Não leve muito a sério os dados do seu wearable

Esses dispositivos ainda não são precisos, razão pela qual só servem para estimativas

Emerson Alecrim
Por

Moto Body

Você comprou um smartwatch ou uma smartband e, graças ao dispositivo, está pegando firme nas atividades esportivas. As medições de batimentos cardíacos, passos dados e distâncias percorridas te motivam a manter uma rotina diária de exercícios. Isso é ótimo! Você só precisa tomar cuidado para não levar os dados desses dispositivos a sério demais.

A proposta varia de fabricante para fabricante, de modelo para modelo, mas, via de regra, os wearables estão sendo desenvolvidos para monitorar vários aspectos da sua saúde e associar esses dados com parâmetros de atividades físicas.

Imagine, por exemplo, uma pessoa que corre todos os dias. No início, ela fazia percursos curtos, com um ou dois quilômetros de extensão. Depois, ela aumentou para três, cinco e, finalmente, dez quilômetros. Essa pessoa também notou que, nos primeiros dias, a sua frequência cardíaca era de 120 batimentos por minuto nas corridas, aproximadamente; hoje essa média é de 90 batimentos por minuto.

Isso aconteceu porque o condicionamento físico dessa pessoa melhorou. Esse é o tipo de conclusão que pode ser dado por um aplicativo de esportes ou pelo sistema de um wearable. Mas e se essa média de 90 batimentos não corresponder à realidade, ainda que o indivíduo tenha mesmo melhorado o condicionamento?

Dispositivos vestíveis

Os sensores ainda não são precisos

Não é uma possibilidade remota. Os fabricantes têm se esforçado para criar dispositivos com sensores precisos, mas esse é um desafio que está longe de ser vencido: precisão exige tecnologia de ponta e ainda é difícil oferecer tamanha sofisticação sem afetar a relação custo-benefício do produto. É por isso que há poucos dispositivos que se destacam no fator exatidão.

Um caso que retrata esse cenário é o da Quanttus. Criada em 2012, a startup já gastou milhões de dólares de fundos de capital de risco tentando desenvolver uma pulseira inteligente capaz de medir, entre outros parâmetros, a pressão sanguínea do usuário. Só que, como relata o MIT Technology Review, a empresa vem falhando miseravelmente nessa missão.

Olhando com mais cuidado, percebemos que a proposta não é ruim: a intenção da Quanttus é oferecer um dispositivo que permita a qualquer pessoa monitorar a pressão sanguínea de modo constante e preciso. Isso é bom não só para alertar indivíduos já diagnosticados com hipertensão e que, portanto, precisam controlar o problema, mas também para servir como ferramenta de prevenção às demais pessoas.

Para evitar alarmes falsos ou mesmo deixar de reportar uma elevação de pressão, o dispositivo deve ser bastante preciso. Para tanto, a ideia da startup é usar um sensor que joga luz sobre a pele e a reabsorve de forma seletiva para medir as mudanças de volume nos vasos sanguíneos a cada batida do coração. Só que, até agora, nada disso deu certo.

Até agora, a Quanttus só lançou o app Q Heart, que não faz muita coisa

A Quanttus só lançou o app Q Heart, que não faz muita coisa

Diante do silêncio da empresa, o MIT Technology Review procurou um antigo funcionário da Quanttus que, sob condição de anonimato, revelou que o desenvolvimento do projeto tem gastado muito mais tempo do que o esperado, o que não chega a ser surpresa: características anatômicas, variações de movimentos e condições ambientais estão entre os vários fatores que podem interferir na precisão das medições.

Esses mesmos fatores também interferem na precisão dos dispositivos que já estão no mercado. No fim das contas, a quantidade de passos que o seu smartwatch afirma que você deu e a sua média de batimentos cardíacos nada mais são do que estimativas.

Os dados dos wearables têm pouca ou nenhuma serventia para os médicos

Você deve então usar esses dados para ter noção do seu desempenho nos esportes, não tratá-los como verdade absoluta. É claro que, eventualmente, essas informações podem dar pistas sobre um possível problema: se o seu smartwatch aponta que você tem mais de 100 batimentos cardíacos por minuto estando em repouso, esse pode ser um indício de algum tipo de arritmia crônica se estabelecendo.

Ou não. O smartwatch pode simplesmente ter uma falha de medição. Mas, por via das dúvidas, você procurará o médico e este investigará o problema. Bom, pelo menos esse é o comportamento indicado.

Mas não adianta muita coisa levar ao consultório os relatórios que seu aplicativo de atividade física gerou. O médico vai te avaliar e, se achar necessário, pedirá exames complementares para analisar a frequência cardíaca, a pressão e outros aspectos.

Pode parecer óbvio, mas, pelo menos nos Estados Unidos, os médicos estão notando um número crescente de pacientes que chegam ao consultório levando planilhas e relatórios gerados por ferramentas de monitoramento. “Eles aparecem aqui com essas planilhas de Excel enormes, com todas essas informações que eu não tenho ideia de como usar”, destaca o oncologista Andrew Trister em entrevista ao MIT Technology Review no ano passado.

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Ele não mente. Os médicos sabem que smartwatches, smartbands e afins não são apropriados para avaliações médicas. O problema aqui não é só a falta de precisão desses dispositivos: os sensores podem até funcionar bem, mas eles não atendem aos critérios e protocolos que entidades médicas estabelecem para validar exames e equipamentos clínicos.

Apesar disso, os médicos não condenam o uso de wearables, pelo contrário. Eles reconhecem que esses dispositivos estão mesmo fazendo muita gente praticar atividades físicas com regularidade. Esse é o propósito principal dessas invenções.

Se é o seu caso, congratulações! Só não se prenda demais aos dados. Pouco tempo depois do lançamento do Apple Watch, alguns usuários reclamaram que o relógio não mede a frequência cardíaca corretamente durante determinados exercícios, mas a própria Apple afirma em suas páginas de ajuda que movimentos de certas atividades (como boxe) podem geram medições não tão exatas.

Um dia os wearables serão bem precisos? Se for para apostar, eu jogo todas as minhas fichas no ‘sim’. Mas esse cenário também não está livre de problemas: há o risco, por exemplo, de pessoas ficarem obcecadas com o monitoramento da saúde ao ponto de desenvolver quadros de ansiedade ou mesmo paranoia. Assim, independente do grau de sofisticação da tecnologia, é prudente nunca negligenciar o bom senso.

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