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No tempo em que Corona salvava vidas

Operação Corona parece algo bem atual, mas foi um projeto de mais de 70 anos atrás que combateu de forma eficiente um inimigo pior do que qualquer vírus

24 semanas atrás

O termo Corona hoje em dia provoca arrepios, mas houve um tempo em que ele era sinônimo de esperança, sagacidade, inovação e vidas salvas. Para chegar até esse tempo, como sempre, vamos seguir um caminho tortuoso no tempo e no espaço...

Alguns anos atrás o Irã conseguiu um feito de espionagem: Colocou as mãos em um drone americano supersecreto, inteiro. A forma com que o fizeram foi lindamente simples: Eles saturaram as frequências de GPS, criando sinais falsos, fazendo o drone achar que não estava aonde achava que estava, ele pousou normalmente em uma pista inimiga, caindo nas mãos dos iranianos.

Esse foi apenas um pequeno capítulo na história da guerra eletrônica, aonde os dois lados competem criando formas de interferir nos sinais inimigos, e ao mesmo tempo blindar seus sinais contra interferência.

Um método bem ousado para lidar com guerra eletrônica foi usado no Vietnã pelo grupamento conhecido como "Wild Weasels". um dos aviões do grupo voava como isca, atraindo os radares dos mísseis SA-2 russos usados pelos vietcongs. Quando o míssil era disparado, o radar entrava em modo de guiagem, nisso os outros aviões calibravam seus mísseis anti-radiação para se guiarem pelo feixe de radar inimigo, destruindo-o.

Com sorte o míssil atingia o radar antes do míssil inimigo acertar o avião americano.

Na Segunda Guerra estações de radares eram alvo de bombardeios constantes, mas é uma desvantagem tática atacar um alvo cuja única função na vida é saber que você está chegando para atacar.

É possível usar defesas passivas (ui!) como chaff, mas há meios melhores, e muitos e muitos avanços tanto na criação de interferência quanto no combate a ela foram feitos, mas a história da interferência eletrônica vai mais além no passado, tem data precisa e é o elo para o barquinho da foto lá de cima.

Durante os primeiros 20 ou 30 anos da invenção do rádio, somente sinais em código Morse podiam ser enviados. Não havia modulação, frequências discretas, nada. O conjunto era formado por um centelhador e uma bobina, que sintonizava mal e porcamente a faixa de frequência aonde o sinal seria mais forte, mas em essência o transmissor de centelha equivalia a apertar todos os botões do elevador cada vez que você queria ir até um andar específico.

Mesmo assim era uma tecnologia incrível e inovadora, com várias empresas tentando se instalar como "A" referência em telegrafia sem fio. Nos EUA a briga principal era entre Lee de Forest, considerado o Pai do Rádio no país, e Guglielmo Marconi.

Sempre atrás de uma oportunidade para divulgar sua tecnologia, os dois resolveram agilizar a coleta de informações durante a America's Cup, aquela tradicional corrida de barcos. Marconi fechou um contrato com a Associated Press. Ele colocaria um transmissor em um barco, que acompanharia a corrida, e transmitiria para um receptor em terra, a 40 milhas de distância, as posições dos competidores de tempos em tempos.

Lee De Forrest fechou um contrato com a Publishers Press Association, uma competidora da Associated Press, para fazer a mesma coisa.

Chegou o dia da corrida, os dois barcos começam a reportar as posições dos competidores, e claro um interfere no sinal do outro. Depois de provavelmente uns bons minutos de xingamentos e ameaças, os dois chegam a um acordo e transmitem de forma alternada, assim as duas agências podem receber suas informações.

Você já viu essa imagem um milhão de vezes em filmes. Todas erradas. Telegrafistas segurando o botão com dois dedos, o indicador e o polegar, para gerar tons mais firmes e evitar ruído.

Perfeito, exceto que havia um terceiro barco, de outra empresa, cujo nome se perdeu na História. O operador de telegrafia desse barco transmitiu a informação mais atualizada da corrida, e em seguida SENTOU O DEDO no pica-pau, aquela peça que faz tec-tec-tec. Ao invés de pontos e traços, ele apertou continuamente a alavanca, transmitindo um sinal contínuo por mais de uma hora. Como um pré-adolescente histérico no chat de voz de um game online, ninguém mais conseguiu ouvir nada.

Os militares se interessaram imediatamente, e dali em diante nunca pararam de desenvolver formas de interferir nos sinais de rádio do inimigo, mas uma das formas mais inteligentes e perspicazes de fazer isso aconteceu na Segunda Guerra Mundial, com a... Operação Corona.

Hitler estava aperfeiçoando a tática de bombardeios noturnos, que mesmo com radar eram bem complicados de interceptar. Obstruir as transmissões entre os aviões e a base também não adiantaria, eles prosseguiriam com a missão. Alguém então teve a ideia: Que tal enganar os alemães, invadindo a frequência deles, passando informações falsas e ordens contraditórias, mudando os alvos ou ordenando que retornassem à base?

Ótimo, mas aonde achariam um monte de sujeitos falando alemão fluente, sem sotaque e que estivessem dispostos a bater de frente com Hitler? A resposta?

JUDEUS!

A Inglaterra estava cheia de refugiados nascidos e criados na Alemanha, que foram subitamente privados de sua cidadania, perseguidos e ameaçados de extermínio. Não faltaram voluntários entre os que estavam servindo nas forças aliadas, e isso continuou por um bom tempo, até que os nazistas perceberam o truque e contra-atacaram pensando completamente fora da caixa:

Usaram... mulheres, que na Alemanha nazista tinham finalidade basicamente reprodutora. Com certeza os ingleses não teriam mulheres em seu exército e...

Tinham.

As moças da WAAF (Women's Auxiliary Air Force) - não confundir com WAIFU tinham um monte de refugiadas entre seus quadros, e rapidamente elas tomaram o lugar dos homens, até o final da campanha aérea da Luftwaffe a Operação Corona continuou redirecionando aviões para alvos inofensivos, e imagino eu uma ou outra casa de algum ex-namorado, mas alguma coisa eles fizeram.

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