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Marinha lança pela segunda vez com sucesso o MANSUP

2 anos atrás

Em 4 de Maio de 1982 um P2 Neptune da Marinha Argentina avistou três alvos inimigos, identificando-os como vasos de guerra. Acionados dois caças Super Étendard do continente, eles decolaram voando rente ao oceano até as coordenadas passadas pelo Neptune. Subiram então a 160 metros, identificaram os alvos e dispararam cada um um míssil anti-navio AM39 Exocet, dois dos cinco que a Argentina tinha. O alvo, o Destróier britânico HMS Sheffield.

O Exocet era muito mais que uma calcinha. Projetado no final dos anos 1960, ele entrou em serviço em 1973. Com 670Kh, 4,7 metros de comprimento e uma velocidade de 1134km/h ele é capaz de levar uma ogiva de 165Kg de alto explosivo a um alvo a 180Km de distância nas versões mais novas e 70Km nas antigas.

Antes do disparo os dois caças argentinos foram detectados pelo HMS Glasgow, que alertou o resto da flotilha, mas o que se seguiu foi uma comédia de erros e incompetência. O oficial de defesa aérea não estava em seu posto tinha ido tomar um café, seu substituto por sua vez havia ido ao banheiro.

A principal preocupação do HMS Sheffield eram submarinos, eles já haviam recebido alertas de ataque aéreo nos dias anteriores e foram alarmes falsos. O link de dados do HMS Glasgow não transmitiu as imagens de radar dos caças inimigos, e o radar do Sheffield não captou nada.

O tal oficial que estava no cafezinho estava calmo pois ele tinha certeza que os Super Étendard não tinham alcance para chegar até o Sheffield, mas ele não sabia que os argentinos tinham feito reabastecimento aéreo com um Hércules.

O navio não estava em prontidão, e mesmo com o aviso do Glasgow ninguém acionou postos de combate. Na verdade o Capitão nem foi informado. Quando os oficiais viram os mísseis vindo ficaram mesmerizados, não fizeram nada.

Um dos mísseis errou. O outro acertou o Sheffield 2,4 metros acima da linha d'água, exatamente na cozinha de bordo, e como o Steven Seagal não estava lá, não teve oposição. A detonação matou imediatamente oito marinheiros e um incêndio encheu o navio de fumaça.

Mesmo que tivessem acionado contramedidas eletrônicas, nada aconteceria pois o Sheffield não estava equipada com elas. Havia outras tecnologias disponíveis que poderiam ter detido o Exocet, mas nenhuma foi utilizada. Para disfarçar o show de incompetência a Marinha Real não levou nenhum dos oficiais à Corte Marcial e tratou o Exocet como uma arma máquina e sem possibilidade de defesa.

Depois de dois dias pegando fogo a situação foi controlada e o Sheffield foi rebocado, mas ondas agitadas acabaram destruindo os reparos de emergência, ele começou a fazer água e foi decidido que o melhor era deixar o bicho afundar. Foi o primeiro navio de guerra perdido pela Marinha Britânica desde a 2a Guerra Mundial.

De tudo isso a única parte boa é a história de que os marinheiros ingleses esperavam o resgate nos botes salva-vidas cantando "Olhe Sempre Pro Lado Bom da Vida", do Monty Python.

Para o Exocet foi uma propaganda fantástica, o míssil virou fenômeno cultural, e quem não tinha comprou, quem já tinha ficou feliz de ter feito a escolha certa. O Brasil já tinha.

Aí surgiu um problema: Assim como laticínios, presunto e casamentos, motores de mísseis possuem prazo de validade. Depois de alguns anos mesmo armazenados em condições ideais o combustível começa a ressecar, apresentar rachaduras e se torna não-confiável.

Normalmente você liga pro fabricante, manda um container cheio de dinheiro e recebe um lote de motores novos, mas a MBDA, o consórcio europeu que fabricava o Exocet descontinuou os modelos mais antigos, e os mísseis brasileiros se tornaram uma espécie de Samsung Note 7 com conector clássico de iPod: Um negócio que faz cabum mas você não tem como energizar.

Os modelos Block III do Exocet trocaram o motor a foguete por um turbofan, transformando o bicho em praticamente um míssil de cruzeiro, dobrando o alcance. Ótimo mas com tanto mensalão, trem da alegria e esquemas de corrupção variados, sobra pouca grana pra gente comprar mísseis novos do zero, então a Marinha resolveu ousar: Convidou empresas para pesquisar, fazer engenharia reversa e desenvolver um motor nacional para o Exocet.

A Avibrás ficou encarregada de desenvolver o novo motor, mas não foi nada por baixo dos panos, a própria MDBA prestou consultoria e certificação para o novo motor, que poderia ser uma alternativa barata que manteria muitos clientes satisfeitos.

O primeiro teste de bancada foi em 2011, em 2014 foi lançado o primeiro Exocet equipado com o motor nacional, mas a Marinha queria mais. A MECTRON (hoje SIATT) desenvolveu um módulo de telemetria que foi incorporado na versão modificada do Exocet.

Logo a Marinha ficou mais ambiciosa ainda, e chutaram o pau da barraca. Temos uma penca de engenheiros aeroespaciais de altíssimo nível, dinheiro e vontade política. Vamos fazer logo o míssil inteiro, ao invés de ficar tunando Exocet dos outros.

NOTA: Para uma versão completa e detalhada da saga do Exocet brazuca, leia esta excelente série no Poder Naval.

Estava criado o projeto do MANSUP, o Míssil Antinavio Nacional de Superfície, aqui com um Nick Ellis para escala.

Em um país que teve 500 anos pra fazer a réplica da caravela do Descobrimento e conseguiu atrasar, em um país onde desde 2003 nosso programa espacial não sai do chão, com a desculpa de que não há mão de obra, afinal NENHUMA universidade formou mais engenheiros aeroespaciais nos últimos 16 anos e só tínhamos aqueles 20 do acidente, nesse país onde nada dá certo a Marinha e um grupo de empresas, com investimentos ínfimos (o projeto custou US$75 milhões) conseguimos construir o MANSUP em tempo recorde.

O contrato foi assinado em Dezembro de 2011, em Novembro de 2018 o primeiro protótipo foi lançado com sucesso. Nem Von Braun conseguiu isso.

Em verdade era pra ter sido mais rápido ainda, ele deveria entrar em operação em 2017, mas os últimos anos não foram exatamente tranquilos na política e economia brasileiras, tivemos casos de corrupção, empresas mal das pernas e até mudanças onde a empresa fechou numa sexta e na segunda 90% dos funcionários estavam empregados em uma nova empresa fazendo o mesmo serviço.

Agora, 20 de Março esse trabalho todo mais uma vez mostrou resultado. Depois de vários ajustes finos e avaliações o segundo protótipo do MANSUP foi lançado, de novo com sucesso.

O lançamento foi feito em uma área de treinamento entre Rio de Janeiro e Cabo Frio, o tubo lançador foi instalado na Fragata Independência, que estava acompanhada do PHM Atlântico, o Navio de Desembarque de Carros de Combate Almirante Saboia e do Navio Patrulha Oceânico Amazonas.

Muitos dados suculentos foram coletados, agora é avaliar tudinho e decidir se precisam de mais alguns lançamentos de teste ou se já dá pra considerar o bicho operacional, e fazer as encomendas.

Aqui o vídeo do lançamento:

PS: Não, a Marinha raramente mostra o resultado, o bicho acertando o alvo, é o tipo de informação que preferencialmente a gente deixa pro inimigo descobrir da pior forma.

Fonte: Marinha do Brasil

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