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Por que sua série favorita dos 80s provavelmente não vai virar BluRay 4K

A triste realidade é que nem toda série será relançada em 4K. Os motivos são vários, mas como tudo na vida, quem fala mais alto é o dinheiro, mesmo.

51 semanas atrás

Em 1921 o genial Buster Keaton lançou um de seus ótimos filmes, Sherlock Junior. Foi filmada por algo parecido com uma caixa de sapatos com uma manivela, um operador girava e mantinha a taxa de quadros por segundo usando apenas o olhômetro, não havia CGI, edição não-linear, correção de cores ou mesmo cores. Mesmo assim conseguimos coisas como a imagem abaixo. de uma restauração em 4K do filme. Já materiais muito mais novos, você nunca verá remasterizados.

A história das remasterizações em alta definição voltou às conversas por causa deste clipe do Wham!

O clipe é fofinho, mostra dois amigos, Andrew Ridgeley e George Michael com as namoradas curtindo o Natal num resort, e o George Michael safadinho além da própria namorada dá e entender que pegou anteriormente a namorada do amigo. Reconheço que ele é um ótimo ator, pois como todos sabemos George Michael não gostava de Natal, mas eu divago.

A versão abaixo, postada dez anos atrás é como todos nós neandertais vimos o vídeo na TV, com resolução de ralador de queijo.

Agora lançaram uma versão remasterizada em 4K, e a quantidade de detalhes e qualidade de imagem é magnífica, a ponto de ficar estranho, "real" demais, tem gente dizendo que parece um filme de 2019 com gente fazendo cosplay de 1984.

Esse tipo de conversão é possível pois dos Anos 80 para trás todos os filmes e séries eram feitos com isto:

O bom e velho (bota velho nisso) filme cinematográfico, emulsão de cristais de iodeto de prata, sensibilizados pela luz, gerando pontos microscópicos de formato e tamanho variado, e a qualidade e resolução da imagem que conseguimos digitalizar depende da tecnologia usada, e ainda não chegamos no limite.

Um único fotograma de filme 36mm x 24mm tem resolução teórica de 20 Megapixels. Por milímetro quadrado. É mais que suficiente pra produzir uma versão em 4K, mas isso é só o começo, toda a produção televisiva era em formato 4:3, e hoje em dia as TVs são todas widescreen, com proporção 16:9 ou maior ainda. Basicamente é preciso enfiar uma imagem quadrada em uma tela retangular, sem distorções e sem deixar faixas pretas do lado. Sim, é impossível.

A alternativa mais comum envolve ampliar e recortar a imagem em 4:3, o que resulta em perda de informação, as margens simplesmente desaparecem. Veja na imagem abaixo, um frame de Endgame, no aspecto original 1.90:1. Convertido pra 4.3 sem distorção, a imagem sofre bastante recorte. Se formos converter de volta, ampliando até atingir a proporção original, perdemos mais informação ainda.

Ah, mas se as séries eram filmadas em 35mm o filme é widescreen então fica mais fácil de converter, certo?

Errado. Em muitos casos toda a produção era pensada para o formato 4:3 então os cenários não eram construídos além disso, equipamentos ficavam visíveis e simplesmente não dá pra usar a imagem sem recorte. Não que não há quem tente, a conversão de Buffy para BluRay foi especialmente porca e em toneladas de momentos, coisas assim aconteceram:

Não é making of, é uma cena que foi pro BluRay, de um episódio.

Calma que Piora

As séries, principalmente sitcoms dos anos 80/90 filmadas direto em fita, esqueça, mas há um grupo de séries intermediárias que foram filmadas em película mas editadas em videotape, aí o trabalho, que custa caro, é reeditar tudo do zero, partindo do princípio que em algum lugar estão guardados os originais em filme.

Foi isso que foi feito com Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, os negativos originais foram escaneados, as cenas todas remontadas, áudio remasterizado e alguns efeitos especiais refeitos em computação gráfica, quando necessário. O resultado, magnífico.

Isso já havia sido feito com a Série Clássica, mas com a Nova Geração tendo sete temporadas, o custo final foi brutal, as más-línguas falam em US$12 milhões, e dificilmente a Paramount conseguiu convencer um nicho de nerds bem reduzido a tirar o escorpião do bolso e comprar US$12 milhões em Blu Rays.

Esse custo seria maior ainda se a maioria das cenas com efeitos especiais não tivessem sido feitas em película, pela Industrial Light and Magic. Em alguns casos os efeitos foram refeitos, mas no geral, foi só reescanear o material pronto. Já séries como Deep Space Nine não têm esse luxo.

Embora tenha sido filmada em película, a série de 1993 teve seus efeitos visuais finalizados em vídeo, então não adianta reescanear o material. TODAS as cenas teriam que ser refeitas do zero com CGI.

Isso foi feito em alguns trechos para o magnífico, emocionando e lindo documentário What We Left Bahind, mas é economicamente inviável para uma série de 176 episódios.

"Ah mas e se a gente tem todos os materiais pra refazer os efeitos?"

Caímos aqui no caso da igualmente excelente Babylon 5. A série de J. Michael Straczynski foi -perdoem meu francês- sacaneada pelo estúdio. Os produtores sabiam que HDTV estava a caminho, então ela foi filmada em película, widescreen, convertida pra 4:3 em videotape, e os efeitos especiais e cenas em computação gráfica renderizadas nesse formato, em baixa resolução.

Pensando no futuro, todos os efeitos de computação gráfica foram armazenados em seus arquivos originais, para serem renderizados em resolução mais alta, mas o estúdio preferiu ampliar e cortar as imagens 4:3 ao invés de reescanear os negativos originais e refazer o CGI. Como resultado a resolução que já não era grande coisa ficou pior ainda.

"Bem, com os arquivos dá pra refazer os efeitos, né?"

Não é tão simples. Primeiro, você precisa de todos os arquivos e texturas, e elas precisam ter resolução suficiente pra funcionar no tamanho de imagem desejado. Segundo, o programa que você está usando precisa saber ler o arquivo, estamos falando de um arquivo extremamente complexo de um programa de 25 anos atrás. Terceiro, há outro problema, veja esta imagem:

Está cena de Star Trek III foi toda feita com efeitos práticos. Se fosse refeita hoje em dia, um efeito ainda seria o mesmo: O fogo. Ainda é mais barato e realista usar explosões e chamas reais, existem inúmeras bibliotecas vendendo esses efeitos, mas a resolução dos vídeos depende de seu tempo. Dificilmente um vídeo de 25 anos atrás seria em 4K, então teríamos uma cena re-renderizada em alta resolução, com uma explosão aplicada com resolução VGA, por exemplo.

Há Esperança?

Talvez. Há gente pesquisando o uso de machine learning para melhorar imagens, isso foi usado no documentário de Deep Space Nine, mas ainda é muito, muito caro e leva muito, muito tempo. Infelizmente as séries de nicho não compensam financeiramente esse tipo de investimento.

Operação Resgate foi uma série obscura de 1979, com 16 episódios, sobre um dono de ferro-velho que constrói um foguete para voar até a Lua, pegar o lixo deixado pela NASA e revender. Tirando eu umas 5 pessoas no planeta lembram da série.

As chances de alguém remasterizar isso são ZERO.

O mais provável é que fiquemos com um buraco negro de séries produzidas entre 1980 e 2000, que jamais verão o mundo em FullHD, muito menos 4K. Uma pena, o jeito vai ser continuar a ver Red Shoe Diaries em SD mesmo.

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