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Um bebê com duas mães, um pai e não é o que você está pensando

Transplante mitocondrial faz com que bebês de proveta evitem certas doenças genéticas mas a consequência disso é ter duas mães biológicas.

9 anos atrás

theotherlword Lésbicas meramente ilustrativas

Quando alguém fala que um bebê tem dois pais, ou duas mães, imaginamos um caso de adoção por casais gays, aquela atitude questionável que retira crianças do divertido e estimulante mundo dos orfanatos e as expõe a um ambiente familiar repleto de amor e carinho, privando-as do convívio com os pais que elas já não tinham.

Uma das “justificativas” dos que são contra essas adoções aliás é que uma criança não pode ter duas mães. Well, meus caros, lamento (não realmente) informar mas pode sim, e nem no papel, na genética mesmo.

Tudo começa nas mitocôndrias.

mitochondria

Essas micro-salsichas existem na maioria das células de organismos eucariontes, e são responsáveis por um monte de funções, a principal delas a conversão de energia, através do (temido por estudantes) Ciclo de Krebs. Elas também gerenciam o nível dos íons de cálcio, geram calor através de canais de prótons, têm participação na morte celular e desbloqueiam iPhone. Ok, isso talvez não.

O mais fascinante das mitocôndrias é que elas são… simbiontes alienígenas.

alien-facehugger1 Eu falei simbionte, esse é um parasita.

apophis

Agora sim. O conceito de simbiose envolve dois organismos interagindo em benefício mútuo, e ao menos no caso dos Goa'uld de Stargate os hospedeiros ganhavam super-força, longevidade, imunidade a quase tudo que é doença ou ferimento, e em troca apenas forneciam um lugar para os simbiontes alienígenas, e perdiam qualquer vontade própria. Um excelente negócio, se eu fosse um Goa'uld.

No caso das mitocôndrias talvez ocorra algo semelhante, e ganhamos muito mais do que simples superpoderes, nossa própria existência depende delas.

Quando as mitocôndrias começaram a ser estudadas, descobriram que pareciam muito com bactérias comuns. além de serem muito mais complexas que o resto dos orgânulos celulares. Como algo tão complexo teria evoluído?

Sozinho. A Mitocôndria tem um monte de estruturas de organismos unicelulares comuns, contando até com DNA próprio.

Isso mesmo: ela não faz parte do seu código genético. Elas vêm dos gametas, em um caso de ovo e a galinha, onde a galinha é a mãe!

Explicando: as suas mitocôndrias vieram de sua mãe. Já estavam no óvulo, quando ela foi fecundada. Quando ele se dividiu as mitocôndrias também se dividiram, repassando para você o DNA mitocondrial que hoje (assim espero) existe nas suas células.

Entendeu o ovo e a galinha? Se as mitocôndrias vem da mãe, quem surgiu primeiro?

As mitocôndrias. Elas eram organismos vivos que se associaram a células primitivas, entre 1,7 e 2 bilhões de anos atrás. EM troca de casa e comida as mitocôndrias deram às células a vantagem evolutiva da respiração celular. De lá pra cá, apesar dos 14 milhões de anos de aluguel atrasado, o relacionamento tem sido ótimo para todos os envolvidos.

Exceto que as mitocôndrias também ficam doentes. São atacadas por vírus e sofrem com mutações. Muitas doenças aliás são de origem mitocondrial, como Diabetes Mielitus e Surdez, Síndrome de Wolff-Parkinson-White, Síndrome de Leight, Doença de Wilson e há até estudos associando problemas mitocondriais com transtorno bipolar. Mitocôndrias só não causam Lúpus, até porque nunca é Lúpus.

Problemas mitocondriais aparecem 1 em 4.000 nascimentos, dependendo do grupo étnico, e podem ser mais ou menos graves. Em muitos casos isso pode afetar profundamente a vida de uma criança, Uma mulher portadora de microondas, digo, mitocôndrias defeituosas tem 100% de chance de passar a doença para seus filhos, e se forem mulheres, elas passarão adiante. A manifestação, claro, depende de uns 200 outros fatores, caindo na boa e velha Loteria. Pode ser de um portador assintomático a um caso grave. Quer arriscar?

É uma das condições mais cruéis que podemos imaginar, pois não há qualquer tipo de cura. seria necessário alterar o DNA de todas as células de um indivíduo. Por isso uma mulher com uma doença mitocondrial séria está condenada a arriscar não ter filhos saudáveis, e não adianta rezar, não há registro de milagres curando doenças mitocondriais. E se não é possível apelar para o Além, quem sobra?

milagresoquenao

Isso mesmo, a Ciência.

A mesma ciência que deu uma nova mão a Matthew James, da foto acima, a mesma ciência que cria veias com células-tronco e que exterminou a paralisia infantil e a varíola pode ajudar essas mulheres.

A técnica é algo lindo em sua (falsa) simplicidade: No processo normal de fertilização in vitro óvulos e espermatozoides são combinados em laboratório e depois da confirmação da fecundação, implantados no útero da futura mãe ou de uma barriga de aluguel.

Pesquisado em várias partes do mundo, já bem-sucedido em testes com macacos, no procedimento recém-aprovado por um painel de bioética na Inglaterra são usados dois óvulos: Um da mãe original e outro de uma doadora saudável.

Através de técnicas de micromanipulação o núcleo dos dos óvulos e removido. O da mãe original é implantado no óvulo com mitocôndrias saudáveis, o menor band-aid do mundo é colado na incisão (não realmente) e ele é enviado para o resto do processo de fertilização.

aiiiii-issodoi

O resultado final será um bebê carregando material genético de duas mulheres distintas, além do pai. Todo o sofrimento que a mãe passou com sua doença, todos os anos de incerteza e medo de amaldiçoar uma criança com problemas que podem ir de cegueira até uma cardiopatia, tudo isso desaparece como mágica, na definição de Clarke, de que mágica é apenas ciência suficientemente avançada.

O DNA das mitocôndrias é só 0,1% do DNA total da célula, mas são 0,1% muito importantes, obviamente, e no caso são diferença fundamental na qualidade de vida da futura criança.

As questões levantadas são bem interessantes: qual a responsabilidade Legal dessa doadora? Há casos de doares de esperma que são responsabilizados com ações de paternidade. Então a doadora teria direito a 1/100 da maternidade? Ou deveria ser “esquecida”? Não seria falta de respeito deixar de fora da história da criança a mulher que tanto ajudou?

A parte ruim nesse caso é que a História se repete. Em 1978 o mundo tomou conhecimento de Louise Brown, essa gordinha aí debaixo:

brown_louise

Ela foi o primeiro bebê nascido de fertilização in vitro, dando esperança para milhões de casais com problemas de fertilidade, e de quebra rendendo a Sir Robert Edwards o Nobel de Medicina de 2010. Hoje qualquer clínica de subúrbio faz bebês de proveta, e ninguém em sã consciência consideraria essas crianças algo fora do normal, mas na época a chiadeira foi épica.

Como acontece com TODO avanço da Ciência, desde a invenção do Fogo, fanáticos e religiosos (no caso soa pleonasmo, eu sei) escreveram incontáveis artigos denunciando a técnica, com acusações que iam de eugenia até uma masturbação metafísica que afirmava categoricamente que crianças produzidas por fertilização in vitro eram uma Abominação aos Olhos de Deus, e portanto não tinham alma e não poderiam ser recebidas nas igrejas.

Essa aliás é a velha gritaria dos religiosos que adoram ver crianças morrendo de poliomielite, sarampo e se deliciam com casais infelizes por não poderem ter filhos.

Agora a gritaria voltou, com as mesmas acusações, a mesma ladainha de sempre, com destaque para um idiota chamando David King, que declarou:

Igual à criação de Frankenstein, produzida colando partes de diversos corpos, parece que não há coisa grotesca, não há violação das normas da natureza ou da cultura humana que cientistas e seus apoiadores bioéticos não pratiquem

Esse mesmo discurso é feito por grupos anti-vacina e por entidades religiosas cripto-darwinistas que não acreditam em tratamento médico e transfusões de sangue, colaborando involuntariamente para a melhoria do nosso potencial genético.

O melhor é quando acusam cientistas de Brincar de Deus.

Ninguém ali está brincando, meus caros. São todos muito sérios, e na melhor das hipóteses, ao reparar um defeito genético grave, alterando o destino de uma criança que não foi nem concebida ainda, esses cientistas não estão brincando de Deus, estão é corrigindo um dos erros Dele.

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