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Loki não era tão malvado assim. Terá a Disney esquecido a própria lição?

A Marvel anunciou que Loki em Vingadores não era realmente Loki, ele estava sob influência do Cetro e a Jóia da Mente. Isso é péssimo e parte de uma tendência de Hollywood: enfraquecer vilões.

3 anos atrás

A notícia até fez sentido, mas foi uma decepção. É oficial, a Disney atualizou a biografia do Loki no site oficial da Marvel, e dizem com todas as letras: O Cetro foi um presente de Thanos, que em troca de ajudar Loki a conquistar Midgard, exigiu o Tesseract. Até aí tudo bem, mas também explicaram que o mesmo cetro que Loki usou para controlar outras pessoas afetava sua mente, reforçando seu ódio e desprezo por Thor e pelos humanos.

Ou seja: O Deus da Mentira, o Rei das Trapaças, que já fez de tudo, inclusive transformar Thor em um Sapo, era só um fantoche nas mãos de Thanos e não era "tão malvado assim", mesmo em Ragnarok, Thor e Dark World ele tendo tramado e traído até não poder mais.

O que a Disney fez foi algo que está se tornando cada vez mais comum, infelizmente. Para evitar que as pessoas gostem de personagens malvados, eles são alterados para não serem tão ruins assim. Isso vale inclusive para mocinhos, que não podem ter traços negativos.

Vilões Importam

Walt Disney amava seus vilões. É o vilão que define o herói, a história precisa dele para funcionar. Se o vilão não convence, o herói não convence, a história não convence.

Alguns dizem que isso tem se tornado um problema à medida em que as plateias vão ficando mais sofisticadas, mas isso não é verdade. Vilões não precisam de enormes histórias para se tornarem convincentes. Os bons e velhos vilões do cinema mudo funcionavam muito bem, mesmo que a história de mocinhas amarradas no trilho do trem seja um mito.

Mesmo sem meia hora de diálogo expositório, as motivações dos vilões ficavam explícitas; ciúmes, ganância, vingança, sentimentos simples de entender e bem explicados. Isso é essencial para um bom vilão, seja o Darth Vader, seja o Seu Barriga.

Algumas vezes a maldade do vilão vem de tabela. Hans Landa, por exemplo, o deliciosamente malvado nazista de Bastardos Inglórios. Tarantino não perde tempo contando a história dele, ele é nazista, isso o autoriza a ser malvado e o público entende e aceita. Ninguém se importa com a história dos Irmãos Metralha. A motivação deles é dinheiro, isso é explícito, para o leitor a associação é satisfatória.

Não Basta Ser Mau

Hans Gruber é mau, mau feito o Pica-Pau, mas ele não é mau por ser mau. Ele tem um foco intenso durante todo o filme: conseguir roubar o cofre do Nakatomi Plaza. Ele considera todo o resto secundário, os reféns são apenas meios para que ele consiga conter a polícia e obter a combinação da tranca. Ele é totalmente amoral, e funciona maravilhosamente bem.

A maldade de um vilão não precisa sempre ser justificada, mas se for vazia perde a força. Vira aquele vilão-padrão de filme ruim que mata os próprios assistentes pelo menor deslize, para o espectador isso não faz sentido, ele sabe que um vilão não conseguiria manter uma equipe de colaboradores próximos com essa política de exterminar ao primeiro erro cometido.

Jogando no 11 pode

Ao mesmo tempo um vilão funciona se ele for mau demais, existe até uma trope sobre isso, chamam de "chutar cachorrinhos".

Existem vilões cujas ações são tão desproporcionais que não ligamos para suas motivações. Darth Vader é o melhor exemplo. Ele apareceu em Guerra nas Estrelas mastigando o cenário, mau e implacável, tão imponente que a gente nem percebe que ele ainda é júnior e o grande genocida da história é o Grand Moff Tarkin.

A única história de Vader que conhecemos no primeiro filme é que ele era um Jedi que foi seduzido pelo Lado Negro da Força, ajudou a caçar outros Jedis e matou Anakin Skywalker. Não sabemos sua motivação, não sabemos os detalhes, mas não importa. Vader é o mal encarnado, em um universo preto e branco dividido entre Jedis e Siths, sem nuances.

Logo percebemos que Vader representa o Império. Ele não precisa de uma história pois é a versão encarnada daquela máquina de guerra fascista totalitária malvada implacável. Igual ao Hans Landa.

O Mocinho Pode Ser Imperfeito

Exceto que há nuances, o mocinho precisa ser imperfeito ou não há a Jornada do Herói. Han Solo aprende a confiar em outras pessoas, deixa a ganância de lado e volta para salvar seus amigos. Luke passa por uma tragédia pessoal ao mesmo tempo em que tem que reaprender como o mundo funciona. É preciso muita fé para desligar o computador de tiro e confiar na Força, como ele fez. O garoto que sonhava com batalhas e grandes guerreiros descobre que guerra não faz ninguém grande.

O que move Loki

Nosso asgardiano favorito tem suas motivações, mas o que o tornou um excelente vilão é sua aleatoriedade. Loki tem muito do Coringa, ele é um elemento do caos, nunca sabemos o que ele vai fazer, exceto que será algo de seu interesse. Mesmo vingando a morte da mãe Loki aproveita pra avançar seus planos de conquista.

Loki exila o pai num asilo, toma o lugar e a imagem dele e governa Asgard por um bom tempo. Ele é um raro vilão que consegue, mesmo que temporariamente seu objetivo, isso é bom de se ver.

A Era dos Vilões Atormentados

Alfred Hitchcock disse que as plateias estão mais inteligentes e querem vilões humanos com fraquezas humanas, infelizmente isso foi levado às últimas consequências principalmente nas décadas de 1990/2000. Não há nada de errado em explicar um vilão, o que não dá é ele ser justificado.

Ralph Fiennes justifica Voldemort dizendo que ele era um órfão que cresceu sem nenhum tipo de amor maternal, mas hello? Isso é motivo pro sujeito barbarizar o mundo todo? Não importa se Jabba sofreu bullying na escola, caramba. A tendência de humanizar vilões se tornou uma moda de justificar a maldade deles, e em última análise castrá-los.

Criar uma história para os vilões não é ruim, mas do jeito que está sendo feito acaba funcionando como justificativa, ficamos com pena deles, ou pior: Eles se tornam fracos. Ah coitado ele é assim porque apanhou do pai quando era criança. Bah.

Um bom vilão não deve ter conflitos internos, ele tem que ser bem resolvido em sua insanidade. Atendido esse quesito, um vilão multidimensional é sempre melhor que um vilão de cinema mudo ou um daqueles gangsters genéricos dos seriados dos Anos 80.

Em Malévola, a implacável Rainha Malvada de Branca de Neve feiticeira de A Bela Adormecida, uma das melhores vilãs da Disney teve sua origem -que ninguém queria saber- contada, e -adivinhem- ela não era má, era uma fada que se apaixonou por um humano, brigou com um Rei, seu namorido foi embora, o Rei ofereceu uma recompensa pela cabeça da elfa. O namorido voltou para casa, e quando ela se distraiu ele cortou suas asas e levou para o Rei. Daí em diante ela nunca mais confiou em Homens.

De uma linda e malvada feiticeira a Malévola virou sobrevivente do #MeToo.

A Marvel Também Acerta

Spider-man: Homecoming foi um grande acerto da Marvel, um dos principais fatores foi a escolha de Michael Keaton, que demonstrou ser verdadeira a frase: ou você morre herói ou vive o suficiente para se tornar o vilão.

Seu personagem começa o filme como um honesto e trabalhador pai de família, que tem sua empresa arruinada pela arrogância governamental, a SHIELD, os Vingadores, todos estão preocupados demais com ameaças cósmicas para se preocupar com o efeito de suas brigas no cidadão comum.

E Adrian Toomes, o personagem de Keaton é exatamente isso, um sujeito comum, que acaba sobrevivendo roubando tecnologia alienígena e revendendo pra criminosos de 3o escalão. No resto do dia ele tem uma família amorosa, a quem cuida e protege.

A grande surpresa do filme é justamente percebermos que se Parker quer proteger sua amiga Liz, seu pai, Michael Keaton quer a mesma coisa. Os interesses e motivações do herói e do vilão se sobrepõe, resultando na cena mais tensa de todo o MCU: Quando Keaton está no carro sozinho com Parker e diz "eu poderia te matar agora, mas você salvou minha filha, então vou deixar passar mas se meta comigo de novo e mato você e todo mundo com quem você se importa".

O Abutre é um vilão com motivação, claramente antagônico ao herói, e funciona melhor ainda pois nós entendemos como ele chegou ali. Não é para sentir pena, não é para questionar se o herói está certo. é para tornar o vilão mais próximo de uma pessoa real, e não isto:

A Marvel Também Erra

E como erra. O primeiro Homem-Formiga é um delicioso filme de roubo disfarçado de filme de super-herói, mas o vilão genérico executivo engravatado que faz acordos questionáveis com organizações criminosas igualmente questionáveis e zzzzzzzzzzzzzzzzzzz.... para piorar o Jaqueta Amarela aparece do nada, apenas para brigar com o herói. Qual o motivo? Qual a lógica? Qual investimento emocional eu espectador vou fazer num capanga genérico fantasiado?

A Marvel Acerta Muito Quando Quer

Digo e repito: Killmonger talvez seja o melhor vilão da Marvel e o filme do Pantera Negra deu muito certo por causa dele.

Killmonger é o clássico vilão atormentado mas nem um pouco indeciso quanto a seus objetivos. Seu ódio contra T'Challa é hereditário, Killmonger descobriu que seu pai, N'Jobu foi morto pelo irmão, o Rei T'Chaka. Tudo porque Wakanda pregava o isolacionismo e N'Jobu, depois de morar nos Estados Unidos não se conformou com a situação da população negra no mundo todo.

N'Jobu queria usar a tecnologia de Wakanda para armar essas populações, dando a elas as ferramentas para escapar da opressão. Para ele e depois para Killmonger era imoral Wakanda ter tanta riqueza e recursos e não fazer nada.

O espectador é balançado fortemente pelo discurso de Killmonger, ele não quer poder e riquezas para si, ele quer vingança, sim, mas também quer justiça para seu povo.

Killmonger é um vilão tão forte que ele vence no final, T'Challa decide abrir aos poucos as fronteiras de Wakanda, e se integrar ao resto do mundo.

Vilões não são anti-heróis e não precisam de redenção

Existe uma confusão muito comum com o conceito de anti-herói. Ele NÃO é o oposto do herói, embora muitas vezes os dois se estapeiem. O anti-herói é o sujeito que faz a coisa certa do jeito errado. Deadpool, Justiceiro são anti-heróis. Eles rotineiramente ultrapassam linhas que heróis não cruzariam. Já o Soldado Invernal é um vilão que se tornou herói, mas sem o artifício da redenção. Ele não teve nenhuma epifania, não foi convencido por nenhum grande discurso. Apenas pararam de manipular sua mente.

Por isso ele não perdeu sua força. Já Han Solo perde bastante ao fazerem Greedo atirar primeiro, e Loki, com todo seu discurso sobre botas e formigas se torna um reles garoto de recados, se era o cetro quem estava ditando as regras.

Vilões podem e devem continuar vilões, as pessoas são inteligentes o bastante pra entender e gostar (ou amar odiar) de seus vilões, não é derrota aceitar que o mal às vezes é malvado e pronto, sem redenção. Bolas, nos Anos 90 nós aceitamos que Hannibal ia sempre comer gente, que Freddie Krueger ia sempre matar gente. Ninguém reclamava que eles não iriam ser "salvos" pelo herói.

Conclusão

Loki é o Príncipe da Maldade, Deus da Mentira e poderoso demais pra ser influenciado por um simples cetro. Ele funciona perfeitamente bem sendo uma força caótica do mal, não precisa ser humanizado nem muito menos ter suas ações justificadas.

A tendência de tornar vilões mais complexos e multidimensionais acabou criando uma série de vilões fracos, quando se sente mais pena do que medo, sinal de que não é um bom vilão, e sem um bom vilão a história desanda como um castelo de cartas. Vide House of Cards, como desmoronou quando perdeu seu vilão maior, Frank Underwood, na terceira temporada.

Pergunta de Bônus:

Pare, pense e responda nos comentários: Quem é o vilão em Perdido em Marte?

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