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Ano bissexto — fácil de entender mas você perderá a fé no Universo

Hoje é 29 de fevereiro. Para a maioria das pessoas é uma curiosidade que se resume a colocar um dia a mais em anos divisíveis por quatro, mas vai muito, muito além disso. Clique e entenda como o Cosmos não é organizado para nossa conveniência, mas nós nos encaixamos mesmo assim.

6 anos atrás

Calendário egípcio. Devia ser um inferno pregar isso na parede das borracharias deles, só a mulher pelada pesava 2 toneladas.

Calendários estão entre as máquinas mais antigas e mais inteligentes criadas pelo Homem. A percepção da passagem do tempo, e que ela podia ser medida foi essencial para o surgimento da civilização. Ao determinar que as estações eram cíclicas pudemos planejar nossas safras, calcular se era viável migrar ou se preparar para o inverno.

O primeiro ciclo que observamos foi o ciclo lunar, facilmente observável e que feministas e malucos new age dizem ter 28 dias, mas como astrônomos e selvagens pré-históricos de 30 mil anos atrás sabem, tem 29,53 dias.

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Osso de Blanchard, um calendário lunar de 30 mil anos

Esse número quebrado é uma pista do que está por vir. Adoramos acreditar que o Universo é simétrico perfeito como um relógio, mas é só uma questão de perspectiva. Se você der um pulo, mesmo sem ser blogueiro está alterando a rotação da Terra, por um pentelhonésimo de nadasegundo, mas está. Eventos grandes, como o terremoto do Japão causam alterações bem maiores. Estima-se que o dia está 1,8 milionésimo de segundo mais curto por causa do tremor.

A situação piora quando começamos a registrar os anos. na sabedoria popular um ano tem 365 dias, mas veja bem: não existe NADA associado entre o tempo que a Terra leva para completar uma órbita e o tempo que ela leva para girar em torno do próprio eixo. Vênus por exemplo tem um ano equivalente a 224,7 dias terrestres e um DIA de 116 dias terrestres e 18 horas.

Ao dividir o ano em dias estamos tentando encaixar unidades diferentes, e para piorar o Sol também está se movendo, então o dia não tem exaaatamente 24 h. Ou melhor: o tempo em que o Sol aparentemente se põe e nasce de novo é de 24 h mas se você observar externamente, de um ponto de vista distante ignorando o Sol o período de rotação da Terra é de 23 horas 56 minutos e 4 segundos.

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Temos um período de um ano, que em teoria equivale a 365 × 24 = 8.760 horas, mas isso num Universo ideal. Ou Deus odeia números inteiros, pois o tempo real que a Terra leva para completar uma órbita é de 365,2425 dias.

Se você ignorar a fração em quatro anos terá perdido um dia inteiro. Em 40, dez dias, e logo suas colheitas estarão crescendo fora da data, sua casa vai ser tomada pelas monções e ninguém mais saberá quando cai o Carnaval, se bem que ninguém sabe mesmo.

A solução varia. No antigo calendário Juliano essa diferença foi consertada adicionando-se um dia a fevereiro nos anos divisíveis por 4, no calendário Gregoriano, que todo mundo hoje em dia usa isso foi mantido.

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Só que há outro problema. 0,2425 dia * 4 equivale a 0,97 dia então cada vez que você coloca um dia a mais em fevereiro você está corrigindo demais e adicionando 0,03 dia no calendário. Acumulando, você em 100 anos ganhou 0,75 dia. Para evitar isso, o ano só é bisexto se for divísivel por 4 E não for divisível por 100.

Beleza, anos de Século são bissextos, exceto que, de novo a correção deixou uma fração, que vai se acumular e em 400 anos teremos um dia inteiro de diferença.

Como se resolve? Se o ano é divisível por 4 E 400 então é bissexto.

Seu calendário pode marcar a mesma exata hora e minuto e dia do ano, a Terra nunca estará na mesma posição orbital, ela sempre oscilará entre dois pontos, e para piorar o próprio período de translação não é fixo. Perturbações orbitais como marés gravitacionais alteram sutilmente esses valores. E isso vale para a rotação também.

Os dias estão ficando mais longos, não é seu trabalho que é chato. 620 milhões de anos atrás nosso dia durava 21 horas. A culpada principal é a Lua, mas efeitos sísmicos também afetam a rotação, então nossos lindos relógios ajustados para o valor arbitrário de 24 horas ficam dessincronizados. O jeito é adicionar um segundo, isso ocorre em intervalos irregulares. A última vez foi dia 30 de junho de 2015, que terminou com 61 segundos em seu último minuto.

Mecanismo de Anticítera, um computador grego de 200 AC usado para calcular posições astronômicas e datas.

Por mais imprecisos que sejam nossos calendários são uma vitória na busca por ordem e sentido em um Universo que não tem o menor interesse ou obrigação de nos agradar. Algumas centenas de anos atrás a própria idéia de “hora” era vaga, hoje lançamos foguetes com precisão de um segundo, em trajetórias expressas para a Estação espacial, fazendo em 6 horas viagens que antes levavam três dias.

Nós medimos o tempo observando a Lua e as estrelas, inventamos relógios cada vez mais precisos, hoje temos o melhor de dois mundos. Navegamos com nossos celulares usando satélites GPS equipados com relógios atômicos, medindo com precisão imensa o ritmo de átomos infinitesimais. Corrigimos as pequenas imperfeições da Natureza e criamos nossas próprias estrelas-guia.

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