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Angola inaugura o Bodelivery

Um monte de gente está tratando como piada, mas a notícia de que uma App em Angola permite que você compre bodes e galinhas vivas é muito mais que isso, é um exemplo de uma economia sendo beneficiada pela tecnologia, o que é bom para todo mundo, menos pros bodes.

3 anos atrás

Em um de seus livros, Arthur Clarke comenta sobre a música eletrônica que se desenvolveu na Jamaica, quando a sociedade passou rapidamente a ter acesso a mais tecnologia e "pulou etapas". Esse fenômeno se repetiu em várias áreas, e gera fenômenos curiosos. Em muitos países africanos a necessidade de transações eletrônicas, mesmo sem uma infraestrutura implementada, levou à criação de todo um sistema de bancos online usando SMS e celulares comuns, não-smart.

Agora o mercado africano está aquecido pelos chamados telefones esforçados, a ponto dos smartphones perderem mercado em 2017. Esses telefones são burrinhos, mas se não conseguem o mesmo desempenho de um aparelho Android completo, quebram um galhão e têm versões de aplicativos populares como Facebook e WhatsApp.

Esses aparelhos não existem no vácuo (ou seriam chamados de Windows Phone), eles adubaram o terreno para o surgimento de um monte de startups, e mesmo as grandes empresas se adaptam. O Uber acaba de lançar um serviço de vans, no Egito.

A verdade é que a África é um continente de dimensões continentais, e embora comporte todos os estereótipos que estamos acostumados, é muito mais do que Boko Haram, galinhas etíopes (o animal mais rápido da Terra), fome e Ace Ventura. Nos grandes centros temos economias vibrantes e prósperas. A expectativa de vida no continente africano hoje é a mesma dos Estados Unidos em 1950 e dobrou em relação ao Século 18, com todas as guerras, ebolas e shows do Paul Simon ao que o continente foi afligido.

A proliferação do uso de celulares no continente vem crescendo muito. Em 2014, em Uganda, 65% dos adultos tinham um celular. Em Gana esse número chegava a 83% e na África do Sul, 89%. Mesmo percentual dos Estados Unidosfonte. Essa rápida adoção da tecnologia foi graças à facilidade e ao baixo custo de implantação de uma infraestrutura de rede celular, em comparação a um sistema telefônico.

E quando digo falta de infra, é sério. Nas periferias surgiram serviços para atender as necessidades dos usuários, com venda de SIM cards, consertos e até recarga de baterias.

O mercado de startups está pegando fogo, com apps de vendas e serviços. A Jumia é um megamercado de passagens aéreas, entrega de comida, agência de viagens, etc. Está presente em 11 países. Em Angola um app chamado Tupuca é especializado em entregas, aproveitando o trânsito caótico de Luanda. Ao invés de vans (sorry, no Van Damme for you) eles usam scooters, que são bem mais ágeis.

Eles fazem 17.000 entregas por mês, usando 140 scooters. Em geral são compras como detergentes, feijão, pizzas, gasolina, carvão, gelo, mas agora eles começaram a entregar... animais vivos. Assim como brasileiros do interior, angolanos adoram uma galinhada feita com galinha morta na hora, e ainda dá pra guardar o sangue pra fazer morcela.

O Tupuca fez uma parceria com o Roque Online, uma startup batizada em referência ao Mercado Roque Santeiro, uma espécie de mega-camelódromo com uma área de 500 mil metros quadrados. Originalmente quando foi inaugurado, em 1991, era Mercado Popular da Boavista, mas virou Mercado Roque Santeiro por causa da novela. Foi fechado em 2011 pelo governo, que não gosta de economia informal, pois não lucra com impostos.

O que o Roque Online faz é criar uma ponte entre o mercado informal e o consumidor. No caso, a parceria com o Tupuca permite que o consumidor de classe média e alta acesse esse mercado informal, o que é excelente pros churrascos e festas, onde você pode comprar galinhas, porcos e bodes, que custam entre US$ 64 e US$ 82. Não, não sei se está caro ou barato. Um abacate sai por 550 Kwanzas (sério) ou R$ 6,92.

Na África subsaariana a economia informal movimento 1/3 do PIB, então aproximar esse setor da formalidade é estratégico para os dois lados, os informais vendem mais e o consumidor com poder aquisitivo passa a ter acesso a mais produtos, muitas vezes comprando diretamente do pequeno produtor, que escoa com mais facilidade seu estoque.

Disso tudo o mais divertido é no Twitter os floquinhos horrorizados com a notícia. Um monte de americanos que nunca nem viu uma galinha viva, denunciando o serviço como "crueldade animal".

Fonte: The Economist

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