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Mísseis TOW ou… Rebeldes soltando pipa com estilo

Uma arma do começo dos Anos 60 está tirando o sono dos blindados do governo da Síria, o míssil BGM-71 TOW, fornecido por EUA e aliados aos rebeldes que combatem Assad e o ISIS. O mais interessante é que ele consegue ser mortal sem nenhuma tecnologia avançada, é controlado por um joystick e… fios.

5 anos e meio atrás

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Durante a 2ª Guerra Mundial a arma anti-tanque portátil mais eficiente era a Raketenpanzerbüchse, genericamente chamada de bazuca. Era excelente pois guerra é antes de tudo uma disputa econômica, e se você usa uma arma que custa x para destruir outra que custa 100·x, uma hora o dinheiro do inimigo acaba.

A desvantagem das bazucas é que não eram guiadas, então o alcance efetivo não passava de 150 metros, e mesmo assim o sujeito tinha que ser um <inserir aqui o termo em alemão com 72 sílabas equivalente a Jedi>.

Reichsgebiet, Soldat mit Panzerabwehrwaffe

Com a modernização dos tanques ficou mais difícil se esgueirar para um tiro a queima-roupa, os russos foram os que mais aprenderam com as batalhas de tanques na 2ª Guerra, e basearam toda sua doutrina nesse aprendizado. Uma excelente doutrina, aliás, copiada por todo mundo. Tanques não andam sozinhos, vão sempre com tropas de apoio e blindados rápidos de reconhecimento. O inimigo destrói um, os outros dois BRDM-3 polpificam o grupo com a bazuca.

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Para contrabalançar isso no final dos Anos 50 os EUA começaram a pesquisar mísseis anti-tanque mas, fora os computadores que Stanley Kubrick usou para fazer os efeitos visuais do pouso na Lua falso, a tecnologia era muito limitada. Simplesmente não dava para incluir todo um sistema de detecção de alvo, controle e navegação em um míssil portátil.

Mesmo que fosse possível, o custo iria pras alturas, tornando inviável a distribuição da arma em grande escala. Era preciso uma arma barata, simples de operar, com longo alcance e razoavelmente portátil.

Depois de bater muita cabeça os engenheiros da Hughes Aircraft desenvolveram o que seria o BGM-71 TOW. Depois que as especificações foram divulgadas pelo Pentágono, eles levaram de 1963 a 1968 para testar aprimorar e corrigir os bugs, mas no final se saíram com isto:

Army Pfc. David Mitchell, a Soldier with 1st Battalion, 32nd Infantry Battalion, scans the landscape surrounding Vehicle Patrol Base Badel, located at the mouth of the Narang Valley in Konar Province. The base has closed down a large amount of enemy activity in the valley and in the districts of Narang, Chowkay and Nurgal. (U.S. Army photo by Sgt. Amber Robinson)

Esse conjunto, que em termos militares é “portátil” dispara este míssil aqui, em suas variações:

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Cada míssil custa US$ 58 mil, o que parece muito mas um Hellfire, lançado de drones custa US$ 110 mil. O segredo para ser tão barato? Ele é burro, é um míssil tão burro que se tivesse Wi-Fi estaria em comentários de portal xingando o PT de alguma coisa. A inteligência dele é toda remota, mas lembre-se: ele foi projetado no começo dos Anos 60.

Não havia links digitais robustos, o inimigo poderia facilmente localizar os pontos de lançamento apenas triangulando as transmissões. Como fazer com que o TOW fosse imune a interferências, remotamente controlado e não custasse uma baba?

Assim:

FORT POLK, La. - A Stryker vehicle belonging to the 4th Stryker Brigade Combat Team, 2nd Infantry Division, based out of Ft. Lewis, Wash., fires a tube-launched, optically-tracked, wire-guided missile at a range during the brigade's rotation through Fort Polk's, Joint Readiness Training Center. (US Army photo by Pfc. Victor J. Ayala, 49th Public Affairs Detachment (Airborne))

Assim como torpedos, o TOW usa… fios. TOW aliás vem de “Tube-launched, Optically tracked, Wire-guided”. Assim que o míssil é disparado uma carretilha começa a desenrolar dois fios. Um motor primário expele o TOW em 0,05 s. Fora do tubo, as aletas direcionais escamoteáveis se desescamoteiam, o motor secundário é acionado por 1,5 segundo; acelerando o bicho a 1.000 km/h. Daí em diante ele vai só na banguela, não deixando rastros de fumaça que alertem o inimigo. A uma distância de mais de 4 km.

AiirSource Military — US Military Firing the Extremely Powerful TOW Missile

Tudo que o operador tem que fazer é manter o míssil no alvo, controlando-o com um joystick. Um conjunto de sondas de proximidade detecta quando o TOW entra em contato com o veículo inimigo e a carga é detonada, idealmente em cima da torre, onde a blindagem é mais fina.

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Nos Anos 80 começou a ser utilizada a chamada Blindagem Reativa, onde cargas explosivas no tanque reagiam á explosão dos mísseis, gerando uma onda de choque em sentido oposto, reduzindo em muito o efeito. Para contrabalançar isso os TOWs passaram a ter duas cargas: uma geral, que aciona a blindagem do inimigo e outra direcionada, detonando milissegundos depois e transformando aço em queijo suíço.

Hoje em dia um míssil desses consegue atravessar 90 cm de aço, mesmo com blindagem reativa. É esse tipo de arma que está sendo usado pelos rebeldes na Síria, cortesia dos EUA.

alegiunti80 — Syrian War: SAA T-55 Hit by FSA Tow / Guerra Siriana:SAA T-55 colpito da missile anti-carro

A situação por lá anda bem complicada, com uma guerra civil das grandes, 234.239 grupos rebeldes combatendo o governo, que por sua vez não é flor que se cheire. Assad chegou a milímetros de ser deposto, só não rodou por topar abrir mão do arsenal químico que estava usando contra a população civil. Agora ele só solta barris explosivos de helicópteros, mas aí tudo bem.

Quanto aos rebeldes, há de todo tipo, dos ligados à Al Qaeda aos simpáticos ao ISIS. A situação é tão confusa que os EUA estão apoiando uma facção na Síria e combatendo a mesma facção no Yemen.

Os russos por sua vez tem interesses em manter sua presença — eles têm uma base naval na Síria desde 1971 — e resolveram atacar os rebeldes, que seriam todos pró-ISIS.

Os EUA (e outros aliados) encheram os caras de TOWs mas, para evitar repetição do que foi o Afeganistão, agora exigem que os ataques sejam filmados e que os “cartuchos” usados sejam recolhidos, assim os rebeldes só recebem nova munição se devolverem o “casco”, no melhor estilo Coca-Cola de 2 litros antigamente.

WarLeaks — Syria War 2015 - Syrian Rebels Destroying Tank With TOW Missile After Close Call

Como toda boa proxy war a Síria está sendo um excelente campo para testar armamentos, os russos estão fazendo a festa, com seus Hind (que o Brasil tem!) executando ataques impunemente, já que a CIA não forneceu Stingers aos rebeldes…

تلبيسة 17 10 2015 هام الطيران المورحي الروسي يقصف من علو منخفض جدا • talbisa h

A Máquina da Propaganda aliás está à toda, uns dias atrás os russos lançaram 26 SS-N-30A Kalib da frota do Mar Cáspio, atravessando o Irã e atingindo alvos na Síria. Alvos terroristas, claro.

Moscow liberou um vídeo do ataque, e estava tão perfeito em termos de propaganda que um sujeito pegou o tema de Command and Conquer e pronto, a Guerra do Videogame, como tanto acusaram a Guerra do Golfo de ser.

Rice Pokemon — Command & Conquer Putin's Revenge : Epic Footage Of Russian Cruise Missiles Pounding ISIS

Há receios que esse arranca-rabo gere problemas maiores, com aviões russos e aliados atacando alvos sem nenhuma coordenação, acidentes VÃO acontecer, resta saber se Putin vai querer mesmo uma briga direta, ou vai se contentar em marcar presença no cenário internacional, garantindo sua relevância e só fingir indignação com os tanques sírios destruídos.

Só fingir, afinal de contas cada tanque que Assad perde é um tanque que Putin vai vender como reposição.

De resto, é melhor que o pessoal do Obama se cuide. Se enfrentar Su-30s já é uma pedreira, imagine encarar esse bichos benzidos!

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