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Quando os EUA colocaram um porta-aviões a carvão no meio de um lago

Porta-aviões não eram raros na Segunda Guerra, já porta-aviões movidos a carvão, desarmados e presos em lagos, esses sim não se achava em qualquer lugar

27 semanas atrás

Colocar um porta-aviões em um lago não parece ser a forma mais eficiente de ganhar uma guerra, mas para os Estados Unidos isso foi fundamental durante a Segunda Guerra Mundial, e eles fizerem isso não uma mas duas vezes!

Porta-aviões foram fundamentais para a vitória no Pacífico, isso era de conhecimento geral e a esquadra americana era o alvo principal do ataque a Pearl Harbor, pena que o Almirante Yamamoto deu azar e os porta-aviões americanos estavam no mar no dia 7 de Dezembro de 1941.

A esquadra cresceu lentamente. Em 1937 os EUA tinham cinco porta-aviões: Lexington, Saratoga, Ranger, Yorktown e Enterprise. Ao final da Guerra, graças a uma produção industrial praticamente ilimitada os EUA totalizaram 97 porta-aviões construídos, entre os grandes e os menores, de escolta, como o nosso falecido A11 Minas Gerais, antigo HMS Vengeance, da marinha inglesa.

Claro que esse monte de navios precisa de tripulantes treinados, e se há algo que não dá para ser treinado em terra é um aviador naval. Quando seu aeroporto sobe e desce de acordo com o vento e as ondas,e precisa ser achado no meio do oceano, simular isso fica complicado com um aeroporto em terra.

Destacar um porta-aviões só para treinamento também não é uma boa ideia. Primeiro, isso significa retirar de serviço um navio perfeitamente operacional, e em nenhum momento os EUA tinham porta-aviões demais, podendo dispensar algum.

USS Enterprise. Nenhum maldito A B C ou D.

Segundo, um porta-aviões cheio de cadetes inexperientes é um alvo delicioso para um submarino alemão. Isso significa uma escolta de proteção, mais navios fora de serviço, algo que não era viável.

A solução surgiu antes mesmo da Guerra. O Comandante Richard F. Whitehead propôs um plano completo, mas como era começo de 1941, ele foi prontamente ignorado, até o supracitado entrevero em Pearl Harbor.

Subitamente a Marinha decidiu construir um porrilhão de porta-aviões e treinar 45 mil aviadores navais, com os problemas igualmente supracitados. Para sorte de todos a solução estava pronta. Era nada ortodoxa, ousada e inédita.

O Comandante Whitehead tinha um plano simples, transformar isto:

Nisto:

Sim, são os mesmos navios. Em sua primeira encarnação foi o Seeandbee, um vapor de luxo lançado em 1912 para fazer a rota Ohio-New York, no Lago Erie. o Seeandbee era tudo menos um navio moderno pelos padrões de 1941. usava caldeiras a carvão e nem hélice tinha, usava aquelas rodas de propulsão, tipo isto:

O Seeandbee foi adquirido pela marinha americana em 1942 por US$12 milhões em valores atuais.  Passando por uma reforma completa, todo o convés superior foi removido, as chaminés foram transferidas para as laterais. Um convés de voo foi construído, junto com uma nova ponte de comando. Ele foi rebatizado de USS Wolverine e transformado em um porta-aviões de treinamento.

Ele era pequeno, lento, baixo e desajeitado, não tinha um convés inferior, então aviões avariados tinham que ficar no convés de voo, se fossem muitos os treinamentos do dia seriam encerrados. Mesmo assim ele se tornou fundamental no treinamento de novos pilotos.

O programa funcionou tão bem que a Marinha comprou outro vapor e o transformou no USS Sable, que junto com o Wolverine eram os porta-aviões mais seguros do mundo. Caso os cadetes não conseguissem pousar neles, estavam a poucos quilômetros da costa, e podiam treinar sem medo de um U-Boat, visto que a atividade da marinha alemã nos Grandes Lagos era bem limitada.

Um efeito colateral dos dois navios é que o fundo do Lago Michigan está coalhado de aviões. Pelo menos 120 se acidentaram durante os treinos e foram parar na água. Oito pilotos morreram e até hoje de vez em quando um avião é pescado. Parece muito mas cada navio fazia pelo menos 300 pousos e decolagens por dia, os dois sozinhos treinaram mais de 17 mil aviadores durante a Guerra.

A grande ironia é que no papel os dois eram os piores porta-aviões do mundo, o mais distante possível do inimigo, mas eram os navios certos no lugar certo.

Quanto à imagem de abertura, ela é real. É o Dongfang Lu Zhou - Oriental Green Boat Park, um parque temático na China, com um prédio em forma de porta-aviões. Há outro parque temático com o antigo porta-aviões soviético Kiev, servindo de museu, restaurante e hotel, com as japinhas* vestindo uniforme naval e tudo. Uma fofura.

*eu sei.

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