito, e os relatos que vimos nesta reportagem são uma prova disso. No entanto, as situações mais comuns e perigosas envolvendo pagamentos por aproximação ocorrem quando há furtos de bolsas e carteiras. Assim, o criminoso ainda pode realizar diversas pequenas transações antes que a vítima perceba que foi roubada.

Pessoa com um cartão (Imagem: Anete Lusina/Pexels)
Guarde seu cartão de forma segura e se atente à notificações de compra (Imagem: Anete Lusina/Pexels)

Segundo Amorim, a principal medida contra isso é possuir um sistema de notificação de compras habilitado no seu smartphone. Dessa maneira, assim que uma transação indevida ocorrer, o consumidor pode bloquear o cartão. No entanto, o resto é com as instituições financeiras, que devem melhorar seu atendimento e procedimentos para cancelar esse tipo de transação.

“Se você estiver em um ônibus e receber uma notificação avisando que uma transação, de R$ 100 ou R$ 200, acabou de ser realizada com seu cartão físico por aproximação. O que você pode fazer?”, questionou Amorim.

No final das contas, os bancos e instituições financeiras geralmente permitem a desativação da função NFC nos cartões, se assim o cliente desejar. Os procedimentos variam de entidade para entidade. Às vezes é possível configurar o recurso contactless por aplicativo, enquanto em outras situações é necessário ligar diretamente para o banco e realizar a solicitação.

Por mais que se fale muito em golpes envolvendo pagamentos por aproximação, essas situações não parecem ser tão comuns quanto a internet acredita. De qualquer forma, não custa nada manter seu cartão com NFC guardado em um lugar mais seguro, impedindo que alguma maquininha chegue muito perto dele sem você perceber.

Bruno Ignacio

Bruno Ignacio é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero. Cobre tecnologia desde 2018 e se especializou na cobertura de criptomoedas e blockchain, após fazer um curso no MIT sobre o assunto. Passou pelo jornal japonês The Asahi Shimbun, onde cobriu política, economia e grandes eventos na América Latina. Já escreveu para o Portal do Bitcoin e nas horas vagas está maratonando Star Wars ou jogando Genshin Impact.

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