Meio Bit » Entretenimento » Kirk Douglas: o adeus a uma verdadeira lenda de Hollywood

Kirk Douglas: o adeus a uma verdadeira lenda de Hollywood

A indústria de Hollywood se despediu ontem do veterano ator e produtor Kirk Douglas, que tem uma trajetória que se confunde com a história do cinema

33 semanas atrás

Kirk Douglas faleceu ontem aos 103 anos de uma vida muito bem vivida, e a trajetória do ator e produtor se confunde com a própria história de Hollywood. O anúncio da morte foi feito por seu filho Michael Douglas em uma rede social.

Indicado a três Oscars de melhor ator pelos filmes, ele acabou não vencendo nenhum, em mais uma grande injustiça histórica da premiação mais famosa da indústria do cinema. A primeira indicação veio em 1950 por O Invencível (Champion), e na preparação para o filme, ele treinou durante meses com um boxeador aposentado.

A segunda indicação de Kirk aconteceu em 1953, pelo filme Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful), no qual ele dividia a tela com a atriz Lana Turner. Mais uma vez ele foi esnobado pela Academia.

A segunda indicação ao Oscar

Kirk Douglas foi indicado pela terceira e última vez ao Oscar em 1957 por Sede de Viver (Lust for Life), filme de Vincente Minnelli no qual interpretou o papel do grande Vincent Van Gogh, um personagem com o qual se envolveu profundamente.

A 3a indicação ao Oscar de melhor ator veio pelo papel de Van Gogh em Sede de Viver

O ator venceu duas vezes o Globo de Ouro, o primeiro em 1952 por Chaga de Fogo (Detective Story) e o outro em 1957 por Sede de Viver, mas ele só foi receber um Oscar (honorário) em 1996, pelos seus 50 anos de carreira até então, entregue pelas mãos do seu filho Michael Douglas, este sim premiado por seu desempenho em Wall Street. Pior para a Academia, que perdeu a chance de ter um dos grandes atores históricos de Hollywood entre seus premiados.

O começo

Issur Danielovitch Demsky nasceu em dezembro de 1916 em Nova York, filho de uma família de camponeses russos. Como a sociedade local não dava emprego para judeus, seu pai Herschel/Harry teve que trabalhar como trapeiro, coletando e vendendo bens que não eram mais usados pelas pessoas.

Na entrevista acima, Kirk fala sobre essa fase da sua vida. Em 1998, ele lançou uma autobiografia, O Filho do Trapeiro (The Ragman’s Son), na qual contou boa parte de sua história em suas próprias palavras. A vida foi dura para Kirk antes de ele conseguir seu lugar ao sol em Hollywood, e o ator declarou uma vez que teve cerca de 40 empregos antes de conseguir atingir o sucesso.

Ao decidir estudar teatro, Isadore (Izzy) Demsky resolveu mudar seu nome para algo de sonoridade mais convencional, adotando o nome artístico de Kirk Douglas. Após dois anos de preparação, ele estreou na Broadway em 1941 no musical Spring Again, no papel de um entregador da Western Union que soltava a voz.

No ano seguinte ele se alistou na Marinha, e em 1943 se casou com a também atriz Diana Dill antes de ser enviado para a Segunda Guerra Mundial, na qual foi um oficial de comunicações. Diana é a mãe de seus dois primeiros filhos, Michael e Joel. Levemente ferido em um acidente, Kirk Douglas foi dispensado e voltou para Nova York em 1944.

O primeiro filme do ator Kirk Douglas

Seu primeiro filme foi O Tempo Não Apaga (The Strange Love of Martha Ivers), dirigido por Lewis Milestone em 1946, com Barbara Stanwyck no elenco.

Kirk e Diana se separaram em 1951, e no mesmo ano, ele trabalhou com o jovem diretor Billy Wilder em A Montanha dos 7 Abutres (Ace in the Hole). Em 1954 ele se casou com Anne Buydens, com quem teve seus dois outros filhos, Peter e Eric (falecido em 2004).

A dupla com Burt Lancaster e a produtora Bryna

Seu primeiro trabalho com Burt Lancaster foi Estranha Fascinação (I Walk Alone), de 1947, e a dupla que deu tão certo que os dois fizeram sete filmes juntos, numa das parcerias mais históricas de Hollywood.

Em 1955, inspirado no seu amigo Lancaster, Kirk assumiu outro papel, o de produtor, com sua empresa Bryna Productions, responsável por seus dois filmes com o genial diretor Stanley Kubrick, ambos sensacionais, Glória Feita de Sangue (Paths of Glory) e Spartacus.

Kirk Douglas em seu primeiro filme com Stanley Kubrick

Em 1957, Burt Lancaster e Kirk fizeram os papéis icônicos de Wyatt Earp (Lancaster) e Doc Holliday em Sem Lei e Sem Alma (Gunfight at the O.K. Corral) dirigido por John Sturges.

A produtora de Kirk foi batizada com o nome de sua mãe (Bryna Demsky), e ficou ativa até 1986, quando foi lançado o filme Os Últimos Durões (Tough Guys), que o reuniu pela última vez ao seu velho amigo Burt Lancaster.

Os Vikings de 1958

Antes de Spartacus, a Bryna produziu outros dois filmes históricos bem interessantes, Ulysses em 1954, Os Vikings (The Vikings) em 1958. Na entrevista abaixo, Kirk conta sobre uma de suas primeiras experiências com produção no filme, , que como sabemos, podem ser bem estranhas e/ou problemáticas.  No vídeo, ele também sobre o próximo projeto da sua produtora.

A firme posição contra o Macartismo

Seu personagem mais famoso foi o inesquecível Spartacus, filme que foi escrito por Dalton Trumbo, mas que por muito pouco não teve seu nome cortado da produção, depois que ele foi incluído em uma nefasta lista de artistas de Hollywood suspeitos de envolvimento com o comunismo. Trumbo foi parte do grupo que ficou conhecido como os "10 de Hollywood", condenados a um ano na cadeia por supostamente terem ligações com o partido comunista nos Estados Unidos.

Kirk Douglas como Spartacus

Por um tempo, Dalton Trumbo teve que assinar seus roteiros com diferentes pseudônimos como Robert Rich, vencedor do Oscar de roteiro original por Arenas Sangrentas (The Brave One). Em 1993, de forma póstuma, o roteirista recebeu o Oscar por A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday), filme vencedor em 1954 com um roteiro assinado por seu amigo Ian McLellan Hunter para protegê-lo. Tudo mudou quando Trumbo teve seu nome confirmado de forma corajosa pelo diretor Otto Preminger em Exodus, e logo depois, Kirk seguiu seu exemplo e decidiu manter o nome do roteirista nos créditos.

Em 1963, sua produtora foi responsável pela adaptação teatral de Um Estranho no Ninho, (One Flew Over the Cuckoo’s Nest) de Ken Kesey, no qual fez o papel de Randle P. McMurphy, depois imortalizado no cinema em 1975 por Jack Nicholson no filme de Milos Forman, produzido por seu filho Michael Douglas.

O incansável Kirk Douglas teve uma carreira brilhante, com mais de 90 filmes como ator e 32 como produtor. Ele também dirigiu dois filmes, As Aventuras de um Velhaco (Scalawag) em 1973 e Ambição Acima da Lei (Posse) em 1975, sendo que o primeiro foi também escrito por ele.

Um grande humanitário

Kirk Douglas não era só um grande ator, ele também era um grande ser humano. Gabrielle Carteris, presidente do SAG-AFTRA (Screen Actors Guild - American Federation of Television and Radio Artists) lembrou em uma mensagem de condolências o lado humanitário de Kirk, e a grande dedicação que sempre teve de dar suporte a várias causas.

Ela lembrou que ao longo de sua vida, Kirk Douglas doou milhões de dólares para escolas, hospitais e instituições que cuidam de pessoas sem teto, e que ele e sua esposa Annie doaram mais de US$ 40 milhões para o Motion Picture & Television Fund. O casal Douglas também criou uma clínica para pacientes com Alzheimer.

Nos anos 90, Kirk sobreviveu a um acidente de helicóptero e um AVC, mas mesmo assim, continuou sua carreira na frente das câmeras. Ele também escreveu 10 livros, incluindo os dois que citei aqui. Pelos seus 103 anos de vida, Kirk Douglas é assunto pra um livro, não só para um post. No centenário de Douglas em 2016, o crítico e autor Mario Abbade lançou um livro sobre a carreira do ator, apropriadamente chamado de O Último Durão.

Kirk Douglas namorou com grandes divas de Hollywood como Joan Crawford, Marlene Dietrich e Rita Hayworth, entre várias outras, e assim como elas, ele garantiu seu lugar na história da era de ouro do cinema.

Kirk como Spartacus

Descanse em paz, e muito obrigado por tudo, Kirk Douglas. Nós somos Spartacus!

Leia mais sobre: , , , .

relacionados


Comentários