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Elon Musk, Tesla e um exemplo didático de jornalismo irresponsável e sensacionalista

1 ano atrás

Escrever artigos sobre ciência e faturar milhões de views é simples, não tem segredo. Infelizmente é algo que muita gente faz, e sobra para sites como o MeioBit lidar com as consequências disso. Este artigo é meio que um desabafo sobre as dificuldades de quem não quer escrever artigos simples e faturar milhões de views.

A verdade é a gente quer sim, milhões de views, mas não quer pagar o preço. A divulgação científica na grande mídia sempre foi... errática e a Internet só piorou isso. Antigamente a Cura do Câncer só era descoberta uma vez por semana, e divulgada pela Academia de Ciências do Fantástico. Hoje acontece repetidas vezes em diversos veículos.

O desespero pelo clique faz com que todo título seja exagerado, alarmista ou apenas fora da realidade. E depois que o clique é conseguido, o conteúdo não importa. O visitante já cumpriu sua função, não precisamos mais dele.

Esse visitante, por sua vez, tem uma imensa parcela de culpa, pois os métodos caça-cliques funcionam. Todo mundo gosta de estar certo, então uma manchete "Você é gordo porque come muito" causa rejeição, já uma sobre "As terríveis gorduras trans que estão matando todo mundo" ganha cliques.

Em tecnologia o Ludismo nunca saiu de moda, as pessoas usam iPhone GPS internet streaming microchips para compartilhar notícias de como a tecnologia é terrível e está causando males indescritíveis.

A tecnologia isola as pessoas, antigamente não tinha isso de cada um no se canto olhando o celular...

Hoje a discussão é se videogames estimulam violência (spoiler: não), mas antigamente as manchetes apontavam os RPGs como grandes culpados da destruição da mente dos jovens, videogame no máximo estragava a televisão. Antes ainda graças a canalhas como Fredric Wertham o alvo eram os gibis. Quadrinhos eram a porta de entrada pras drogas, pras gangues, pra sodomia.

A mídia adora publicar esse tipo de matéria e as pessoas adoram ler. O jornalista tem que escolher entre ser ético e não dar voz a bobagens alarmistas, ou publicar de forma sensacionalista e garantir as visualizações. A segunda opção sempre vence.

Uma matéria clássica alertava "iPods estão deixando as crianças surdas". Uma lida no texto e a referência era uma pesquisa onde avaliaram perdas auditivas em todo mundo que ouvia música muito alta com headphones. Só que música alta é genérico, ao identificar o iPod o jornalista cria um inimigo tangível, é a empresa malvada que quer surdificar as crianças e MEU DEUS MEU FILHO TEM UM iPOD EU TENHO QUE LER ISSO!

Viram como é fácil?

Uma prova de como é fácil produzir esse tipo de "conteúdo" é a publicação de previsões de fim de mundo. Desde que o mundo foi criado em 21 de Outubro de 4004 AC, às 9AM alguém vem prevendo seu fim. Uma vez resolvi pesquisar por profecias, e literalmente todo ano há vários profetas do apocalipse dizendo que "agora vai", e quem lembra daquela bobagem de Nostradamus "Aos 1000 chegarás de 2000 não passarás"?

Mesmo assim a imprensa A DO RA essas profecias.

Alguns dizem que é uma bobagem inofensiva como terraplanismo, que só demonstra a imbecilidade ou malícia de quem a defende, mas esses profetas do apocalipse acabam influenciando pessoas, e por trás de todo profecia há bastante dinheiro trocado, mesmo de gente teoricamente inteligente. Uma amiga de minha mãe se mudou correndo pro interior de SP, o marido dela era alto executivo de um banco multinacional e largou o emprego depois que o guru dele profetizou que um tsunami destruiria o Rio de Janeiro. No ano 2000.

Em medicina é pior ainda.

Avanços médicos são lentos, graduais e planejados. Ninguém sai fazendo experimentos com humanos, isso hoje em dia é fora de moda, ninguém quer voltar aos tempos da Unidade 731. Toda droga revolucionária passou dez anos em laboratório sendo testada em simulações, depois in vitro, ratos, macacos e só então passou para testes em humanos, e acredite, isso é caro, muito caro.

E ninguém quer ler a manchete "Nova droga apresenta desempenho 15% melhor em relação às anteriores, dadas condições específicas do desenvolvimento do tumor", as pessoas querem abrir o navegador e dar de cara com "Suco de Graviola Cura Câncer".

Irresistível, não? Claro que a comunidade científica como um todo está arrancando os cabelos com essa irresponsabilidade, que parece muito com uma estratégia para arranjar investidores, mas todo mundo clica, e cada vez que alguém aponta que não é bem assim, é atacado com acusações de fazer parte do cartel da indústria farmacêutica, que não quer curar câncer pois perderiam dinheiro com as drogas usadas hoje em dia.

E não adianta explicar que "câncer" é um termo guarda-chuva, reunindo centenas (quiçá milhares) de doenças diferentes, com causas diferentes e tratamentos diferentes. Há câncer causado por radiação, por excesso de hormônios, pelo Sol e até por vírus e bactérias. "curar câncer" é tão genérico quanto "conserto computador".

As chamadas, claro, não ligam pra isso, nem para o detalhe de que a maioria das drogas mágicas só funcionou in vitro, ou seja, com células em uma placa de petri. É fundamentalmente diferente experimentar com uma cultura de células e com um organismo completo. Como bem lembra o xkcd, uma droga milagrosa matar células cancerosas in vitro não é vantagem, um 38 também mata. O segredo, que não dá cliques, é que a droga tem que matar a célula cancerosa sem matar as normais junto e isso é danado de difícil.

E a Tesla?

A Velha Mídia odeia Elon Musk, ele não anuncia nem puxa saco de jornalistas, e interage direto com gente desqualificada de moral duvidosa, como blogueiros. Por isso tudo que acontece com as empresas dele é visto com maus olhos, e dada a desconfiança do público sobre tudo que é novo, é um prato cheio.

Você certamente se lembra de matérias como esta, quando um tesla sofreu um acidente fatal:

A totalidade das pessoas ignora o fato de que se algo chegou a virar manchete, é porque não é comum, ninguém noticia "kombi explode e mata 4". É o básico do jornalismo, cachorro morde homem não é notícia, homem morde cachorro é.

Note também a sugestão de que o piloto automático foi o responsável, uma constante nesse tipo de matéria. Já os fatos, bem, os fatos não interessam, mas vamos a eles:

Os carros da Tesla têm uma média de acidentes com motoristas ao volante de 1 a cada 2.54 milhões de quilômetros trafegados. Carros comuns têm uma média de acidentes de 1 a cada 701 mil Km trafegados.

"Ah mas e o piloto automático, aquele software perigoso e mal-projetado?"

Calma Creuza. Teslas no piloto automático sofrem um acidente a cada 4.79 milhões de quilômetros trafegados. Ou seja, um Tesla no automático é 6.7x mais seguro que um carro comum com motorista e mesmo com humanos na equação um Tesla dirigido manualmente tem tantos sistemas de segurança que é 4x mais seguro que um carro comum. Mas isso não dá manchete.

E a SpaceX?

AH, a SpaceX. Nada deixou a velha mídia mais irritada do que o lançamento do Tesla, no vôo de teste do Falcon Heavy. Espaço é coisa séria, espaço são engravatados da NASA ou do Pentágono, sisudos e compenetrados. A SpaceX brinca, a SpaceX transmite seus lançamentos do refeitório. A SpaceX ousou mandar um carro para o espaço como simulador de massa, ao invés de mandar um bloco de concreto, como todos os outros. O resultado?

O artigo ultrapassa as raias do ridículo. Acusam a SpaceX de poluição ambiental com o lançamento, afinal nenhum outro foguete produz fumaça e CO2, imagino. A ULA usa foguetes elétricos, com certeza. Só que não fica só nisso, questionam o lançamento em si, sem entender que sem um lançamento de teste NINGUÉM pagará pra mandar uma carga em um foguete.

O jornaleiro piora ao criticar o lançamento do Tesla como simulador de massa, dizendo que o carro vai se tornar poluição espacial. Funciona assim: Se só existisse o Tesla do Musk e MAIS NADA no volume da órbita da Terra, teríamos um carro de 3m de comprimento em algum lugar em uma esfera com 149 milhões de Km de raio e um volume de 14.024.400.000.000.000.000.000.000.000.000 km2. Você acha MESMO que um carro nesse espaço aí faz diferença? E cadê a preocupação com as dezenas de outros objetos que colocamos em órbita solar, incluindo o Snoopy, o Módulo de Subida da Apollo X, orbitando para sempre o Sol, carregado de sacos cheios de cocô de astronauta?

Outro artigo, que nem merece ser linkado questionava o impacto ambiental das carenagens ejetadas durante os lançamentos do Falcon 9. Você sabe, o ÚNICO foguete que retorna pra base e é reutilizado, mas o jornaleiro se preocupava com os riscos do alumínio e da fibra de carbono ao meio-ambiente, ignorante que TODOS os outros foguetes lançados por TODOS os países com programa espacial (você não, Brasil) são jogados no mar ou em terra, com ZERO reaproveitamento. Mas não, o problema é a SpaceX.

Agora, a melhor de todas:

 

Um dos irresponsáveis diz que o Tesla de Musk pode colidir com a Terra e isso é uma catástrofe em potencial criada pelo Homem. O outro jornaleiro diz que o Tesla VAI se chocar com a Terra. Vamos à pior das hipóteses, imaginemos que isso é verdade. O Tesla Roadster normal pesa 1,3 toneladas. Vamos esquecer que o da SpaceX foi sem motor, baterias  e um monte de outras peças. Qual a frequência com que um asteróide de 1,3 toneladas entra na atmosfera terrestre?

Bem, pra começar o Meteorito de Chelyabinsk, que deslumbrou e assustou o mundo em 2013 tinha 20 metros de diâmetro e pesava 20 mil toneladas. Mesmo assim explodiu na atmosfera e só chegou no chão na forma de fragmentos. Estamos falando de um carro, algo muito menos denso e muito mais frágil. Só isso já seria motivo para encerrar o artigo aqui.

Em média um meteoro do tamanho de um carro entra na atmosfera uma vez por ano, só que um meteoro desses pesa umas 60 toneladas (ferra é um negócio denso). O Tesla é 60 vezes mais leve. E convenhamos, toda hora temos objetos feitos pelo Homem caindo sem controle da alta atmosfera, tanto podem ser satélites em reentrada como estágios de foguetes antiquados que não pousam. Você acha mesmo que um tesla só na carcaça causaria mais dano do que os quatro motores auxiliares de um Soyuz, que costumam cair no Cazaquistão?

E temos a China, que não está nem aí pra Hora do Brasil e ninguém mandou construírem cidades no caminho dos foguetes, e ah sim aquela nuvem de propelentes em chamas é tão tóxica quanto parece.

Mas não, o problema é o Tesla, mas calma que piora. Lendo o texto descobrimos que as chamadas alarmistas foram baseadas em uma pesquisa séria, de verdade, que resultou em um paper de título The random walk of cars and their collision probabilities withplanets, escrito por Hanno Rein1, Daniel Tamayo e David Vokrouhlick.

Eles resolveram calcular as futuras órbitas do Tesla usando simulação de N-Corpos, um negócio simples de explicar e extremamente custoso em termos de processamento pra executar.

Funciona assim: É trivial calcular a órbita de um satélite em torno da Terra, mas você notará que ele não se comporta exatamente como deveria. Ah, faltou levar em conta o efeito gravitacional da Lua. Só que mesmo assim falta algo. Ah, o efeito gravitacional do Sol. Mas o efeito gravitacional da Lua no satélite também não está correto, ela está sendo afetada pelo Sol e pela Terra. Em resumo, uma simulação orbital de N-Corpos calcula o efeito de todos os corpos sobre todo mundo, em um surubão cósmico-matemático que gera um monte de incertezas.

Pois bem: Os caras calcularam as órbitas e as probabilidades de colisão. Aqui o gráfico de distâncias mínimas em que o Tesla passará da Terra, nos próximos mil anos.

Agora o melhor: Lembra da manchete alarmista que o Tesla VAI colidir com a Terra? A probabilidade que eles chegaram para uma colisão é de 22%. Também há 12% do carro colidir com Vênus, e 12% de colidir com o Sol. Agora o pulo do gato: Essas possibilidades são num período e 15 milhões de anos.

Isso mesmo, o jornaleiro maldito pegou um cálculo que envolve um período de tempo em que até o Half-Life 3 ficará quase pronto, ignorou e só postou a colisão. Ah ele omitiu a probabilidade também.

É como seu médico dizer "você vai morrer" omitindo a parte "em uns 50 anos".

De novo: 15. Milhões. De. Anos.

Esse tipo de jornalismo sensacionalista e irresponsável é frustrante pra quem tenta levar fatos, explicar coisas sem hype, mesmo que muitas vezes tenha que dizer coisas que o leitor não quer ouvir. É chato ser sempre o chato que diz que não teremos carros voadores, que a Fosfoetanolamina não cura câncer, que a Siri não é uma Inteligência Artificial de verdade e talvez nunca tenhamos uma.

Só que mais chato ainda é mentir sobre essas coisas todas e tentar dormir depois. Parafraseando o clássico Ninotchka, temos menos, porém melhores leitores, e dormimos o sono dos justos sabendo que nunca promoveremos "debates" sobre vacinas e autismo, ou terra plana, ou qualquer coisa que a Super considere digna de capa.

 

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