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Dreams — O sonho de virar um game designer

Muito mais do que um jogo, Dreams é a fantástica plataforma de criação audiovisual que a Media Molecule lançou para o PlayStation 4

1 ano e meio atrás

Desenvolver um jogo não é algo simples, mas uma empresa que tem procurado maneiras de facilitar esse processo é a Media Molecule. Desde o lançamento do LittleBigPlanet esse estúdio britânico vem mostrando que poderia nos dar uma ferramenta para a criação de games, mas quando eles anunciaram o Dreams, confesso que inicialmente achei que a proposta era ambiciosa demais.

Dreams

Podendo ser descrito como uma mistura de jogo, rede social e principalmente, plataforma de criação, falar sobre o maior projeto da Media Molecule é correr o risco de não conseguir fazer jus à sua genialidade. Imagine uma ferramenta que lhe permitirá criar clipes musicais, animações, histórias interativas, jogos e qualquer outro tipo de experiência audiovisual. Isso é Dreams, mas ainda assim, ele é muito mais do que isso.

Ao iniciarmos o “jogo”, seremos apresentados a uma breve introdução, onde conheceremos os comandos básicos e poderemos escolher entre três tipos de controles: o tradicional, um que usará o sensor de movimentos do DualShock ou ainda o PlayStation Move.

No primeiro momento será inevitável nos sentirmos intimidados, sem sabermos muito bem para onde ir e é aí que teremos contato com todo o brilhantismo da desenvolvedora. Seja encarando os primeiros tutoriais, seja conhecendo a campanha criada por eles, a criatividade e a robustez do Dreams transbordará por todo os lados.

O sonho de Art

Mas antes de falarmos sobre as muitas aulas que teremos até criarmos nossos jogos, é preciso comentar sobre a campanha disponibilizada pela Media Molecule. Toda criada usando as ferramentas do Dreams, ela mostrará a história de Art, um contrabaixista que abandonou a sua banda após um surto de soberba.

Durando cerca de três horas o jogo será uma viagem pela música e pela arte, além de servir como uma aula de game design, já que mistura diversos estilo de jogos de maneira magistral. De um adventure point and click a jogo de plataforma, passando por quebra-cabeças e até corrida, o Sonho de Art poderia ser apenas uma demo, mas acaba se mostrando uma bela história e com a sua jogabilidade servindo para mostrar do que o kit de desenvolvimento é capaz.

Além disso, impressiona a maneira como ele consegue ser ao mesmo tempo um jogo divertido e uma experiência audiovisual muito bacana. Isso no entanto me deixou um pouco preocupado, pois sabia que nunca seria capaz de criar algo minimamente parecido com o que aquele pessoal entregou. Pois é aí que entram os tutoriais.

Telecurso 2000… e 20

Achar que bastará iniciar o Dreams para já sair criando os mais fantásticos jogos é um erro que muito cometerão e que infelizmente poderá afastar algumas pessoas. Contando com uma quantidade enorme de tutoriais, não é exagero afirmar que eles são praticamente obrigatórios.

Desde colocar um simples objeto em cena até pintá-los ou criar implementar ações, tudo exigirá passarmos por diversos menus e embora existam inúmeros atalhos, não dá pra dizer que o processo seja simples. Sim, é verdade que com o tempo usar essas ferramentas se torna mais intuitivo, mas não pense que o trabalho será fácil, muito menos que não exigirá dedicação.

O que ajuda a tornar todo o processo de aprendizado menos cansativo é a maneira como a Media Molecule elaborou esses tutorias, com eles sempre nos incentivando a sermos criativos e sendo entregues de uma forma mais lúdica. Há ainda as Masterclasses, que são vídeos onde funcionários da desenvolvedora nos ensinam técnicas mais elaboradas, mas sempre de forma bastante didáticas.

Tendo pesadelo com os controles

Porém, por mais que os tutoriais sejam um tanto intimidadores, foram com os controles que eu mais sofri ao experimentar o Dreams. Por ter que permitir a realização de muitas ações enquanto estamos criando algo, o controle do PlayStation 4 acaba se mostrando muito limitado e por muitas vezes desejei estar usando um teclado e mouse.

Com o tempo até nos habituamos a usar alguns atalhos ou a utilização dos menus se torna mais intuitiva, mas ainda assim tem sido comum eu ter dificuldades para colocar um objeto exatamente onde queria ou simplesmente acabo os deixando da maneira errada por pura preguiça de continuar tentando.

Como não tenho um PlayStation Move, infelizmente não posso comprovar se isso é verdade, mas a sensação que tive foi de que com este controle o processo de utilização do Dreams deve ser muito melhor, com as “varetas” deixando toda a criação muito mais natural e precisa.

No entanto, essa dificuldade nos controle acontece mais quando estamos criando algo, já que ao jogarmos os títulos desenvolvidos por outras pessoas tudo dependerá da maneira como ela conseguiu implementar sua jogabilidade. Ou seja, há games que são uma delícia de se jogar, enquanto em outros não conseguimos passar mais do que alguns segundos por suas mecânicas não terem sido bem implementadas.

Um oceano de criatividade e interatividade

Mas se tem um ponto em que o Dreams beira a perfeição, é na maneira como funciona como uma rede social. Além de permitir que os criadores compartilhem seus jogos, vídeos ou artes de maneira extremamente simples, é impressionante como a ferramenta está sempre incentivando a troca de experiência entre os usuários.

Você não se sente criativo o suficiente para desenvolver algo do zero? Tudo bem, aproveite as criações dos outros e dê vida às ideias mais malucas. Esse conceito de criação comunitária é sem dúvida um dos pontos altos da ferramenta e como boa parte das pessoas não terão nem habilidade nem paciência para produzir algo a partir de uma tela em branco, é muito bom ver que o Dreams não nos impõe muitos limites em relação a reaproveitar os trabalhos dos outros.

Outra característica extremamente positiva é as nossas criações poderem ser avaliadas por outras pessoas e embora isso sempre abra espaço para os trolls, no geral os usuários tem se comportado bem e contribuído para que o ecossistema seja o mais amistoso possível.

Mas no fim das contas, muitos passarão horas e mais horas testando aquilo que foi criado por outras pessoas. São recriações de outros títulos famosos, vídeos belíssimos (e outros nem tanto), esculturas virtuais dignas de deixar qualquer modelador com inveja, assim como as mais diversas maluquices.

Isso é bom, pois nos permitirá usar tais ideias como inspiração e por mais que algumas criações possam nos levar a pensar que nunca seremos capazes de criar algo naquele nível, lembre-se que no fundo tudo se resume a uma mistura de criatividade, paciência e dedicação.

Sobre aprendizado e futuro

Portanto, acho válido ressaltar como o Dreams não é um jogo/ferramenta para pessoas impacientes. Se você está disposto a aprender, a errar e a se dedicar, aprofundar-se na ferramenta renderá momentos muitos satisfatórios, com cada criação ou comentário feito por outros jogadores servindo como uma grande conquista.

Já para aqueles que só querem se divertir, a quantidade e a variedade de obras desenvolvidas com o Dreams já é suficiente para nos entreter por um bom tempo e embora muitas sejam no máximo medianas, há algumas criações por lá que podem nos deixar de boca aberta. Coisas tão legais que tem até feito com que outros estúdios ou até a Media Molecule contratem seus criadores.

Por outro lado, fico pensando em como estar numa plataforma mais aberta poderia transformar o Dreams em algo muito maior do que ele pode vir a ser. Ter uma ferramenta com tamanha liberdade (e qualidade) no PC seria fantástico e não acho exagero pensar que desta forma o kit de desenvolvimento poderia vir a se tornar algo tão grande quanto um Minecraft.

Isso também me faz crer que seria muito bom se — até por o ciclo de vida do PlayStation 4 estar chegando ao fim — o Dreams fosse adaptado para o sucessor do console da Sony. Se isso acontecer, além do jogo poder manter vivas todas as criações que forem feitas até lá, ele ainda poderia se beneficiar do maior poder de processamento do PS5, já que ao menos no modelo normal do atual videogame é possível notar grandes queda na taxa de atualização de frames de vez em quando.

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