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Darksiders III — Review

Darksiders III carrega a tocha dos jogos lançados antes da falência da THQ, com uma jogabilidade sólida, belo design e alguns probleminhas localizados

2 anos atrás

Demorou, mas Darksiders III chegou. O terceiro título da franquia apocalíptica da THQ, que esteve em vias de nunca ser continuada após a falência da THQ em 2012 entrega um Hack 'n' Slash divertido, mas com alguns acidentes de percurso, como problemas de performance em consoles e elementos de mecânica conflitantes.

Ainda assim, ele mantém o espírito dos anteriores e quem tiver um pouco de paciência, poderá sim se divertir com a aventura de Cólera; leia nossa análise e saiba o que vai encontrar pela frente.

THQ Nordic / Darksiders III

Cólera injustificada

A trama de Darksiders III segue a história contada no primeiro título (a história de Darksiders II acontece quase que paralelamente). O Apocalipse aconteceu, a humanidade foi para a vala (e depois restaurada por Morte) e o paraíso e o inferno estão em guerra. O problema, o cataclisma foi em tese causado por Guerra, o primeiro dos Quatro Cavaleiros antes da hora, e tudo leva a crer que os eventos foram manipulados.

Cólera (Fury no original) é convocada pelo Conselho das Chamas para "limpar a sujeira" causada por Guerra: restaurar a ordem capturando os Sete Pecados Capitais, que vagam pela Terra livremente. A amazona, que é extremamente arrogante e cheia de si o fará apenas para satisfazer seu próprio desejo, de ser readmitida como a líder dos cavaleiros.

THQ Nordic / Darksiders III

Boa parte da história se foca no crescimento de Cólera como personagem, o que é uma coisa boa; no começo, chega a ser irritante o quanto você vai ouvi-la se gabar de suas habilidades, ou reclamar que seus irmãos Guerra, Morte e Conflito são fracos e incompetentes, principalmente porque isso contrasta com suas habilidades ao começar Darksiders III, que não são grande coisa. A dificuldade é elevada mesmo no nível Normal, e qualquer vacilo vai lhe custar a vida rapidamente, mesmo para inimigos comuns.

Com o tempo (e depois de uma surra atrás da outra), Cólera se dá conta não só de que os cavaleiros foram enganados, mas também de que ela tem muito o que aprender sobre o mundo, sobre a humanidade (que ela despreza) e sobre si mesma, ao mesmo tempo que precisa lidar com a Vigia do conselho, que vai ficar no salto da sua bota o tempo todo.

Chega a ser irônico que enquanto o jogador se aproxima mais de Cólera ao longo do jogo, a trama envolvendo o paraíso, o inferno e o Conselho das Chamas soa muito distante, e é difícil se importar com qualquer coisa que deveria ser a mola-motriz da narrativa.

THQ Nordic / Darksiders III

A história tem mais buracos do que o aceitável, mesmo para um game cujo objetivo principal é ser uma aventura descompromissada, e esses e outros problemas fazem com que o roteiro de Darksiders III seja o mais fraco da franquia, ao menos até o próximo título (que deverá trazer Conflito como protagonista). Por outro lado, o crescimento de Cólera ao longo da trama é a parte mais legal de se acompanhar.

Darksiders III Souls

Falando da jogabilidade, Darksiders III é um Hack 'n' Slash muito bem executado, com um nível de dificuldade alto, como já mencionado e inimigos até bem inteligentes, que exigem destreza, precisão e velocidade do jogador para executar os combos. O chicote de Cólera possui um bom alcance, mas não é intransponível e se você não ficar esperto, vai apanhar e muito.

Os problemas começam quando a Gunfire Games, desenvolvedora responsável pelo título insere elementos da série Souls no game. Resumindo a história, um Hack 'n' Slash é um estilo de game que foca bastante em ganho de poder, enquanto nos games da From Software e derivados, o intuito é tirar poder do jogador. Em um título como um God of War clássico (não o mais recente), você acumula pontos para comprar melhorias e/ou habilidades novas, e tudo gira em torno disso.

THQ Nordic / Darksiders III

Em um Dark Souls ou em Bloodborne, a meta do jogador é não morrer, e fazer de tudo para manter suas habilidades ou vai voltar para o Save Point, sendo obrigado a fazer todo o caminho onde pereceu para recuperar os pontos perdidos. Em Darksiders III temos uma mescla das duas mecânicas, e elas simplesmente não se misturam.

Você acumula lurchers (a moeda do jogo) ao derrotar inimigos e recolher pacotes pelo cenário, e deve negociar com seu velho amigo Vulgrim a compra de itens, habilidades e melhorias das barras de e de fúria, entre outras coisas. Isso é inerente a todo Hack 'n' Slash que se preze, mas se você morrer, vai perder todos os lurchers que carregava e voltará à ultima loja que visitou, e assim como num Souls, será forçado a fazer backtracking e arriscar uma outra morte.

O resultado é um game onde as duas mecânicas brigam o tempo todo. Você será impelido a continuar sua aventura, mas Darksiders III tentará puxar seu tapete o força-lo a ir a voltar a lugares onde morreu, só para recuperar todo o dinheiro que deixou para trás. No início isso irrita e muito, porque Cólera é bem fraca e pode ser derrotada facilmente.

Na parte técnica, a melhor forma de definir Darksiders III é como um diamante bruto. Ainda que seus gráficos não sejam tão lapidados quanto deveriam ser em um título da geração atual, o design de cenários é muito inteligente, permitindo que o jogador volte a áreas no mapa para explorar com poderes ganhos posteriormente, alcançando novos lugares e coletando mais itens, o que por sinal é uma característica da franquia.

THQ Nordic / Darksiders III

Já o design segue a temática da narrativa, que desde Darksiders emula o estilo exagerado dos quadrinhos dos anos 1990, com todos os prós e contras que dele provém. Não por coincidência, o designer original dos dois primeiros títulos foi o quadrinista Joe Madureira (Battle ChasersOs Fabulosos X-Men, Os Supremos Vol. 3), que possui um estilo fortemente calcado nas HQs da época, mas desenha melhor que "o mito, a lenda" Rob Liefeld, para a nossa sorte.

O efeito colateral dessa escolha de design? O game ficou com uma cara de jogo do PlayStation 3 ou Xbox 360.

Embora Madureira não tenha se envolvido com a produção de Darksiders III, a Gunfire Games manteve seu estilo até para não deturpar a identidade visual da franquia, e todos os personagens novos são perfeitamente adequados para o mundo devastado do jogo. Os Sete Pecados estão incrivelmente bem representados no jogo, e seguem decisões de design bastante originais para representar suas características individuais. Os cenários também são vivos e dinâmicos, cheios de detalhes e o som e músicas, bem envolventes.

Aqui cabe uma nota para o ótimo trabalho de dublagem do áudio original; o game não conta com vozes em português brasileiro, mas foi devidamente localizado nas legendas e menus.

A parte mais feia de Darksiders III, contudo está na performance. Muitas vezes o framerate cai, mesmo no PS4 Pro e Xbox One X e até em PCs com placas de vídeo de ponta, e as telas de loading são mais demoradas do que deveriam ser, o que chega a quebrar o ritmo da aventura. A THQ Nordic ao menos reconhece que o jogo foi mal otimizado, e desde o lançamento vem lançando patches de correção para as versões. Assim, é de se esperar que esses problemas sejam amenizados com o tempo.

Conclusão

THQ Nordic / Darksiders III

Darksiders III é um game bem intencionado, mas todos sabemos do que o inferno está cheio. Embora seja um Hack 'n' Slash sólido e divertido como há muito não se via, ele demora a brilhar por causa tanto dos problemas técnicos, quanto pela mecânica Souls-like extremamente punitiva, inadequada para este estilo de jogo. Como ele possui uma dificuldade elevada, o jogador vai se frustrar muito ao ter que voltar para onde morreu e recuperar os lurchers perdidos, tempo esse que poderia ser melhor empregado.

Os gráficos estão dentro do esperado, mas menos polidos do que deveriam, e somando-se isso à jogabilidade, design de cenários e de personagens, fazem com que Darksiders III fique com uma cara de jogo AAA da geração passada. Sem contar que a jornada de Cólera é bem menos interessante, em termos de narrativa do que as de Guerra e Morte.

A palavra-chave para Darksiders III é "paciência". Se o jogador conseguir passar pelo início um tanto cansativo do game, vai encontrar um título divertido como os primeiros Darksiders, com uma grande variedade de ataques e upgrades. E como God of War jogou a toalha, ele é hoje um dos poucos representantes atuais para o gênero Hack 'n' Slash. Ele só precisava ser um pouco mais bem trabalhado, e seria perfeito.

Em última análise, Darksiders III é um jogo feito para os fãs da franquia (a THQ Nordic usou tal argumento para se defender das críticas) e para quem sentia falta de um jogo do tipo nos últimos tempos. Para todos os demais, é melhor esperar por uma promoção.

Ficha Técnica

  • Título — Darksiders III;
  • Plataformas —PS4, Xbox One e PC;
  • Desenvolvedora — Gunfire Games;
  • Distribuidora — THQ Nordic;
  • Preço — R$ 229,90 para PS4, R$ 249,00 para Xbox One e R$ 189,99 para PC via Steam;
  • Pontos Fortes — design de personagens e ambientação manteve o estilo de HQ dos anos 1990; grande variedade de upgrades; jogabilidade agradável, com combate e exploração bem executados;
  • Pontos Fracos —mecânicas Hack 'n' Slash e Souls-like não se misturam, e causam conflitos; problemas de performance, como quedas de framerate e telas de loading demoradas; a história mais fraca da série até agora.

Meio Bit analisou Darksiders III no PS4 Pro, com uma cópia física cedida pela Ecogames.

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