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Retrolove, amor antigo pelo antigo

8 anos atrás

A invejável e conservadíssima coleção da Nintendo de Renan.

A invejável e conservadíssima coleção da Nintendo de Renan.

Retrogaming está em alta. A internet está cheia de páginas dedicadas ao assunto, comunidades e grupos se espalham pelas redes sociais e os leilões virtuais são disputados até o último centavo que resta na carteira (e os limites dos cartões de crédito explodirem). Para tentar entender um pouco mais esse fenômeno cultural diferenciado entre os gamers, fiz diversas entrevistas com colecionadores e retrogamers no último mês. O ponto comum entre eles como não poderia deixar de ser é a paixão exacerbada pelos videogames, mas também a sensação nostálgica e o prazer da busca.

Esse público majoritariamente masculino, na casa dos trinta e cinco anos cresceu jogando Atari 2600, viveu a explosão da era Nintendo com o NES e posteriormente o SNES. O Técnico em Sonda de Perfuração Marítima, Maicon Neife, já começa quebrando tabus ao afirmar que “sempre tive vídeo game dentro de casa, para mim é um eletro doméstico e não um eletro eletrônico, indispensável dentro de um lar.” Ele reflete muito bem o pensamento que parece encontrar eco em muitos outros colecionadores, o de que os videogames já estão entranhados nos lares e fazem parte da rotina de muitas famílias.

Comecei a jogar com o meu pai, que comprou seu Telejogo no final dos anos 70. Mas o console que eu tenho mais carinho é mesmo o 3DO. E o jogo que eu mais gosto no sistema se chama Immercenary, é um FPS com elementos de RPG cuja jogabilidade precedeu os jogos sand-box de hoje e que tem uma história muito atual, que lembra Matrix, mas foi lançado alguns anos antes do filme”, ensina João Junior, Diretor de Animação 3D, que sempre teve videogames em casa.

De fato, a geração que viveu a explosão de eletrônicos e o surgimento dos videogames no Brasil hoje “[...] cresceram e agora possuem poder aquisitivo. O mercado de jogos antigos ganhou força e competitividade com isso, pois uma parcela muito maior agora considera cool ter seu console de infância ao lado de seu jogo favorito por questões nostálgicas. As vendas aumentaram, produtos rarearam e os preços subiram. Os jogos tornaram-se pedras preciosas”, argumenta Renan V. dos Santos, Militar, racionalizando acertadamente a guinada neste mercado que vive do passado, com olhos no futuro. Empresas estabelecidas, como Nintendo, Sony e Microsoft apostam na disponibilização dos jogos do passado para serem jogados novamente em suas plataformas atuais, através de suas lojas virtuais dentro dos consoles.

Houve um boom de colecionismo nos últimos anos e acredito que isso se deve à uniformidade dos jogos atuais. Está ficando tudo igual ou muito parecido, por isso, as pessoas estão buscando os videogames antigos, quando a diversidade era mais constante”, afirma Gustavo Leal, jornalista, que é colecionador à cinco anos. Contudo, a disponibilização do acervo antigo não tirou o fôlego do mercado de usados, Eric Fraga, Analista de Sistema e mantenedor do canal Cosmic Effect Gaming no Youtube lembra que “há alguns anos, foi lançado Ikaruga para Xbox Live. O CD original para Dreamcast costumava ser muito caro por aí. Após o lançamento na Live, a versão física despencou de preço e pipocaram posts em blogs de colecionadores ‘será que a disponibilização legalizada de jogos antigos nas redes de consoles modernos irá acabar com o mercado de jogos clássicos?’. Passados alguns meses Ikaruga voltou a ter o preço elevado nos sites de leilão, porque colecionar jogos clássicos pouco tem a ver com jogá-los legalmente em um serviço de console moderno”.

O Virtual Boy é artigo raro, porém pouco "jogável".

O Virtual Boy é artigo raro, porém pouco "jogável".

Mas, além da paixão pelos jogos muitos se movem pelo poder que a própria busca tem de impulsionar o colecionador a buscar aquela peça rara para completar a coleção. Renan, que detém uma coleção impressionante de itens da Nintendo, que ele chama carinhosamente de Mother M, conta sobre suas compras, “acho que não dá pra falar de compra louca nesse meio, sabe. Quem se atreve a colecionar conhece bem os aspectos funcionais daquilo que se propõe a comprar. Quem compra uma Power Glove, por exemplo, sabe que ela não funciona. Eu comprei um Virtual Boy totalmente consciente que não aproveitaria metade do meu investimento, mas não deixei de fazer”.

Com oito anos de experiência colecionística, Eric Fraga montou um “SuperConsole” para acomodar sua coleção de videogames antigos e tê-los sempre a mão, “meu objetivo era manter minha coleção protegida como a de um 'colecionador de prateleira', porém, com os consoles disponíveis e sempre conectados à TV, simultaneamente. E consegui: sequer entra poeira no móvel e a umidade é abatida 24 horas por dia através de desumidificadores elétricos. Meus videogames são jogados todo dia e não preciso nem passar um paninho para tirar a poeira. Este era meu sonho e o realizei em 2007”.

Coleção de prateleira, alias, é tema polêmico entre os retrogamers. Há os que abominam quem deixa as caixas fechadas e argumentam apropriadamente que aquele objeto não cumprir com o fim para o qual foi destinado é anti-natural, mas também há os que conseguem enxergar o outro lado, “nunca julgue alguém que coleciona, não pense nele como um 'materialista'. O ato de colecionar é algo muito humano e cosmopolita. Pense na mais famosa das coleções, a de selos postais. Afinal, conseguir convencer milhares de pessoas que um papel de 0,03 gramas pode valer 14 milhões de dólares (Sim, existe um selo avaliado nesta cifra) não é fácil. Não ache que os convencidos que um mero selo postal, que sequer cumpre seu propósito original (pagar por uma carta) são pessoas idiotas; é sempre bom respeitarmos os valores que o outro cultiva. Pense comigo: se ele conseguiu trabalhar para obter 14 milhões para gastar em um selo postal, é difícil não pensar na pessoa como alguém que não é inteligente, correto?”, argumenta Eric Fraga.

Erica Fraga e seu SuperConsole, videogames sempre à mão.

Erica Fraga e seu SuperConsole, videogames sempre à mão.

Outro tópico espinhoso são os leilões on-line, que dividem opiniões como dois exércitos se engalfinhando. Para Renan, “supostamente é a maneira mais honesta de se comprar algo: você paga até onde está disposto e caso o mercado exija mais seu lance é facilmente superado, praticamente fixando um preço de base. Porém, há meios de burlar isso: compradores que instruem amigos a darem lances nos seus produtos a fim de impulsionar os preços existem e isso não necessariamente quer dizer que o amigo irá comprar o produto, pois, como qualquer competição, o comprador cujo lance foi superado vai sentir-se ultrapassado e tentará sua revanche, pois não aceitará perder o produto por alguns centavos. Acontece que de centavo em centavo produtos praticamente dobram de preço durante as duas últimas horas. Um leilão leal é a forma ideal para esse tipo de mercado, mas a honestidade é artigo raro no mundo”. Já para Eric, “Coleção de videogames só existe por causa da existência dos sites de leilão. Colecionadores de videogame só existem porque existe a Internet, é a dura verdade. Ou seja, minha opinião sobre leilões online é algo como a oitava maravilha do mundo". E o tema segue dividindo opiniões em cada roda de conversa, seja ela real ou virtual.

O jogo que mais tenho carinho? Cada vez que sou questionado, a resposta muda... normal, quando se trata de escolher arte”, relata Eric Fraga, que não poderia deixar de terminar este artigo com uma lição não só para o colecionador, como para o ser humano de uma forma geral, “algumas pessoas ainda insistem em pensar que a felicidade é um destino, mas assim como o ato de colecionar videogames, é a jornada que torna aquilo algo especial para o colecionador”.

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