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SpaceX lança primeiros satélites do projeto Starlink. Foram 60, faltam 11.867

1 ano atrás

Neste momento existem mais ou menos 4.987 satélites em órbita da Terra, o número exato não é conhecido pois há lançamentos militares secretos e casos onde não se sabe se dá pra classificar como satélite, tipo a bolsa que a astronauta Heidemarie Stefanyshyn-Piper perdeu em órbita em 2008. O certo é que esse número vai aumentar, e muito. Pelo menos para 11.927.

Qual o motivo disso tudo? Como diz um baiano amigo meu, senta que lá vem história.

Elon Musk, como muito bem colocado por um leitor outro dia, não inventa nada. O dom dele é pegar projetos que vêm sendo empurrados com a barriga por anos, às vezes décadas e os transforma em caso de sucesso. Carros elétricos, por exemplo, não são nenhuma novidade. Eles existiam antes dos veículos com motores de combustão interna.

Infelizmente as cidades cresceram muito rápido, a tecnologia de baterias chumbo-ácido no final do século 19 era uma porcaria e quando ficou muito mais rápido encher um tanque de gasolina em dois minutos do que deixar o carro a noite inteira carregando, os elétricos saíram de moda.

Por décadas eles ficaram relegados a veículos de ecochatos, com autonomia e performance de carrinhos de golfe, nenhum motorista de verdade seria pego mesmo morto dirigindo um carro elétrico, e mesmo os protótipos e super-carros não conseguiram fazer o público mudar de ideia.

Claro, a Mercedes SLS AMG Electric é linda e um avião, mas inviável como carro normal, custando US$ 544 mil e tendo autonomia de só 250 km, isso se você dirigir como um fusca. Acelerando fundo, esses 250 km caem pra uns 50 km.

Outros modelos de outros fabricantes surgiram, mas foi preciso a Tesla criar carros que eram primeiro de tudo carros bons, e só depois elétricos, para o público se interessar.

Foguetes pousando também não são novidade, em 1991 a NASA contratou a McDonnell Douglas para desenvolver o DC-X Delta Clipper, um foguete experimental de pouso vertical. Foram 16 voos, a maioria bem-sucedidos.

Ele não entrou em órbita, o teto dos experimentos foi 3 km, mas demonstrou que foguetes reutilizáveis eram uma possibilidade.

A ideia não foi adiante por um único motivo: o principal cliente das empresas de lançamento são governos, e governos não ligam se algo custa caro. Ninguém iria gastar dinheiro desenvolvendo uma tecnologia que diminuiria o custo de um lançamento, se o principal cliente já estava acostumado a pagar o preço full, e os outros clientes não tinham pra onde correr.

Por décadas o desenvolvimento de foguetes ficou estagnado, os americanos literalmente esqueceram como fazer motores, depois que começaram a comprar motores de mísseis balísticos recondicionados dos russos. Foi preciso a SpaceX aparecer, com um projeto que ia além da ideia de ganhar dinheiro vendendo lançamentos pro governo, pra coisa andar.

O custo baixo do lançamento dos Falcon9 é uma estratégia para criar um mercado, quanto mais gente investindo em espaço melhor, mas também é essencial para os planos de Elon Musk.

StarLink

Outra promessa que foi feita inúmeras vezes antes foi a de constelações de satélites cobrindo o mundo inteiro, provendo links de dados independente de infraestrutura como cabos e antenas terrestres. Na verdade, isso era prometido antes mesmo da internet ser popular, em 1994 a Teledisc apresentou um projeto de 840 satélites, a um custo de US$ 9 bilhões, e atraiu investidores como Bill Gates. Em 1998 eles lançaram um satélite de demonstração, mas o projeto todo desmoronou.

A SkyBridge começou até antes, em 1993, bancada pela Alcatel. A empresa também prometia uma constelação de satélites para prover internet. Não aconteceu.

Vários outros projetos fracassaram em diversas fases de desenvolvimento, o motivo é sempre o mesmo: custa muito, muito caro lançar uma constelação de satélites para prover internet. Ter satélites o suficiente para começar a operar custa uma fortuna e leva anos.

Felizmente Elon Musk tem as duas coisas.

O projeto StarLink é o único onde a empresa mãe detém a parte mais cara, os lançamentos. E mais ainda: com os foguetes reutilizáveis, os custos vão pro chão (relativamente falando).

Custos esses que são a base dos negócios da SpaceX, e todo mundo deve achar que dá muito dinheiro lançar foguetes. Dá, mas as margens são bem pequenas, os satélites estão cada vez menores e mais eficientes, e a quantidade de players no mercado só aumenta.

Elon Musk não vai colonizar Marte com dinheiro dos lançamentos da SpaceX.

As estimativas da empresa é que a receita dos lançamentos chega a US$ 5 bilhões em 2025, é uma quantia apreciável, mas quando a TeleDisc custaria US$ 9 bilhões 25 anos atrás, e a StarLink é estimada em um custo total de US$ 10 bilhões, a conta não fecha.

Exceto que o dinheiro de verdade está em prover internet para literalmente centenas de milhares de clientes corporativos. A projeção da SpaceX para o Starlink é que no mesmo ano de 2025 a receita do serviço alcance US$ 30 bilhões.

Isso mesmo, a SpaceX vai virar um braço menor de uma empresa de internet global bem maior.

Quando começa?

Por enquanto são 62 satélites em órbita. A SpaceX precisa de mais cinco lançamentos, totalizando uns 300 satélites para ter uma cobertura aceitável na região do Canadá e norte dos Estados Unidos. Com 24 lançamentos eles terão satélites suficientes para uma cobertura global e aí o dinheiro começará a entrar.

As previsões são de que até o final do ano eles façam entre dois e seis lançamentos.

O da semana passada foi o terceiro lançamento do mesmo Falcon 9 e ele se comportou admiravelmente bem, levando a carga mais pesada já transportada por um foguete da SpaceX, e pousando na mosca.

Quando o segundo estágio estava seguro em uma órbita de 454 km de altura, os 60 satélites foram soltos, de uma vez, "como um maço de cartas".

Cada um dos satélites pesa 227 kg, tem um único painel solar e orbitará a uma altitude de 550 km. Para chegar lá eles utilizam motores iônicos, com campos elétricos acelerando moléculas de Criptônio.

Normalmente Xenônio é o gás preferido, Criptônio desgasta muito os motores, mas como a vida útil dos satélites é pequena e Criptônio é muito mais barato, a SpaceX preferiu optar por ele.

Ah sim, os satélites também têm câmeras para navegação usando posicionamento de estrelas, e um sistema de detecção de colisão, que evitará a tarefa insana de monitorar 12 mil satélites o tempo todo e fazê-los desviar quando estiverem no caminho de alguma coisa.

Cada satélite só terá alguns minutos de linha de visada sobre uma região, então as antenas precisarão acompanhar continuamente cada um deles, e pular de um para outro, para manter um link constante. Hoje em dia isso é feito com posicionamento eletrônico, sem mover fisicamente a antena. Não dá para ser feito em um celular, mas equipamentos em veículos maiores podem ser instalados, eliminando de vez os lapsos de comunicação em aviões, por exemplo.

A ideia é vender o serviço para provedores locais, empresas e forças armadas, a Força Aérea dos Estados Unidos já investiram US$ 28 milhões no StarLink, para testar o sistema.

E o futuro?

A SpaceX vai faturar uma boa grana com o StarLink, mas isso é apenas o começo. Como quem não quer nada Elon Musk está apostando nos anos vindouros, com um monte de gente investindo pesado na Lua.

Quando a NASA, os chineses e outros começarem a explorar a Lua a sério, terão um problema: comunicações. Por causa do diâmetro bem menor, qualquer coisa a mais de 3 km de distância na Lua está abaixo do horizonte. Comunicações por rádio não funcionarão e como a Lua não tem uma atmosfera para refletir as ondas de rádio, será preciso mandar sinais até a Terra, de onde serão retransmitidos para a Lua.

A alternativa é colocar satélites em órbita, mas você precisa de vários para cobrir todas as latitudes e sempre ter um presente quando outros estiverem no lado oculto.

O que faz mais sentido? Cada país ou empresa que resolver investir ou explorar a Lua montar sua própria estrutura de satélites, ou alugar os serviços de uma constelação da StarLink, devidamente posicionada em órbita lunar, pronta pra ser usada, basta o cartão de crédito passar?

Futuramente a mesma tecnologia será usada em Marte, obviamente. Hoje a NASA depende de sondas orbitais para retransmitir os sinais da Curiosity, é inconveniente e complicado, além do risco de uma pane deixar as sondas e robôs com janelas estreitas de comunicação.

Uma constelação da StarLink em órbita Marte tornaria o planeta inteiro acessível, robôs em qualquer lugar poderiam se comunicar entre si, com a Terra e o cenário do Perdido em Marte se tornaria obsoleto.

Será que a SpaceX vai ser bem-sucedida onde tanta gente falhou? O futuro dirá, mas desde já ganhamos um belo espetáculo: depois que foram soltos todos de uma vez os satélites se organizaram em fila indiana (dizem que o último lá na rabeira se chama Rubens) para iniciar a subida até os 550 km da órbita final. No mínimo é algo que nunca se viu antes, e está deixando os ufeiros arrepiados:

 

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