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Não, infelizmente Betelgeuse (muito provavelmente) não vai virar supernova tão cedo

Betelgeuse é uma estrela a 700 anos-luz da Terra que está se comportando de forma esquisita, mas não se anime, ela não vai virar uma supernova tão cedo.

28 semanas atrás

Betelgeuse é um nome que está bastante na mídia ultimamente, vários jornalista até cometeram a imprudência de falá-lo três vezes, infelizmente o motivo é completamente sensacionalista, e fruto do inevitável telefone-sem-fio que envolve jornalismo científico. De imediato, direto ao spoiler: Betelgeuse não vai explodir, nem tão cedo.

Como você deve ter visto pelos links ali de cima (yay SEO!) a história não é nova, de tempos em tempos algum desocupado resolve que Betelgeuse vai explodir e nos matar, e os sensacionalistas suspeitos habituais seguem atrás com matérias alarmistas.

Betelgeuse está a mais de 700 anos-luz da Terra, então tecnicamente ela pode já ter explodido, mas além de atrasar notícias, essa distância toda tem outro efeito: A torna inofensiva para nós, ainda mais por Betelgeuse ser o tipo errado de estrela pra gerar um pulso de raios-gama, esses sim assassinos galácticos.

Qual a questão com Betelgeuse afinal?

Betelgeuse é uma super gigante-vermelha e uma variável semiregular, ou seja: Seu brilho varia, mas não aleatoriamente o bastante para ser considerada uma variável variável nem regular o suficiente para ser uma variável regular.

E quanto eu digo super gigante, é grande mesmo, umas 12 vezes mais massa que o Sol, mas por outro lado ela é muito menos densa, a densidade de Betelgeuse é de 0.000012 kg/m³, a densidade da água é de 997 kg/m³, ou seja: Em um oceano infinito Betelgeuse flutuaria.

Essa baixa densidade é decorrente de seu tamanho, e crianças, a danada é grande. Se colocada no centro do Sistema Solar, Betelgeuse ocuparia todo o espaço até a órbita de Júpiter.

Desde que a Humanidade começou a olhar pra cima durante a noite, Betelgeuse foi identificada como uma estrela de brilho variável, e muitas explicações mitológicas foram criadas em cima disso, mas em realidade ela está morrendo. Betelgeuse está no fim de sua vida, já sem Hidrogênio para consumir, tendo que fundir elementos mais pesados. Sua atmosfera apresenta Carbono e Nitrogênio, entre outros elementos.

Sem força para manter as camadas exteriores da atmosfera, Betelgeuse se contrai, o brilho diminui, aquecida pela gravidade a atmosfera exterior se expande, mais fusão ocorre no núcleo, e isso resulta em uma curva de brilho esquisita.

O brilho da estrela vem decaindo rapidamente, já atingiu o ponto mais baixo em 100 anos, é tipo o seu cunhado arrumar um emprego. É fora do normal, mas não é inédito nem prenúncio de tragédia. Há vários outros indicadores que mantém a precisão de que Betelgeuse não vai virar supernova pelo menos nos próximos 100 mil anos, o que é uma pena.

E se Betelgeuse explodisse?

Supernovas são um fenômeno relativamente raro. Poucas estrelas possuem massa suficiente para se tornar uma supernova, e dada a curta duração da vida humana e a vastidão do Universo, em uma galáxia em média uma estrela se torna uma supernova a cada 50 anos. No total temos uma supernova por segundo, se somarmos o Universo inteiro, mas Ele é grande demais então a maioria delas estão muito longe pra observarmos.

A mais recente supernova observável a olho nu foi a 1987A, que explodiu na Grande Nuvem de Magalhães, uma das galáxias-satélite da Via Láctea, a 168 mil anos-luz de distância. Ela se tornou mais brilhante que toda a galáxia combinada, e por alguns meses apareceu como uma estrela de respeitável magnitude 3.

Betelgeuse, por estar muito mais perto em algum momento irá colapsar, seu núcleo incapaz de realizar fusão nuclear de elementos pesados. Os quaquilhões de toneladas das camadas (assim como ogros e cebolas estrelas têm camadas) irão ser atraídos para o centro de Betelgeuse, sem a força nuclear para equilibrar, essas camadas ganharão mais velocidade, mais energia a ponto de se concentrarem no núcleo e reiniciarem a reação em cadeia.

Betelgeuse então explodirá com a força de mil sóis, se tornando mais brilhante que a lua cheia, sendo visível mesmo de dia, da Terra, a 700 anos-luz de distância.

A supernova mais brilhante já observada foi a SN 1006, que explodiu no ano 1006, sendo registrada por astrônomos do mundo inteiro. Mesmo povos sem conhecimentos científicos, como os índios americanos (pronto, falei, #CancelCardoso) registraram em petroglifos a supernova.

Estima-se que a explosão, ocorrida a 7200 anos-luz da Terra, tenha brilhado com magnitude de -7.5.

Em astronomia, quanto menor a magnitude, maior o brilho aparente. Vejamos alguns exemplos:

  • Marte visto da Terra:  -2.94
  • Vênus visto da Terra: -4.92
  • Lua cheia: -12.90

Betelgeuse brilhará com magnitude de pelo menos -12.4, e como é um ponto de origem unidimensional, seu brilho aparente será maior ainda. Ela será visível por vários meses mesmo durante o dia.

Muito provavelmente não há nada habitável ou habitado perto da estrela, seus habitantes, se existiram há muito a abandonaram em busca de locais mais estáveis, mas planetas em estrelas próximas podem ser calcinados pelos raios-x emitidos durante a explosão da supernova.

A comunidade científica em consenso não acredita na possibilidade de uma explosão iminente, mas secretamente todos os astrônomos do planeta querem essa supernova mais que tudo na vida. A oportunidade de estudar uma explosão estelar ao vivo e a cores é boa demais, e se isso significa exterminar meia-dúzia de planetas, é a vida.

PS: A idéia de uma estrela aparecendo no céu durante a época de Natal lembra uma outra história, e entre as hipóteses para a Estrela de Belém, já foi cogitada uma supernova, idéia essa que foi brilhantemente transformada em um conto, por Arthur Clarke, é curtinho e vale muito a pena ler.

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