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Starliner, cápsula espacial da Boeing falha em seu primeiro lançamento

A Starliner, cápsula espacial da Boeing para o Programa Comercial Tripulado da NASA foi lançada hoje, mas deu chabu. Não entrou na órbita correta.

40 semanas atrás

Hoje foi o primeiro teste da Starliner, a cápsula espacial desenvolvida pela Boeing para o programa comercial tripulado da NASA. infelizmente nem tudo deu certo, e os astronautas da ISS não receberão a carga prometida.

Quando o ônibus espacial foi aposentado em 2011, o Programa Comercial Tripulado da NASA tinha só um ano de idade. É uma iniciativa para fomentar o desenvolvimento de tecnologia por parceiros comerciais. Como todo projeto de governo é um programa caro e de longo prazo, mas o que a NASA não contava era com os russos se aproveitando do fato dos EUA não terem nenhum meio de mandar astronautas pra Estação Espacial Internacional sem ser comprando assentos nas Soyuz.

Como resultado os russos começaram a aumentar o custo das passagens. Hoje cada astronauta que a NASA manda pra ISS, custa US$86 milhões.

O Programa Comercial Tripulado deveria começar a levar astronautas em 2017, mas como sempre, atrasou, e vem sendo questionado por muita gente. Incluindo o fato da Boeing receber bem mais que a SpaceX.

O Programa prevê o desenvolvimento das naves e seis vôos tripulados para a Estação, até 2024. Para isso a Boeing poderá receber no total US$4.2 bilhões. Já a SpaceX pode receber até US$2,6 bilhões.

Aqui outro problema: O custo por viagem na SpaceX sairá a US$55 milhões por astronauta. Na Boeing, US$90 milhões. Sim, mais caro que os russos cobram.

Mesmo com muito mais dinheiro, a Boeing está mais atrasada. A SpaceX já fez um vôo de demonstração da Dragon 2, e agora só falta o In-flight Abort Test, para fazerem o primeiro vôo tripulado.

Já a Starliner ainda precisava chegar na ISS, e isso deveria ter acontecido hoje.

Deveria, mas não aconteceu.

O lançamento da Boeing CST-100 Starliner, cápsula capaz de transportar até 7 pessoas para órbita terrestre baixa foi perfeito, o Atlas V da United Launch Aliance funcionou muito bem, inclusive o segundo estágio, Centaur, que é uma variação com dois motores, exigência da NASA para aumentar a segurança dos futuros astronautas.

O Atlas V tem energia mais que suficiente para colocar a Starliner em uma órbita de transferência, mas a Boeing e a NASA resolveram testar uma variação: A cápsula seria liberada ainda em trajetória suborbital, em vôo parabólico, e o resto da manobra seria feito pelos motores do sistema de escape da Starliner, que também são motores de manobra orbital.

Aí surgiu o problema: No momento da manobra, nada aconteceu. Os técnicos da Boeing ficaram batendo cabeça, enquanto a Starliner queimava combustível loucamente redirecionando a cápsula, acelerando em um ângulo de 90 graus da direção desejada.

Ao invés de aumentar altitude, a manobra a fez mudar sua inclinação orbital.

Depois de mais de 5 minutos a manobra de inserção orbital ainda não havia sido identificada. A Starliner estava em uma órbita com apogeu de 90Km perigeu de 40Km, o que é muito, muito baixo. Ela iria queimar na atmosfera nos próximos minutos.

Depois de muita correria, os engenheiros conseguiram realizar uma manobra de emergência e colocar a nave em uma órbita mais alta, mas já era tarde demais para a Estação Espacial. Não havia combustível suficiente para chegar lá em segurança.

Que Diabos Aconteceu?

Naves como a Starliner são 100% automatizadas, e o lançamento é controlando por um script cuidadosamente coreografado. A cápsula sabe que no momento T=0 está na plataforma, que no momento T+2min está no regime de aceleração máxima, que em T+xx minutos está executando uma manobra de inserção orbital.

Em determinado momento a Starliner consultou o relógio interno e viu que estava em uma manobra de inserção orbital, acionando os motores. Com isso alguns parâmetros são ajustados. O controle de posicionamento da nave, que é mais tranquilo quando ela está em órbita normal, sem propulsão, se torna mais restrito. Qualquer modificação da direção, ângulo, rotação da nave precisa ser corrigida.

Por isso a Starliner começou a acionar os jatos de manobra loucamente, cada correção deixava um movimento residual, perfeitamente aceitável normalmente e que seria anulado pela própria aceleração dos motores principais, que não estavam acionados.

A Boeing tentou enviar um comando de cancelamento, mas a nave estava passando justamente por uma zona de sombra, sem cobertura dos satélites que retransmitem os sinais com as ordens. Quando reassumiram o controle, a órbita estava toda errada e mais de 30% do combustível já havia ido embora.

Manobrada para uma órbita mais razoável, 186km x 216km, era hora de ver o que dava pra salvar. A viagem para a ISS foi descartada. Como essa cápsula será recauchutada e usada para o segundo vôo tripulado, é bom trazê-la de volta inteira. Foi decidido então que ela permanecerá em órbita por dois dias, para mais alguns testes, e pousará como planejado (só algumas semanas mais cedo) em White Sands, na manhã de Domingo, dia 22 de Dezembro.

Rosie, a manequim-tripulante da Starliner.

O Administrador da NASA, Jim Bridenstine entrou em modo full contenção de danos e já falou que não sabe se vai ser preciso um novo vôo de testes não-tripulado, que a falha não seria problema em uma nave tripulada, e que a missão pode ser considerada um sucesso porque cumpriu várias metas, etc, etc.

Na prática a Boeing continua tendo problemas graves de software (será que foi um estagiário do 737 Max?) e ninguém tem a menor idéia do motivo pelo qual o cronômetro a bordo estava fora de sincronia com os em terra, e como ninguém verificou esse detalhe importante.

Uma Nota Final

A comunidade entusiasta e a mídia especializada foram unânimes: Pior transmissão de todos os tempos. A Boeing não usou comentaristas fora o narrador oficial da NASA, câmeras de bordo se resumiram ao primeiro estágio, havia ZERO gráficos com informações de telemetria. Depois da separação do primeiro estágio, toda a transmissão se resumiu a isto:

Em algumas imagens do Controle da Missão, uma surpresa:

Isso mesmo, os gráficos de telemetria, animações em tempo real da nave, tudo que a gente está acostumado. A Boeing simplesmente não usou, em uma missão feita com dinheiro público, com uma organização obrigada por Lei a ser transparente como a NASA, miguelaram até os mais simples gráficos, ficou indistinguível de um lançamento acompanhado por radinho de pilha.

Nem imagem de dentro da cápsula mostraram.

Se a Boeing quer ganhar a simpatia popular, estão indo pelo caminho errado. 1

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