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Fotografia Autoral — uma introdução

Que tal começar a pensar na sua fotografia? Veja como a fotografia autoral pode ajudar a expressar as suas ideias e transformar suas fotos em arte.

5 anos atrás

hibiscus

Existem dois tipos de fotógrafos. O primeiro tipo é daqueles que já começam pensando profissionalmente. A fotografia para eles é apenas mais uma profissão e ao aprender técnica e composição já está de bom tamanho para começar a vender o serviço. E existem os fotógrafos que começam por descobrirem na fotografia uma forma de expressão, um complemento para suas vidas e uma atividade prazerosa. É para esse segundo grupo que estou escrevendo esse texto. (P.S.: nada impede de um fotógrafo fazer parte dos dois grupos, mas vejo muitos iniciando pensando apenas no comercial e se esquecendo do emocional)

Quando comecei na fotografia, em 1995, eu já tinha 18 anos de idade. Nunca tinha colocado minhas mãos em uma câmera fotográfica e só o fiz por conta de uma viagem de estudos da faculdade. Emprestei uma pequena Yashica Mg-3 de meu tio e foi amor à primeira vista. A fotografia havia entrado em minha vida de forma avassaladora e nunca mais saiu. Depois de alguns anos produzindo milhares de imagens me bateu a primeira crise criativa. Eu olhei para as diversas fotos que fazia de diversos temas e apenas um pensamento me vinha à cabeça: se eu morresse hoje e uma pessoa olhasse essas imagens, o que ela pensaria de mim?

Foram meses pensando nisso e com grande desanimo para fotografar. Logo comecei a estudar alternativas e me deparei com as pessoas que faziam fotografia autoral. Termos como autoral, ensaio fotográfico e fine art começaram a fazer parte dos meus estudos. Falar em ensaio fotográfico ou fotografia autoral é basicamente estar preocupado com o conceito envolvido com suas imagens. Você pode desenvolver imagens sobre um assunto específico ou fechar em uma situação para contar uma história. Basicamente, a mensagem é mais importante do que as imagens e, no que tange o ensaio fotográfico, deve conter duas características básicas:

1 — Unidade Formal — as imagens devem conter elementos que as unam, que as façam parte de um mesmo momento. Você pode escolher fazer as fotos deste projeto dentro de uma tecnologia fotográfica distinta (pin hole, cianotipia, filme fotográfico) ou até fotos da mesma perspectiva, ou feitas com a mesma lente;

2 — Unidade Temática — as fotos devem contar uma história. O observador deve ser capaz de reconhecer o que você está tentando transmitir.

É por esse motivo que sempre afirmo que a fotografia em si não é e não pode ser considerada arte, mas ela pode ser utilizada com fins artísticos, para expressar a mensagem do seu autor.

Da mesma forma, o trabalho autoral pode ser definido como a necessidade de expressar sua visão de mundo através de um conjunto de fotos que mostrem um sentimento, uma ideia, uma ideologia ou uma denúncia. É fácil no começo? Não, nem um pouco. Você fica meio perdido. Principalmente para encontrar o tema que vai trabalhar. É aquele momento em que o artista se coloca frente a tela branca e não consegue decidir o que vai pintar.

pintor_pollock

Contudo, a história a ser contada pode estar no seu quintal, na sua rua, no seu local de trabalho ou no caminho que você faz todos os dias. Pode ser de grande importância humanitária ou simplesmente importante para você. Eu mesmo tenho um grande prazer em fotografar hibiscus. Existem mais de 300 espécies de hibiscus e fico muito feliz quando encontro alguma que ainda não registrei. Ou seja, pode ser quase tudo. Porém, o legal é colocar a criatividade para funcionar.

A seguir, para exemplificar os fatos, vou falar de três projetos fotográficos que tenho muito prazer em estar desenvolvendo atualmente. São pequenas histórias que vão fazer vocês verem que o caminho pode ser simples e muito prazeroso.

A — Estradas de Ferro

Poucos sabem, mas minha formação é dentro da Geografia. Não abracei a profissão, mas tudo o que aprendi molda de alguma maneira minha percepção do mundo. O projeto Estradas de Ferro nasceu em 2005 (e já se vão 10 anos). O Oeste Paulista foi basicamente desbravado no início do século XX e sua construção e desenvolvimento se deve a Estrada de Ferro Sorocabana.

Infelizmente o tempo passou e esse meio de transporte perdeu sua importância com o surgimento das rodovias (pelo menos aqui na região). E comecei a observar o estado de abandono da maioria das estações ferroviárias do Oeste Paulista. Me surgiu a indagação sobre a efemeridade do tempo e como a importância de um local pode mudar dependendo dos fatores econômicos. Comecei a registrar esses locais por diversão e hoje é um projeto bem estruturado. O objetivo? Registrar todas as estações de trem nos municípios da Alta Sorocabana e do Ramal Dourados (que vai de Presidente Prudente a Teodoro Sampaio). Todas as fotos são em Preto e Branco e feitas com lentes fixas (28 mm, 50 mm e 85 mm). As fotos já renderam duas exposições aqui em minha cidade.

Gilson Lorenti — Estradas de Ferro

B — Espírito na Pele

Esse projeto nasceu de uma necessidade. Trabalho com ensaios de nu artístico há muitos anos, mas sempre tive o problema de divulgação das fotos, pois 99,9% das modelos não autorizam a divulgação das imagens. Então surgiu a ideia de um projeto onde a identidade da modelo não fosse mostrada. Estava muito interessado em trabalhos com projeção sobre os corpos e decidi investir nessa área.

Entretanto, em vez de trabalhar com imagens aleatórias decidi fazer algo diferente: a modelo que quer participar do projeto passa por uma pequena entrevista comigo. As imagens que vão ser projetadas sobre elas são feitas por mim segundo minha interpretação de sua personalidade. Por isso o nome Espírito na Pele. Todas as imagens são fotografadas com a lente 50 mm f/1,8. As imagens são projetadas com um projetor multimídia da Epson e o rosto nunca aparece. Quando possível, tento deixar as imagens com um tom abstrato. Esse projeto já foi exposto duas vezes e foi ganhador da fase regional e estadual do Mapa Cultural Paulista 2013/2014.

Para esse projeto eu deixo apenas o link aqui. 🙂

C — Mulheres em Negro e Branco

Aqui é unir o útil ao agradável. A maior parte de minha produção fotográfica é de retratos e femininos. Ano passado tive a ideia de fazer algo para comemorar o mês da consciência negra e, muito influenciado pelo DVD O Poderoso Retrato do fotógrafo Michael Grecco, decidi mostrar a força da mulher negra através de retratos bem simples.

As fotos são feitas em preto e branco, em um fundo preto e utilizando como fonte de luz um flash compacto com soft box de 50 × 50 cm. A lente utilizada é sempre a 85 mm f/1,8. A exposição ficou para esse ano e o objetivo é chegar a 20 retratos (correndo contra o tempo).

mulheres_negro_e_branco

São essas pequenas coisas que faço em meus momentos de folga. Ou seja, na folga o fotógrafo sai para fotografar. Só que, juntando toda essa experiência consegui ministrar dois cursos de fotografia autoral aqui na região. Ambos foram pela Oficina Cultural Timochenco Webhi de Presidente Prudente e o último, que aconteceu no primeiro semestre deste ano, se realizou na cidade de Tupi Paulista. Infelizmente temos apenas 12 horas para desenvolver experiências de anos, mas ao final os alunos são convidados a desenvolver um projeto autoral coletivo para o encerramento do curso.

Depois de muito bater cabeça, a decisão recaiu sobre a cooperativa de catadores de lixo da cidade. Uma experiência que estava acontecendo com algum apoio da prefeitura e com muito emprenho dos cooperados. Trabalhar a questão ambiental em cidades pequenas pode ser difícil, mas ao mesmo tempo recompensador. Então a aula prática se deu nessa cooperativa. O resultado é mostrado abaixo.

Gilson Lorenti — Um sonho sustentável

Sei que a maioria das pessoas entra na fotografia pela diversão. Não pensam muito no que estão fotografando. Se preocupam em comprar equipamentos e apertar o disparador da câmera freneticamente. Mas, com o tempo, alguns percebem como essas imagens são vazias. Percebem que falta um sentido para aquilo. É essa parcela de fotógrafos que parte para a criação intelectual, a contextualização de sua produção fotográfica.

Quer entrar nesse mundo? Primeiro estude fotografia, composição, luz. Depois, olhe para o mundo e comece a indagar as pequenas coisas. Comece a mostrar o seu universo de preocupações. Comece a fotografar com o coração. Depois que começar, não vai conseguir mais parar.

Se você se interessou por esse tema e quer trocar ideias, ter conselhos ou alguma pergunta mais profunda, estou à disposição para esse papo.

 

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