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Quadro feito por IA é leiloado por US$ 432 mil na Christie's

Um retrato criado com IA foi arrematado por US$ 432 mil na Christie's, um valor muito acima da expectativa. Pena os criadores usaram o código de outra pessoa.

2 anos atrás

Pela primeira vez, uma quadro produzido por IA foi posto em leilão, e ele acabou atingindo um imenso sucesso, indo muito além das expectativas. O Retrato de Edmond de Belamy faz parte de uma coleção de onze quadros criados com inteligência artificial pelos franceses do grupo Obvious, e tinha um preço previsto de US$ 7 a US$ 10 mil, só que o interesse foi muito maior do que era imaginado, e a peça foi arrematada por um valor bem mais alto, US$ 432 e 500 mil.Esta pintura criada com IA foi leiloada por US$ 432 mil na Christie's.O Obvious conta que usou um algoritmo e um arquivo de 15 mil retratos feitos entre os séculos 14 e 20 para criar a coleção de peças inéditas. A primeira etapa foi alimentar o sistema com todos os retratos, e a partir daí, criar novas imagens em cima deste material. Na próxima etapa, o algoritmo tentava encontrar diferenças entre os retratos produzidos pelo sistema e artes originais, até não conseguir fazer mais a distinção entre ele. O objetivo é enganar o algoritmo para que ele acredite que aquela obra foi produzida por um ser humano, e não por ele mesmo.

Pintura feita com IA foi leiloada por US$ 432 mil na Christie's. Trechos do código do programador foram usados para assinar o retrato.

O retrato foi impresso com jatos de tinta em uma tela, e ganhou uma borda de madeira dourada que o tornou mais classudo. A assinatura impressa tem trechos do algoritmo usado, mas aí chegamos na parte polêmica do projeto. Apesar da autoria do quadro ser do Obvious, o código foi escrito por outra pessoa.

Pois é, o grupo formado por Hugo Caselles-Dupré, Pierre Fautrel and Gauthier Vernier na verdade trabalhou em cima do código aberto escrito por Robbie Barrat, um programador de 19 anos que publica seus códigos no GitHub, e não ficou nada satisfeito com o uso sem créditos.

Durante o andamento do projeto, eles chegaram a fazer vários pedidos de ajustes do código na página de Robbie Barrat, e outro dia o perfil do Obvious no Twitter postou trechos (cortados) de uma conversa que tiveram com Barrat alguns meses atrás, deixando de fora detalhes como o fato de não terem deixado claro em momento nenhum que o projeto teria fins (muito) lucrativos.

Seria muito legal se o programador recebesse alguma coisa pelo seu trabalho, além de ser incluído na assinatura do quadro, mas não foi o caso, e pelo menos até pouco tempo atrás, o grupo Obvious nem sequer estava divulgando o fato de terem usarem seu código, como o The Verge conta neste post.

Apesar disto, eles pelo menos deram crédito para o grande pioneiro da arte com IA, já que o retrato se chama Belamy (bel ami, ou bom amigo em francês, como lembra o Verge), e assim é uma homenagem a Ian Goodfellow, que criou o algoritmo de Rede Geradora Adversária (Generative Adversarial Network ou GAN).

No post do Verge, outros artistas que trabalham com arte feita com GANs também criticam o projeto, e Barrat diz que não tem mágoas, mas que realmente fica preocupado que o trabalho do Obvious passe a impressão errada sobre o que a arte com IA pode realmente produzir. É claro que gosto artístico é algo pessoal, e na minha humilde opinião, o retrato me parece algo primitivo e tosco, algo que me lembrou alguns personagens sem rosto de The Wall do Pink Floyd.

Em uma entrevista para a revista Clot, os criadores dizem que para eles, "a arte criada com IA e algoritmos é apenas mais uma consequência de pessoas expressando sua criatividade com novas ferramentas." Uma coisa é certa, o os caras do Obvious sabem definitivamente como vender bem o seu peixe, ainda que ele seja meio feio.

Sobre a polêmica questão da autoria das peças produzidas com IA e do algoritmo alheio usado sem inicialmente dar créditos, eles acreditam que legalmente falando, a autoria é deles, e não do algoritmo: "a questão legal ainda não está pronta, e a tecnologia não está tão avançada a ponto de darmos a autoria de uma peça a uma pessoa virtual. Uma IA não tem a intenção, e está longe de ter, ao contrário do que vemos na ficção científica. Nós acreditamos que a autoria deve ir para a entidade que está por trás da iniciativa artística."

Em uma declaração em um post no site da casa de leilões Christie's, Richard Lloyd disse que: "a inteligência artificial é só uma das várias tecnologias que terão um impacto no mercado de arte no futuro - apesar de que ainda é cedo demais para prever quais serão estas mudanças, será muito animador ver como essa revolução vai acontecer."

Nem tudo que reluz no mercado de IA é ouro, então é sempre bom ter um pé atrás, mas é certo que teremos muitas mudanças no mercado de arte produzida por inteligência artificial, e mesmo com as controvérsias, o fato desta peça ter sido leiloada por um valor tão absurdo, seria apenas o primeiro passo nessa estrada. Como vivemos em tempos nos quais uma gravura destruída vale muito mais do que valia enquanto estava intacta, eu sinceramente não duvido mais de nada.

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