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Guerra aos Espiões Gays: Governo dos EUA aponta Grindr como risco à Segurança Nacional

2 anos e meio atrás

O Grindr (me contaram) é a mais popular app de pegação para o público gay, uma ferramenta de alta rotatividade que agiliza mais ainda um estilo de vida (como diziam antigamente) que é pá-pum, muito mais ágil que todo o ritual de corte do lento mundo hetero, até comparando ao Tinder. Só que mesmo hoje em dia ser gay não é essa Coca-Cola toda, e com o Grindr na mão de uma empresa chinesa, isso preocupou bastante o Governo dos EUA.

Criado em 2009, o Grindr hoje atua em 192 países, com dezenas de milhões de usuários, tanto em iOS quanto em Android. Mesmo atuando em um nicho, o aplicativo conseguiu um imenso espaço e prestígio, fazendo campanhas sociais, ganhando prêmios e conscientizando seus usuários que dá pra manter um ritmo frenético de encontros sexuais e ainda assim praticar sexo seguro.

Atraindo investidores o Grindr acabou enchendo os olhos da Beijing Kunlun Tech, uma empresa de games da China, país onde ironicamente o Grindr foi banido, mas isso não a impediu de comprar 60% do controle acionário do aplicativo em 2016, por US93 milhões.

Satisfeitos com o negócio, os executivos da Kunlun em 2018 abocanharam o resto da empresa por US$152 milhões, mas agora que estavam preparando o IPO, a abertura do capital da empresa na Bolsa da Valores, um tamanco foi jogado nas engrenagens pelo CFIUS, o Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos. O órgão é responsável por avaliar o risco para a segurança nacional, e um grande alerta vermelho soou quando a Kunlun não reportou as duas operações de compra do Grindr.

Outro ponto importante é a vulnerabilidade dos dados dos usuários, que informam um monte de informações sigilosas, de nome real a tamanho do bilau, e o Grindr tem um histórico de falhas de segurança.

Em 2012 um desocupado descobriu que o Grindr usava um hash simples para passar o UserID entre as páginas, então com um script ele gerou um monte de hashes aleatórias, quando batia uma válida, copiava os dados. 100 mil usuários foram expostos, o que não é muito divertido quando isso significa tornar públicas suas fotos, e dados como se você é HIV+.

Também não ajuda o Grindr compartilhar essas informações voluntariamente com parceiros comerciais.

Outro problema em potencial é que como o Grindr lista a distância entre os outros usuários e você, é possível coordenar outros usuários cuja localização você saiba com precisão e identificar o ponto exato onde está um usuário específico. Sim, o Grindr pode se tornar um Gaydar.

Esse "uso indevido" é na prática bem prejudicial aos usuários, países onde gays não são bem-vindos monitoram o Grindr e outras aplicações para identificar comportamento "pervertido", o Egito constantemente localiza e prende militantes LGBT através das apps, em alguns casos fazendo-os passar até por "exames anais".

A preocupação do Governo dos EUA é que esses dados sejam enviados diretamente para Beijing, e todos os funcionários do governo, terceirizados e trabalhadores de empresas que prestem serviços estratégicos e estejam no armário sejam chantageados em troca de informação.

Isso DEFINITIVAMENTE não é paranóia, que o diga este sujeito, John Vassall.

Ele era funcionário do Adido Naval da Embaixada Britânica em Moscou, no agradável ano de 1952, mas John não se adaptou bem ao novo emprego. Segundo ele as pessoas eram esnobes, metidas e não se misturavam com funcionários de baixo nível (no bom sentido) como ele.

Pra piorar, John era gay. Não que haja nada de errado com isso, só era ilegal, tanto na Inglaterra quanto na União Soviética. (se você acredita na groselha de que os comunistas eram progressistas e apoiavam inclusão e diversidade não leia a frase anterior)

A KGB tinha colocado escutas até dentro dos armários da Embaixada, e rapidamente identificaram essa peculiaridade da vida de John Vassall, e armaram um plano, usando as técnicas da Escola de Gazelas (a versão gay da Escola de Pardais, que treinava espiãs para seduzir alvos estrangeiros).

Um tal de Mikhailsky, um polonês que também trabalhava na Embaixada deu a entender que também era entendido, e aos poucos foi introduzido Vassall na Cena Gay Underground de Moscou.

GIS para Moscow Underground Gay Scene

Em 1954, achando que estava entre amigos ele foi numa festinha de embalo daquelas onde ninguém é de ninguém, e vale tudo, até o que o Tim Maia normalmente proíbe. Sem que John percebesse, ele foi contaminado por uma substância química soviética altamente perigosa, que afetava sua percepção, diminuía senso crítico e inibição. Sim, estou falando de Vodca.

Depois de algum tempo e sabe-se lá quantas doses John estava amando. A mando do capeta, e não reparou que os rapazes estavam estranhamente dadivosos. Ele acabou se embolando com vários homens, tudo devidamente registrado em fotos altamente comprometedoras.

A festinha foi organizada pela KGB, tudo para pegar Vassall com as calças arriadas, literal e metaforicamente. Dali em diante foi caso simples de chantageá-lo. Ou trabalha pros soviéticos como agente infiltrado ou mandam as fotos comprometedoras e comprotiradoras para todos os amigos e colegas que fingem não saber que Vassall era gay. Ah, e pra imprensa, pros superiores, pra Rainha, pro Papa e pro Assange.

Vassall aceitou e forneceu informações até 1956, quando voltou para Londres, onde foi contactado por um agente local e voltou a fotografar documentos secretos.

Tecnicamente ele era um auxiliar administrativo sem acesso a material ultra-secreto, mas todo mundo que já trabalhou em escritório sabe como a banda toca, e sem muito esforço ele sozinho foi responsável por boa parte do avanço tecnológico da Marinha Russa.

De onde vocês tiraram que a sociedade inglesa dos anos 60 era homofóbica?Que calúnia!

Alocado na Divisão de Inteligência Naval, Vassall forneceu aos russos documentos sobre radares, torpedos, plantas de navios, técnicas de contramedidas...

A casa só caiu em 1961, quando dois desertores soviéticos apontaram Vassall como um agente, mesmo assim ele só foi preso em 1962, quando não só era crime ser gay na Inglaterra, mas ainda mais ilegal era ser espião para uma potência estrangeira. Ele foi condenado a 18 anos de prisão, dos quais cumpriu dez.

Depois disso ele mudou de nome e viveu uma vida tranquila longe dos holofotes, vindo a morrer em 1996, aos 72 anos.

O caso de Vassall nem de longe é único, e nem de longe esse tipo de situação é restrita a gays, o mundo da espionagem adora rebuscar a roupa suja de todo mundo, há inúmeros casos de chantagem envolvendo amantes, filhos ilegítimos e tudo que seja socialmente mal-visto. Hoje em dia o foco nem cai tanto na parte gay, ao menos no Ocidente, é algo que não dá mais manchete nem é visto como estigma social extremo, mas nem sempre foi assim.

Na Inglaterra do Século XVIII comportamento homossexual não era visto com bons olhos, sodomia era crime. Não que isso impedisse a prática, e o mercado de garotos de programa era dominado por soldados, que na falta de guerras faziam michê para completar o orçamento. Só que eles perceberam que seus clientes eram homens assustados, com medo de serem desmascarados como sodomitas, então tiveram uma idéia: Que tal ganhar duas vezes?

Depois que conquistavam a confiança dos clientes alguns garotos de programa descobriam seus nomes, endereços e locais de trabalho. Com essas informações, ameaçavam denunciar o sujeito para as autoridades, caso não pagassem uma boa grana.

A situação saiu de controle a ponto de alguns soldados abordarem desconhecidos na rua ameaçando denunciá-los caso não dessem algum dinheiro ali na hora.

Mesmo no Século XX a situação não era muito melhor. Comportamento homossexual era alvo de todas as agências de espionagem, e por causa disso criou-se uma cultura de que gays não eram confiáveis, a ponto de na Inglaterra a prática de atos homossexuais ter sido descriminalizada em 1967, mas somente em 1991 as agências de espionagem -O MI5, MI6 e o GCHQ- aboliram uma regra que bania gays e lésbicas de servirem em seus quadros.

Nos Estados Unidos a coisa foi pior ainda. Na mesma época em que o imbecil do Joseph McCarthy destruía vidas e reputações com sua paranóia do Perigo Vermelho, vendo comunistas em todos os cantos, surgiu o Perigo Lavanda, uma paranóia semelhante onde a sociedade que descriminava e perseguia gays cismou que eles não seriam confiáveis pois poderiam ser vítimas de chantagem.

McCarthy e outros associavam o comportamento homossexual ao comunismo, e colocavam tudo no balaio dos distúrbios mentais. O problema é que a conta não fecha, tem gay de direita, hétero comunista e travesti capitalista, orientação sexual não tem nada a ver com orientação política.

Durante o Governo Truman 425 funcionários do governo foram demitidos pelo crime de serem gays, a maioria deles caçados por J. Edgar Hoover, lendário diretor do FBI e notória crossdresser, mas que mantinha arquivos detalhados de todos os seus inimigos e aliados políticos. Ele manteve um verdadeiro reino no FBI, chantageando outros gays, mostrando que essa senhora não tinha nenhuma consciência de classe.

Em 1953 o pesadelo virou filme de terror. Eisenhower assinou a Ordem Executiva 10450, que bania do Serviço Público pessoas que apresentassem...

"Qualquer conduta criminosa, infame, desonesta, imoral ou notoriamente vergonhosa, uso habitual de intoxicantes em excesso, dependência de drogas, perversão sexual."

Perversão Sexual é um termo em código pra tudo que os políticos fazem mas fingem que é errado. Foi um ataque direto aos gays, e um ataque pesado.

Alguns achavam que a Ordem Executiva era válida por causa do perigo de chantagem, outros como o Senador Kenneth Wherry iam além dizendo que não dava pra separar homossexuais de subversivos. Comitês do Senado foram criados para investigar a presença de homossexuais no Governo, e no final mais de 5000 pessoas perderam seus empregos, passando por humilhação pública e em muitos casos sendo expostos para suas famílias, que desconheciam essa parte de suas vidas.

Basicamente o raciocínio era: "Eu te trato mal então vou te demitir pois se descobrirem seu segredo você vai me trair com medo do que acontecerá se eu descobrir", quando a resposta mais lógica era o inalcançável e utópico raciocínio de que gays são gente como qualquer um, o que eles fazem no horário de folga é problema deles e se ninguém der bola, todo o poder da chantagem desaparece.

O Começo do Fim

A Ordem Executiva 10450 foi contestada na Justiça com sucesso pela primeira vez em 1973, em 1975 começaram a relaxar na perseguição e candidatos gays a vagas no serviço público voltaram a ser aceitos, e com o tempo a OE 10450 virou aquela clássica peça de legislação brasileira, a Lei que não pega, mas ela só foi oficialmente tornada obsoleta em 1995 pela Ordem Executiva 12968, assinada por Bill Clinton, que diz:

"O governo dos Estados Unidos não discrimina com base em raça, cor, religião, sexo, nacionalidade, deficiência ou orientação sexual na concessão de acesso a informações classificadas."

E se você acha que foi tarde demais, a Ordem Executiva 10450 só foi finalmente anulada pela Ordem Executiva 13764, assinada em 2017 por Barack Obama.

Óbvio que o mundo civilizado (você não, Brunei) está bem melhor hoje para a população LGBT, e é vergonhoso lembrar de casos como a Sally Ride, a primeira americana a ir ao espaço.

Física, engenheira, cientista espacial, pioneira, mas para a mentalidade conservadora da NASA e -sejamos honestos- de boa parte da sociedade seria inaceitável uma léééééésbica como primeira americana no espaço, então a NASA arrumou um casamento de fachada com outro astronauta, Steve Hawley, que durou de 1982 a 1987. Só depois que Sally morreu de câncer no pâncreas aos 61 anos, em 2012 foi revelado que ela manteve um relacionamento por 27 anos com a igualmente talentosa Tam O'Shaughnessy.

No final o caso de Vassall, do Grindr e tantos outros é a sociedade sendo ameaçada por um perigo imaginário que ela mesma criou. Banir o Grindr, expulsar todos os grupos indesejáveis dos setores estratégicos, não adianta. A melhor forma de se tornar imune a chantagens é anular o efeito negativo da chantagem, e isso é mais fácil em lugares que já deram o primeiro passo.

Complicado mesmo é no mundo árabe, que o digam os gays palestinos que estão sendo chantageados pra trabalhar como informantes para Israel.

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