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NASA descobre planeta Kepler-186f — não faça as malas ainda

Todos os sites estão anunciando praticamente a descoberta de uma Nova Terra, o planeta Kepler 186f. Mas… será isso mesmo? Clique, leia e veja o que se sabe e o que não se sabe, o que é ciência e o que você vai ver amanhã no Fantástico.

6 anos atrás

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Tudo nesta imagem é ficcional. TUDO.

Um dos segredos mais bem-guardados da ciência é que na maior parte do tempo ela é chata. Indiana Jones já dizia que a maior parte do trabalho do arqueólogo é em bibliotecas. Astrônomos hoje usam telescópios do outro lado do mundo, onde muitas vezes nunca colocaram os pés. Desde que a fotografia foi inventada ninguém mais fica horas olhando pelo telescópio. Deixamos, sim, placas de material fotográfico expostas por horas.

Mesmo coisas muito legais como os anéis descobertos em torno do asteroide  10199 Chariklo são pouco mais que números em uma tabela. A NASA tenta compensar essa falta de apelo visual com excelentes representações artísticas, como o planeta acima, distribuído em toda soa glória com o Press Kit sobre a descoberta de Kepler 186f na Zona dos Cachinhos Dourados da estrela KIC 8120608. Muita, muita gente mesmo acha que a imagem é real. 

Não estou acusando a NASA de má-fé, só estou dizendo que todo mundo que se informa pela Academia de Ciências do Fantástico ou pelo Terra vai achar, com naturalidade, que a NASA é capaz de visualizar detalhes da superfície de mundos a 500 anos-luz. Esse tipo de omissão conveniente tira um pouco do brilho da descoberta.

Descoberta essa que pra começar está sendo sensacionalizada pela mídia de forma assustadora. Vamos a alguns esclarecimentos:

1 — Que diabos de planeta é esse?

Kepler 186f é um planeta com 1,1 vezes o tamanho da Terra. Orbita uma estrela a 493,6 anos-luz da Terra. Kepler-186 (ou KIC 8120608, pros íntimos) tem 0,4 massa solar e, por ser uma anã vermelha, sua luminosidade é bem menor, 0,04 da do Sol. Por isso Kepler 186f deveria ser batizado de Krypton, se o poeta Neil DeGrasse Tyson já não tivesse determinado que Kal-El veio de LHS 2520.

2 — Que diabos é essa Zona dos Cachinhos Dourados?

Eu sei, a primeira impressão é que depois de ser presa por roubo de mingau e invasão de domicílio, a pobre menina loura fez mais e mais escolhas erradas, tendo enveredado pela mais antiga das profissões e hoje gerencia um lupanar, mas a origem do termo é bem mais amena. Amena aliás é o termo.

zona

A tal zona tem esse nome por causa do mingau morno. Sim, eu sei que a tal loirinha era meio burra, e que se misturasse o mingau frio com o quente teria bem mais comida, mas não é esse o ponto, e sim que na órbita de toda estrela há uma região onde a temperatura permite a existência de água em estado líquido, componente essencial para a vida como ela é a conhecemos.

3 — Então esse planeta é gêmeo da Terra?

Não acredite no que o Fantástico vai falar amanhã. As únicas informações que temos de Kepler 186f é que ele tem 1,1 vezes o tamanho da Terra e que orbita a uma distância igual a de Mercúrio, mas como a estrela é bem mais fraca, mesmo nessa distância é possível água líquida na superfície.

4 — Então há água e vida em Kepler 186f?

NÃO SE SABE. Já conseguimos estudar a atmosfera de alguns exoplanetas bem maiores, o que por si só é um senhor feito, mas ciência no caso é feita por eliminação. As pessoas querem ir direto para os aliens. Não funciona assim. Para que existam aliens primeiro precisamos de planetas fora do Sistema Solar. Foram descobertos. Para que haja vida no modelo da nossa, é preciso planetas rochosos de tamanho parecido com a Terra. Achamos, mas fora da Zona dos Cachinhos.

O próximo passo era achar planetas rochosos de tamanho razoável em região habitável. AGORA encontramos.

Há toda uma sequência de fatores necessários para determinar se um planeta é habitável. Estar na Zona dos Cachinhos é apenas uma delas. Lembre-se, Marte e Ceres estão na Zona. Vênus está, por pouco. A LUA também está e não consta que seja habitada, tirando dragões, santos e eventuais coelhos de jade.

Dizer que há vida e oceanos em Kepler 186f apenas por ele estar na Zona dos Cachinhos é o mesmo que dizer que há chances da Luciana Vendramini sair comigo por ela ser mulher, heterossexual e ter péssimo gosto pra homens. Existe uma diferença entre extrapolar dados existentes e sair chutando preenchendo lacunas.

Pode ter vida no tal planeta? NÃO DÁ PRA CHUTAR, ele preenche duas das exigências. SE ele preencher as outras, pode, mas esse SE ainda é uma incógnita.

5 — Então não foi uma grande descoberta?

Claro que foi. Ciência não se faz com base em coisas que todo mundo sabe, senão manga com leite seria tão cientificamente aceito que nem seria permitido a venda no mesmo estabelecimento. Por milhares de anos era fato notório que existiam 5 planetas, fora a Terra. Só com a invenção do telescópio Urano, Netuno e Plutão foram descobertos; para desespero dos astrólogos, que viraram noites inventando desculpas pra justificar não terem dado falta de 3 planetas.

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Kepler 186f é o da direita. Outros dois planetas ficaram de fora. Azar o deles.

O bom-senso diz que devem existir planetas classe M como a Terra, em torno de outras estrelas, mas não se escrevem papers com bom-senso. Se escrevem papers estudando a variação espectral de uma estrela e determinando que algo do tamanho da Terra passa, periodicamente entre a estrela e nossos telescópios.

6 — É simples assim?

Não. A variação de luz é incrivelmente tênue, levaram 3 anos coletando e analisando informação até determinar a estrutura do sistema solar de Kepler 186. O último planeta a ser descoberto, o F, aliás é o mais distante. Tem um ano de 129 dias (ou 112 ± 24 dias). O mais interno, Kepler 186b, tem um ano de 3,8 dias.

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A descoberta foi fruto das observações do telescópio espacial Kepler, que já descobriu 962 planetas, com 3.845 candidatos aguardando investigações detalhadas. Depois de cumprir sua missão e sofrer danos em uma das rodas de reação o Kepler foi aposentado, mas um plano de reativação está em andamento. A NASA usará o corpo da nave como uma vela solar, aumentando a estabilidade e permitindo que continuem a explorar estranhos novos mundos.

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