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Resenha — Black Mirror: Bandersnatch, um jogo interativo divertido, mas não muito profundo

Com vários finais alternativos, o filme interativo Bandersnatch diverte deixando o controle na mão do espectador (na maior parte do tempo)

3 anos atrás

Depois de ter assistido algumas vezes o filme interativo Black Mirror: Bandersnatch, lançado dia 28 na Netflix, resolvi escrever essa resenha pra passar um pouco da minha experiência com o filme, o que eu acho que deu certo, e principalmente, o que não funcionou, e que pode servir como lição para as próximas produções interativas.

Cena de Black Mirror: Bandersnatch

Por conta de sua alma de jogo interativo, e por estarmos no Meio Bit, que é um site de tecnologia, e mais especificamente no MB Games, já falei bastante sobre Bandersnatch antes mesmo de começar a assistir ou sequer saber do que se tratava direito.

Não preciso dizer pra vocês que enquanto entusiasta de tecnologia e de games, escrevendo há tantos anos sobre o tema, que muito me interessa o conceito da interação por trás deste primeiro filme da franquia Black Mirror, que até agora era apenas uma série, diga-se de passagem.

Tudo bem que essa está longe de ser a primeira experiência da Netflix com esse formato interativo, que eles lançaram com filmes infantis em 2017, e do qual falamos neste post sobre uma aventura do Gato de Botas, mas agora a brincadeira está disponível para os adultos.

Antes de começar a brincadeira, tive alguns percalços técnicos. Ele não funciona com o app da Netflix TV (em algumas vai rodar, em outras não), e também não roda no app do Apple TV ou do Chromecast.

Optei então por assistir no computador, que está ligado a TV. Também é possível assistir em tablets e até mesmo no smartphone. Infelizmente pelo seu formato interativo, é impossível fazer o download de Bandersnatch, pois seria divertido poder jogar por aí.

É muito mais legal assistir, ou melhor, experimentar o novo filme/game do que ler sobre ele. Neste texto vou tentar não dar muitos spoilers da trama, a não ser que avise antes, mas pra quem ainda não assistiu, e por acaso se não quiser saber de nada, recomendo fazer isto antes de continuar lendo, é só clicar aqui.

Eu sou admirador de longa data do trabalho de Charlie Brooker em Black Mirror, e embora não tenha gostado de todos os episódios da série, os que não gostei são minoria absoluta, e deles sempre dá pra tirar uma lição ou uma sacada interessante, até mesmo dos mais fracos (não vou citar quais não gosto pra evitar ofensas gratuitas, hehehe).

Pro mal ou pro bem, Bandersnatch não pode ser comparado a um episódio comum, pois é algo diferente. Não é bem um filme, então não vou criticá-lo como tal, está muito mais um jogo mesmo, e é assim que deve ser visto/jogado.

A trama é passada em 1984 (um ano que definitivamente marcou minha vida já que eu era adolescente naquela época longínqua), e gostei muito da produção ter se dado ao trabalho de recriar algumas lojas de Londres nos mínimos detalhes especialmente para a história, como eu citei nesse post, que falava sobre como a história de Bandersnatch era inspirada livremente no jogo homônimo, que nunca chegou a ser lançado com este nome.

Foi portanto com bastante expectativa que sentei pra jogar/assistir Black Mirror: Bandersnatch. Pra mim ele funciona bem como um jogo interativo, mas não muito como filme. Não achei nada revolucionário ou que irá mudar o mundo, mas também consegui me divertir na maior parte do tempo que dediquei a ele. Esperava mais? Com certeza, mas também não considero perda de tempo.

Vamos dar uma olhada na trama básica. No filme interativo você controla algumas ações de Stefan (Fionn Whitehead), um jovem desenvolvedor que resolve adaptar um livro interativo (Bandersnatch) em um game. O jogo era um dos pertences de sua mãe, que morreu de forma traumática quando ele era criança.

Cena de Black Mirror: Bandersnatch

Stefan vai até a Tuckersoft, onde conhece o dono da empresa, Mohan Tucker (Asim Chaudhry) e seu principal funcionário, Colin Ritman (Will Poulter), que criou vários jogos que Stefan adora e é um ídolo para ele. Para a sua surpresa, os dois estão interessados em seu trabalho e na sua proposta de adaptar o livro interativo para um jogo.

O desafio será produzir Bandersnatch até uma data limite que não está muito distante. O personagem até gosta da ideia de produzir o jogo no escritório da empresa com uma equipe dedicada a ele, mas nós, os jogadores, não deixamos ele seguir adiante com a sua intenção, já que ela implica diretamente no final mais prematuro e sem graça de todos.

Ao longo dos meses em que se dedica a produzir o jogo como um lobo solitário, Stefan não fica sozinho, pois tem tem várias interações não muito agradáveis com seu pai ultra controlador e com a psiquiatra Dra. Haynes, que explora sua questão familiar e a dor pela perda da sua mãe.

O elenco é de ótimo nível. Alice Lowe está excelente no papel da Dra. Haynes, assim como Craig Parkinson no do pai ultra controlador. Will Poulter como sempre está ótimo, e seu papel de lenda dos videogames é muito importante para o desenvolvimento da trama pela influência que ele tem sobre Stefan.

Mesmo sendo brincadeira, quando fiz uma comparação entre Black Mirror: Bandersnatch com a série Você Decide, que a Globo exibiu nos anos 90, não estava sendo justo. Na velha série, os espectadores podiam escolher entre dois finais, já em Bandersnatch, como em um autêntico jogo interativo, você pode escolher várias coisas durante a trama, e no final tem pelo menos 5 conclusões diferentes, segundo a Netflix.

Sei que tecnicamente produzir uma experiência como Bandersnatch é uma façanha por si só, e este post da Wired explica muito bem isso, algo que aliás me interessa muitíssimo, mas não vou entrar em detalhes sobre este lado da produção nessa resenha. A parte técnica fica para outro post.

Nesse texto quero mesmo é falar sobre a história em si, sobre os erros e acertos do filme, pois é o que os assinantes da Netflix irão experimentar. A primeira opção é entre duas marcas de flocos de milho, o que sinceramente, parece até uma piada, mas essa primeira opção serve pra apresentar ao espectador como funciona o mecanismo do filme interativo, sem ter grandes repercussões no resto da história.

Depois você precisa escolher o que vai ouvir no velho walkman com fones de ouvido laranja no ônibus de dois andares londrino, entre Hold me Now dos Thompson Twins ou uma compilação de música, que acaba tocando Here Comes The Rain Again dos Eurythmics, duas ótimas escolhas por sinal.

Um detalhe interessante é que mesmo que algumas das suas decisões mais singelas como essas não tenham uma influência direta e perceptível na trama em si, elas são repercutidas na trilha sonora e em detalhes visuais, o que é um belo toque.

Não se engane, pois nem todas as escolhas serão tão simples, algumas têm consequências graves. Ao longo da trama, existem alguns caminhos que você pode fazer e que irão impactar diretamente no final da história, alguns dos quais irão reduzir o tempo de exibição para o mínimo possível, aí como já dizia a velha música do Raul Seixas: tente outra vez.

Esse filme/game pode ter sido um pesadelo de logística pra ser produzido, e com suas mais de 5 horas gravadas, ter tido o dobro do custo e o dobro do tempo de filmagem de um episódio comum de Black Mirror, o que importa pra Netflix é que muitas pessoas vão levar muito tempo consumindo esse conteúdo, voltando para tentar um final diferente, no qual quem sabe não tenham que sacrificar um personagem que gostaram.

O próprio jogo te dá a opção de voltar algumas casas e tentar novamente, caso você tenha entrado em um dos becos sem saída da história. Existem certas decisões que você simplesmente não pode tomar, o que é meio frustrante, mas como estamos falando de Black Mirror, nós podemos estar sendo controlados tanto quanto controlamos Stefan.

Apesar do discurso inflamado e repleto de teorias da conspiração do personagem Colin, o objetivo da Netflix com Bandersnatch não é controlar o usuário pra fazê-lo cometer atrocidades, e sim deixá-lo passar horas e horas de suas vidas parados na frente da TV explorando um único conteúdo. Nada pode ser mais Black Mirror do que isso, se me permitem usar esse clichê já tão batido.

Quem estiver esperando um final feliz, no qual tudo dá certo para o perturbado protagonista e os outros personagens da trama, está definitivamente na série errada. Quando o espectador/jogador opta por salvar alguns personagens, acaba colocando em risco ou comprometendo totalmente o sucesso do seu jogo, que pra mim pelo menos era o maior objetivo.

Como Bandersnatch é o primeiro teste deste tipo de formato para adultos, e o filme/game é divertido em vários momentos, acho que podemos dar um desconto, assim se você está na dúvida, recomendo que assista, só não precisa perder muito tempo com isso.

Poster de Black Mirror: Bandersnatch

Alerta de spoilers sobre alguns dos finais e detalhes do roteiro nos três próximos parágrafos!

Quando você chega no final de Bandersnatch, você terá alguns caminhos diferentes, que impactam no destino e na aceitação do jogo. Existem caminhos mais místico com o personagem Pax, o Deus-Leão do livro, e outros que se movem pro lado da metalinguagem, incluindo uma em que você acaba tendo que explicar para Stefan o que é a Netflix, e como você está controlando cada uma das suas decisões. Esse final leva até um duelo com a psiquiatra e o pai de Stefan que é bem divertido, apesar de sem sentido.

Cena de Black Mirror: Bandersnatch

Uma opção mais interessante é escolher o símbolo do episódio White Bear, no qual o mundo passa a ser controlado por um sinal transmitido e que no caso representa cada um de nós, o usuário por trás do controle do jogo da Netflix. Também existe a opção de resgatar o coelho da infância e morrer junto com a mãe em um acidente de trem, o que também mata Stefan no presente (olha a bizarrice).

Cena de Black Mirror: Bandersnatch

O melhor final mesmo pra mim é que mostra que tudo não passa de uma conspiração do governo, e que toda a vida de Stefan foi encenada, como naquela velha piada do Casseta e Planeta, ou em O Show de Truman, aquele velho filme de Peter Weir com Jim Carrey. Também adorei o detalhe de vermos Pearl Ritman (a filha de Colin) desenvolvendo uma nova versão para Bandersnatch, possivelmente para a Netflix.

No final das contas, acho que Black Mirror: Bandersnatch é uma boa diversão, mas mesmo reconhecendo a complexidade de tudo que foi feito e atingido na produção, acredito que a ferramenta da interação poderia ter sido melhor explorada, e sinceramente esperava um pouco mais de Charlie Brooker no roteiro.

Como jogo interativo, até funciona, como filme, está bem longe disso. Se Charlie Brooker investir mais no formato, apesar de toda a trabalheira envolvida, acredito que a gente possa ter melhores frutos no futuro, e só por isto, Bandersnatch já teria sido válido.

E os easter eggs? Em se tratando de Charlie Brooker, eles não poderiam faltar, e lá estão, sejam escondidos nos títulos de outros jogos da Tuckersoft, como Metalhead e Nosedive, ou na clínica onde Stephan tem as consultas com a Dra. Haynes se chama San Juniper Medical Practice, uma referência ao episódio San Junipero.

Tudo que posso oferecer nessa resenha é a minha opinião pessoal, assim como em qualquer outra das que eu já escrevi aqui no MB, então fique à vontade para discordar, é só não me xingar nos comentários que tá tudo certo.

É claro que Black Mirror é uma série (franquia, preciso me acostumar com isso) controversa, que mexe diretamente com a emoção das pessoas, inclusive a minha, então posso também estar redondamente errado. Você decide.

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