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Vem aí a Crise dos Mísseis Cubanos 2- A Missão - Cortesia do Maduro

Os russos pousaram dois bombardeiros na Venezuela e está todo mundo arrancando os cabelos. Não há motivo para pânico. O motivo para ter medo é outro...

3 anos atrás

Em 10 de dezembro dois bombardeiros russos pousaram na Venezuela. A reação da imprensa e das interwebs variou do pânico à indiferença. Havia gente dizendo que era uma ameaça aos Estados Unidos, outros que era provocação, houve até quem falasse que era preparativo para bombardear Brasília e matar o Bolsonaro.

Washington, claro, reclamou, mas é pura formalidade. Não há absolutamente nada de inédito na incursão russa. Desde que a Guerra Fria começou, americanos voam próximos às fronteiras soviéticas e soviéticos voam próximos às fronteiras americanas. Incluindo aliados de ambos.

No Alaska pelo menos três gerações de pilotos dos dois lados já se encontraram, em comum o Tupolev Tu-95, codinome Bear, versão russa do B-52, que entra ano, sai ano continua o pé-de-boi da Força Aérea russa.

Essas missões são ótimo treinamento para todo mundo, funcionam para aquisição de dados de performance dos aviões, radares inimigos e indicam o tempo de resposta e índice de prontidão. Fora que os políticos adoram, na Inglaterra toda semana alguns aviões russos aparecem sobre o Mar do Norte, caças são enviados para interceptar e os jornais se deliciam nas manchetes sensacionalistas.

No caso da Venezuela todo mundo se esqueceu que é rotina bombardeiros russos pousarem ali. Sem perder muito tempo acha-se notícia disso acontecendo desde 2013.

Quais os riscos reais?

Bem, realisticamente falando, zero. Se duas andorinhas, africanas ou européias, não fazem verão, também não o fazem apenas dois bombardeiros. Lembre-se, nem o Rambo sozinho conseguiu ganhar a guerra do Vietnã. O temor dos americanos eram esquadrilhas imensas de bombardeiros soviéticos vindos do Norte.

O medo era tanto que foram criadas armas como o AIR-2 Genie:

Esse brinquedo não é um míssil, é um foguete nuclear. Ele não tem nenhum sistema de guiagem, o objetivo era apontar o avião pra uma formação de bombardeiros soviéticos, a uma distância de 10 km e quando ele chegasse na posição certa um timer detonaria a ogiva, explodindo com uma força de 2 Kilotons. Isso mesmo, os caras usavam armas nucleares como artilharia antiaérea, e tem até o vídeo de um teste, com 5 sujeitos que foram cobaias, ficando em terra com a explosão acontecendo em cima deles, bem alto.

DOIS bombardeiros seriam facilmente derrubados, exceto que os Tu-160 Blackjack são bem respeitáveis, voando a igualmente respeitáveis 2,2 vezes a velocidade do som e carregando respeitáveis 45 toneladas de bombas, ou mais precisamente, mísseis.

No caso o BlackJack consegue levar nada menos que 12 mísseis AS-15 Kent, em dois lançadores rotativos.

Cada um desses mísseis leva uma ogiva de 200 Kilotons, e com um alcance de 3 mil km, eles podem ser lançados da pontinha da Venezuela e destruir Flórida, Alabama, Geórgia, as Carolinas e raspa em Washington. Lançados da altura de Cuba, e toda a Costa Leste e o Meio-Oeste americanos vão pra vala.

O que não vai acontecer, claro. Não com dois míseros bombardeiros. Os 12 mísseis estragam seu dia, mas enquanto os Kents estiverem voando em velocidade subsônica em direção ao EUA, Washington contra-atacará com tudo, isso significa que os 673 ICBMs no arsenal serão lançados, alguns deles em direção a Caracas. Os Estados Unidos têm 6.800 ogivas termonucleares no arsenal, não tem como isso acabar bem.

Não faz sentido um ataque-surpresa com apenas dois aviões, em um voo anunciado e documentado pela imprensa internacional, mas agora uma notícia mudou totalmente a situação e tudo se foca aqui, na Ilha de La Orchila, uma ilhota de 10 km de comprimento a 125 km da costa da Venezuela.

A ilha tem algumas construções, uma pista de pouso em péssimas condições que deve datar da Segunda Guerra, no resto é um grande deserto, mas não por muito tempo. A Venezuela autorizou a Rússia a construir uma base aérea, traçando um forte paralelo histórico com 13 dias que abalaram o mundo, em 1962.

13 Dias Que Abalaram o Mundo, em 1962

A situação geopolítica do mundo em 1962 era bem complicada. Soviéticos e Americanos tentavam ampliar suas esferas de influência, na Alemanha o Muro de Berlim estava terminando de ser construído, armas nucleares melhores menores e mais potentes eram desenvolvidas e colocadas em prontidão não só nos países de origem, mas nos aliados.

No Caribe a situação também era complicada, um ano antes a fracassada Invasão da Baía dos Porcos havia humilhado os americanos e fortalecido as relações entre Cuba e a União Soviética, que não eram as ideais, mas era o que havia na mesa e Fidel preferia um pouco de ajuda a nenhuma.

Nota: Uma velha piada cubana da época conta que Fidel recebeu de presente dos russos: um jipe, lindo, zero km, todo equipado, mas veio sem volante. Fidel ligou para Moscou para avisar, ao que os russos responderam: "não, é assim mesmo, é simples: você acelera, nós dirigimos."

Fidel Castro e Nikita Khrushchev, BFFs.

Para complicar os Estados Unidos resolveram colocar vários mísseis PGM-19 Júpiter na Itália e na Turquia. O Júpiter era um Míssil Balístico de Alcance Médio, construído pela Chrysler (aquela mesma) capaz de colocar levar uma ogiva de 3,75 Megatons até um alvo a 2.400 km de distância. E sabe o que está bem dentro desse alcance? Moscou.

Nikita Khrushchev não iria deixar barato, e resolveu matar vários coelhos com uma só cajadada nuclear. Responderia à altura, instalando mísseis nucleares em Cuba.

Fidel, quando foi formalmente comunicado, inicialmente não gostou, mas depois percebeu que seria uma boa forma de dissuadir qualquer tentativa de invasão, e chegou a pedir para Khrushchev que lançasse um ataque nuclear contra os Estados Unidos, caso a ilha fosse invadida.

Além disso, o posicionamento dos mísseis agradaria à Linha Dura do Partido Comunista, que tinha suas dúvidas quanto a Khrushchev. E a cereja do bolo é que funcionaria como uma provocação, Khrushchev acreditava que Kennedy era um presidente bundão, que não teria coragem de reagir e aceitaria a situação.

Ele estava razoavelmente quase certo, era época de eleições e Kennedy tentou ignorar os boatos de que a União Soviética estava instalando mísseis em Cuba o máximo que pôde, mas acabou tendo que investigar, e depois de um voo de um avião espião U2, a verdade apareceu.

Várias cartas em tom bem ríspido foram trocadas, inclusive uma mensagem pessoal de Khrushchev garantindo que nenhum míssil soviético estava sendo instalado em Cuba.

Kennedy tinha várias linhas de ação, alguns generais queriam invadir Cuba com tudo, havia o pessoal que queria uma solução diplomática e no final Kennedy escolheu um meio-termo. Negociaria, abertamente E secretamente com Moscou, enquanto isso iriam impor um bloqueio naval para impedir que mais navios carregando mísseis e equipamento de apoio chegassem em Cuba.

Também havia a hipótese de não fazer nada, ou de bombardearem os locais onde os mísseis estavam sendo instalados.

Os russos tinham dois tipos de mísseis em Cuba: o SS-4 Sandal, de 22 metros de comprimento e alcance de 2.080 quilômetros, e o SS-5 Skean, com 24,4 metros de comprimento e alcance de 3.700 quilômetros. Também havia mísseis de curto alcance, com ogivas nucleares preparadas para destruir frotas de invasão. Desses o Fidel gostava.

O problema com a maioria das linhas de ação é que elas terminariam em guerra, e o bloqueio ganharia tempo. Assim foi feito.

Na área diplomática os Estados Unidos conseguiram invocar o Tratado do Rio, assinado no Rio de Janeiro em 1947 pelos membros da Organização dos Estados Americanos, que previa ajuda mútua. Trinidad e Tobago ofereceu uma base naval, a Venezuela mandou dois destróieres. A Argentina disponibilizou um batalhão de fuzileiros, um submarino e dois destróieres, o Brasil fez que não era com ele e não mandou nada, depois não sabem porque os gringos vetam nossa entrada como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Os Estados Unidos mobilizaram uma frota considerável e vários navios deram meia-volta, outros mantiveram o curso, foram inspecionados e liberados por não estarem carregando mísseis ou componentes.

Os Russos por sua vez mandaram seus navios de guerra, a situação foi se tornando mais tensa até que em 27 de outubro um U-2 pilotado pelo Major Rudolf Anderson foi derrubado por uma bateria de mísseis russos SA-2 Guideline.

Aparentemente a decisão de derrubar o avião foi tomada por um oficial russo, ignorando instruções de Moscou. Para sorte de todos, Kennedy, que havia decidido atacar, mudou de ideia. Khrushchev por sua vez emitiu ordens expressas proibindo que fosse derrubado qualquer avião que estivesse voando sozinho.

No mesmo dia o mundo chegou à beira do Armagedom. Um submarino soviético Classe Foxtrot, o B-59 havia sido detectado por 11 destróieres, um porta-aviões e vários navios o cercaram.

Como ele estava fundo demais para usar o rádio, os americanos começaram a lançar cargas de profundidade de treinamento, com uma quantidade mínima de explosivos, suficiente só pra chamar a atenção.

O B-59 não sabia disso, para eles as cargas eram reais e os americanos os estavam tentando afundar. Pior ainda: Eles estavam a dias sem contato com Moscou, e havia a dúvida se a guerra havia começado. Convencido disso, o Capitão resolveu lançar sua arma-secreta, um torpedo nuclear de 10 kilotons, que destruiria o porta-aviões próximo, o USS Randolph, e vários dos outros navios inimigos.

A doutrina soviética exigia que em barcos na situação do B-59 a ordem de lançamento fosse confirmada por duas pessoas: O Capitão e o Oficial Político.

Não o Putin.

Só que no caso do B-59 o Imediato, segundo em comando era Vasili Arkhipov, um sujeito com um currículo extremamente respeitável. Ele havia sido segundo em comando do K-19, durante o famoso acidente que mais tarde inspiraria a história do Caçada ao outubro Vermelho.

Ele estava como imediato do B-59, mas ao mesmo tempo era comandante de toda a flotilha de submarinos soviéticos na região, composta de 5 barcos. Ele tinha o mesmo ranking que o Capitão alentin Grigorievitch Savitsky, comandante do B-59. Por causa disso ele também tinha poder de decisão, e Arkhipov se recusou a autorizar o lançamento do torpedo.

Depois de muita discussão, o Capitão Savitsky concordou em emergir, quando então puderam confirmar via rádio que a 3a Guerra Mundial não havia começado e que se tivessem lançado o torpedo, teriam dado início ao fim do mundo. Arkhipov efetivamente é uma das poucas pessoas que podem dizer que salvaram a espécie humana como um todo.

As negociações continuaram, mas Khrushchev sabia que seu blefe não duraria muito tempo. A União Soviética estava muito atrás em seu programa de mísseis, eles tinham menos de um terço do número de ogivas que os americanos, e seus mísseis não eram confiáveis. Ações dos americanos em Cuba exigiriam ações soviéticas na Europa, e a situação sairia de controle rápido.

No final, Khrushchev aceitou anunciar publicamente que iria remover os mísseis de Cuba. Em troca os Estados Unidos removeriam secretamente os mísseis Júpiter da Itália e da Turquia, e se comprometeriam a não invadir Cuba nem promover ou apoiar invasões de terceiros.

Uma das consequências foi a instalação do telefone vermelho

Não este.

Que, aliás, nem era um telefone, mas uma linha de telex entre Washington e Moscou, monitorada 24/7 para que em caso de crises os dois líderes pudessem se comunicar diretamente.

E hoje?

Uma base de bombardeiros na Venezuela reduz enormemente o tempo disponível de reação dos Estados Unidos. Os russos estão desenvolvendo mísseis hipersônicos que serão quase impossíveis de interceptar, combinados com as novas gerações de bombardeiros, como o Tupolev PAK DA, temos a receita para algo muito, muito perigoso:

A noção de que é possível vencer uma guerra nuclear, fugindo do conceito de Destruição Mútua Assegurada, que manteve a paz até hoje.

Os russos, como todos sabemos, não vão nem ao banheiro sem ter um plano e trollar os americanos é algo muito primário. Se eles consolidarem uma base na Venezuela, será para ficar e isso vai afetar profundamente a geopolítica da região. Eles irão proteger o Maduro como protegem o Assad na Síria, o que é péssimo pra população local.

Pior, Maduro pode se sentir tentado a meter olho grande na Colômbia, racionalizando que com apoio da Rússia os americanos não vão se meter. Uma guerrinha suja é ótimo para distrair uma população inquieta, como as Falklands demonstraram.

Se isso acontecer vai sobrar até pro Brasil, e dessa vez não seremos apenas meninos de recado como na Crise dos Mísseis de Cuba, quando intermediamos mensagens entre Washington e Havana.

Pelo visto a velha maldição chinesa continua funcionando. Estamos vivendo em tempos interessantes.

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