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Explorar Vênus é uma boa idéia, só não pode atrair a atenção do Império

Todo mundo só fala de Marte, mas Vênus também precisa de amor: já é hora de mandarmos gente pra lá, a questão é como resolver o detalhe da pressão abissal e temperatura infernal, mas a NASA tem umas sugestões…

7 anos atrás

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Vênus é, depois do Sol e da Lua o objeto celestial mais brilhante. Sua atmosfera reflete muita luz solar, tornando-o de fácil identificação, apesar de até hoje ter gente que o chama de Estrela D'Alva, e nem preciso relembrar dos gênios militares indianos que por 6 meses acharam que Vênus era um drone chinês.

Durante muito tempo havia gente sonhando que por ser batizado com o nome da Deusa da Beleza, Vênus seria como a Terra. Cientistas especulavam que a grande concentração de nuvens em sua atmosfera era decorrência de uma mata cerrada, cobrindo o planeta. Vênus seria uma espécie de Jardim do Éden, uma floresta primordial, talvez com análogos aos dinossauros.

A ligação de Vênus com a religião é antiga. A doutrina kardecista diz que no planeta “o ar é sutil, como o das altas montanhas terrenas, mas impróprio para os terrestres. O mar é profundo e calmo”. Infelizmente a realidade é menos fofinha, mais próxima de outro nome associado a Vênus.

Ele é chamado de Estrela da Manhã, por aparecer no horizonte logo antes do começo do dia. Em muitos textos ele é chamado por isso de Portador Da Luz, ou em latim, Lúcifer.

Com temperatura acima de 460 graus celsius, atmosfera com pressão equivalente a 92 vezes da da Terra, composta de 98% de CO2, nuvens de ácido sulfúrico e ventos de quase 400 km/h, Vênus é um inferno mais adequado ao Primeiro Entre os Caídos do que a Afrodite, ou mesmo aos incas.

O primeiro país a pousar com sucesso uma sonda em Vênus foi a União Soviética, e mesmo assim depois de muita insistência. A série de sondas Venera só teve sucesso parcial com a Venera 4, mesmo assim eles descobriram que certificar a sonda para 25 atmosferas não adiantava, quando a pressão era de 92. Bem, ninguém tinha essa informação, não dá pra culpar os caras.

A primeira sonda a transmitir imagens da superfície de Vênus foi a Venera 9. Em 20 de outubro de 1975 um módulo de pouso foi acionado e depois de usar para-quedas, escudos ablativos e um colchão de molas, o bicho pousou com sucesso.

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Módulo de Pouso da Venera 9. Não é pra ser bonito, é pra funcionar.

Um sistema de refrigeração circulava freon (provavelmente) adiando a inevitável morte do equipamento. Durante 53 minutos, a uma pressão de 90 atmosferas, temperatura de 485 graus celsius e ventos de sei lá quantos km/h o módulo transmitiu dados científicos e imagens, pela primeira vez na História.

Uma das duas câmeras falhou, mas a outra funcionou, escaneando com sensores de 115 × 512 pixels, em grayscape com 6 bits por pixel. O sinal era transmitido a uma velocidade de 256 bits por segundo. Mais ou menos a velocidade da Vivo na região da Presidente Vargas no Rio de Janeiro.

A imagem enviada da superfície de Vênus, original e retocada para corrigir os erros de transmissão:

Venera 9 panorama of Venusian surface (1975)

O programa Venera foi até 1983, com a Venera 16. A Venera 13 foi a primeira sonda a enviar imagens coloridas da superfície de outro planeta:

Venera13Camera1

No detalhe:

V_V13bigimage

Depois do programa Venera os soviéticos mandaram em 1985 duas sondas Vega, com módulos de pouso e uma novidade: balões.

Lançados na atmosfera venusiana, os balões subiram até uma altitude de 54 km. Nessa altitude as condições são equivalentes à atmosfera terrestre na mesma altitude, com a diferença que os ventos passam de 200 km/h e além de dióxido de carbono a atmosfera ainda contém ácidos sulfúrico e clorídrico. Uma beleza de lugar.

Os balões funcionaram por várias hoas, até a bateria acabar. A idéia foi ótima e agora está sendo revisitada por um pessoal de olho em explorar Vênus.

Claro, não é uma boa idéia pousar num lugar onde chove ácido e a pressão equivale a uma profundidade só alcançada por mergulhadores (e ações) da Petrobras, mas assim como aquelas professoras edificantes Vênus tem muito a nos ensinar mesmo sem chegarmos muito perto.

Em grandes altitudes Vênus é frio o suficiente para existir água líquida, a pressão atmosférica é de 1 atmosfera terrestre e você está acima das nuvens; energia solar digrátis, com o bônus de estar mais próximo do Sol, mais eficiência.

Isso tudo não escapou ao pessoal do Systems Analysis and Concepts Directorate, da NASA. O trabalho deles aliás é esse, imaginar cenários de exploração espacial futuristas e ousados. Mesmo que voltando ao passado, seja aos balões soviéticos, seja aos grandes dirigíveis.

Eles imaginam uma missão onde um módulo-balão seja usado para explorar o planeta, a salvo das condições infernais da superfície. Veja o vídeo-conceito:

NASA Langley Research Center — A way to explore Venus

Não há motivo para não extrapolar e imaginar conjuntos enormes de habitats suspensos, os ácidos da atmosfera podem ser usados para produção de hidrogênio, que na ausência de O2 é perfeitamente seguro. Não precisaríamos trazer hélio da Terra. Se não quisermos o máximo de eficiência, podemos usar… ar. Nosso ar respirável, a 1 atm tem flutuação positiva na atmosfera venusiana.

Plantas AMARIAM a atmosfera de CO2 e muita luz. Estruturalmente seria uma moleza acrescentar novos módulos a uma estrutura que tem peso zero, e quanto mais módulos menos risco de um acidente com um balão colocar em risco a estrutura inteira. Não é o porta-aviões da SHIELD, com 4 motores e redundância zero.

Os soviéticos mostraram que é possível a balões sobreviverem em Vênus. Isso numa época em que nem usavam computadores, as sondas eram projetadas com eletrônica discreta, taxas de transmissão de 2.000 bits por segundo eram consideradas quase mágicas de tão eficientes.

Hoje uma missão dessas a Vênus pode se tornar mais simples e barata do que uma a Marte. De resto, como Lando Calrisian demonstrou, é muito mais cool morar numa cidade nas nuvens do que andar no chão empoeirado.

Fontes: MB e PS.

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