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Manipulação de feeds do Facebook é prática constante

Ex-pesquisador do Facebook revela aquilo que já suspeitávamos: experiências com usuários são realizados sem consentimento e em larga escala desde 2007

6 anos atrás

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A descoberta do experimento psicológico empregado pelo Facebook ao alterar os feeds de usuários em busca de uma resposta específica causou reações exacerbadas internet afora, tanto dos usuários quanto de pesquisadores sérios que não concordam com os métodos utilizados. Entretanto, algo que já havia sido levantado é agora confirmado por pessoas que trabalharam dentro da empresa do Zuck: a pratica é corriqueira e vem sendo feita desde 2007.

Há dois anos atrás, milhares de usuários da rede social receberam mensagens nada agradáveis dizendo que suas contas haviam sido bloqueadas, sob suspeita de que eram bots ou fakes. De modo a voltar a utilizar a rede social, eles foram obrigados a seguir um passo-a-passo para provar que eram pessoas reais e assim recuperar o controle de suas contas. Só que a parte feia da história é que a alegação do Facebook era falsa: eles sabiam que as contas eram legítimas e conduziram uma experiência de modo a checar o quão apurados eram seus sistemas antifraude. Soa bizarro e de fato é, mas esse é apenas um dos casos de manipulação que o Facebook teria conduzido.

Esse e outros experimentos são procedimentos regulares desde 2007, quando o Facebook montou um departamento de ciência de dados, formado por profissionais de segurança, engenheiros de software, psicólogos e diversos outros profissionais. É nessa equipe que o dr. Adam D.I. Kramer, o autor do estudo publicado na última semana trabalha. De acordo com um ex-membro da equipe, o método de pesquisa do departamento não encontra nenhuma resistência pelo simples fato do Facebook estar apoiado pelos Termos de Serviço com os quais o usuário concorda quando cria sua conta na rede social. Em suma, ele aceita liberar seus dados para pesquisas, testes e outros usos que a rede social julgar adequados.

Pior, embora os testes tenham consultoria de psicólogos, não há revisão por pares e consequentemente não podem ser chamados de testes científicos. Andrew Ledvina, que fez parte da equipe entre fevereiro de 2012 e julho de 2013 disse que "qualquer um da equipe poderia conduzir um teste" sem comunicar outros da equipe, o que mostra que a falta de ética no Facebook é contagiosa. O dr. Kramer teria declarado que resolveu se juntar ao Facebook porque a rede social "é o maior campo de estudos da história". Outros acadêmicos também eram pesquisadores em suas respectivas universidades, e talvez tenham sido atraídos pela mesma premissa: muitas cobaias num só lugar.

O descontrole era tamanho, Ledniva conta, que os "pesquisadores" se mostravam preocupados em submeter um mesmo grupo de usuários a mais de um experimento ao mesmo tempo, o que poderia falsear os resultados. De acordo com ele os usuários não eram identificados nas pesquisas, mas isso é o de menos: é seguro afirmar que em sete anos, todos os mais de 1,3 bilhão de usuários do Facebook já foram cobaias em ao menos um experimento. Algum dos testes buscaram determinar como famílias se comunicam na rede social, outros eram voltados a identificar causas para a solidão, e outros foram realizados buscando analisar o impacto de mensagens políticas.

Como dito antes, a questão repousa em se é ético o Facebook realizar tais testes, visto que ele tem amparo legal para fazê-los. Experimentos psicológicos sem controle, acompanhamento ou revisão de pares não é ciência, é um modo de distorcer os dados ao seu bel prazer e gerar resultados esperados, como qualquer agência de publicidade faz. A diferença é que comerciais te vendem produtos, enquanto o Facebook só fornece um serviço de rede social. Para o Facebook coletar dados não basta, é preciso torcer o usuário para que ele retorne o que a rede social deseja. O problema é que como essas pesquisas não foram publicadas e permaneceriam guardadas pelo Facebook, não dá para comprovar se elas foram realmente feitas.

Quando o primeiro estudo foi publicado e a confusão foi armada, a diretora do Facebook Sheryl Sandberg veio a público pedir desculpas pelo que ela chamou de "falha de comunicação", dizendo que o departamento de ciência de dados "leva a segurança dos usuários a sério" e que o objetivo do estudo seria apenas para testar produtos diferentes, e que a forma como ele veio a público foi desastrada. Eu já acredito que na percepção do Facebook, o fato dele ter sido publicado foi o erro.

Fonte: WSJ.

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