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Meio Bit: there and back again

Quais os efeitos das últimas mudanças no Meio Bit? Como o autor mais antigo vê o futuro do site? Leia esta pequena diatribe pessoal...

10/07/2020 às 11:36

Um dos motivos pelos quais gosto de zoar retrogamers é que não sou saudosista, o futuro sempre me pareceu mais interessante que o passado, mas agora é o momento de relembrar um pouco da trajetória do Meio Bit, que está entremeada à minha vida de uma forma que chega a assustar quando paro para pensar nisso.

A rigor, o Meio Bit surgiu 16 anos atrás, das mãos do Leonardo Faoro e do Luiz Eduardo Nercolini, o primeiro post publicado dia 4 de junho de 2004. Sabe-se muito pouco desse período, tudo se perdeu na bruma do tempo, mas o site ainda era um pequeno e despretensioso blog.

Nota:

Meu ego manda avisar que esse período na história do Meio Bit, entre 2004 e 2006, é chamado AC – Antes de Cardoso. Vivemos hoje a Era Corrente. DC será só depois que eu sair, mas après moi le deluge.

Eu tomei conhecimento do Meio Bit em algum momento em 2006, uma época em que eu havia dado (se reclamar do cacófato é homofobia!) uma reviravolta na minha vida, abandonado uma vaga confortável de Analista de Sistemas Senior II – A Missão e me dedicado à nobre arte da Alta Blogueiragem. Eu já havia sobrevivido um bom tempo escrevendo livros de informática, era hora de voltar ao meio das palavras, minhas amigas.

Em algum momento, o Leo Faoro me convidou para escrever no Meio Bit. Eu confesso que não me lembro quando, como nem quanto, a única certeza é que não foi por amizade - mesmo naquela época eu era fiel seguidor de Samuel Johnson (1709-1784):

2005 - Ainda fazíamos Palmchopps, com direito a foto dos gadgets da galera.

Em 30 de Março de 2006, publiquei meu primeiro post no Meio Bit, “Download de séries não é crime”. Era algo tão esporádico que o próximo post apareceu em agosto, mas dali em diante a coisa deslanchou.

Como é escrever sobre tecnologia por tanto tempo? Muitos autores sofrem Burnout, outros apenas se entendiam, mas comigo isso nunca foi problema. Quer saber meu segredo? Eu penso no futuro, o resto é fácil. Eu sempre amei tecnologia, muito antes de escrever sobre ela. Com o Meio Bit, eu ganhei um camarote para ser testemunha ocular da História.

Eu tive um NGage. Me processe.

Pode parecer que eu nasci há dez mil anos atrás, mas vi a Internet nascer. No Meio Bit, vi a chegada da SpaceX, do iPhone, do YouTube, do Zune. Vi o iPad ser zoado, vi os últimos momentos dos PDAs, dei adeus a meu querido Palm.

Em 2007, a Blogosfera crescia para todos os lados, de blogs de humor como o Judão (ainda assinavam com Cu do Judas, mas mudaram por motivos óbvios quando ficaram mais famosos) a verdadeiras experiências literárias como o Jesus me Chicoteia e o Balde de Gelo, e as empresas começavam a notar a gente.

As memórias dessa época são ótimas, os eventos começaram a pipocar, e neles encontrávamos os suspeitos habituais: Nick Ellis, Edney, Fugita, Inagaki, Mobilon, o Cobra, a Kunze, Lu Freitas, a lista é imensa.

Inicialmente, blogueiros foram tratados como jornalistas de segunda classe, mas não por malícia, era puro despreparo. Certa vez, durante uma TechEd da Microsoft, ao invés da assessoria de imprensa o contato com os blogueiros foi feito por uma agência de propaganda.

Ganhamos credenciais de visitante normal, nem acesso à sala de imprensa nós tínhamos, acabamos trabalhando sentados no chão até que o Galileu Vieira, da Microsoft, me reconheceu e me deu acesso à sala de imprensa. Ninguém guardou mágoa, exceto um blogueiro que estava tentando rodar seu notebook com SATUX Linux e não conseguia, e tinha que ouvir da gente, “mas você é livre”.

A relação com as empresas foi algo que me impressionou muito. De reles usuário, eu estava conhecendo e visitando lugares que nunca imaginei conhecer. A Microsoft, que botou a gente sentando no chão, se redimiu totalmente. Graças à ela conheci o criador do Kinect, fui jurado da Imagine Cup e vi coisas do arco da velha, como dizem os velhos.

Ok, admito. O buffet internacional da Imagine Cup era bom demais.

E não foi só ela. A Nokia nos levou para cobrir a Bossa Conference em Porto de Galinhas, fomos em lançamentos internacionais, acompanhamos com tristeza a derrocada da companhia, celebramos seus sucessos e nunca reclamaram ou forçaram qualquer interferência editorial, mesmo quando publiquei um artigo de título “Nokia lança a Epic Fail Store”.

Samsung, Asus, Autodesk, LG, Oracle, Cielo, TIM, SAP, eu poderia passar o dia falando de como um bloguinho de tecnologia começou a aparecer na agenda dessa gente, e isso nos surpreendeu, ao mesmo tempo que indicava que estávamos fazendo a coisa certa, mas este texto é pessoal.

Em 2008, o MeioBit era tão sério que fizemos o MeioBit Expo, no Espaço Gafanhoto, em São Paulo. Foi no auge dos Blogcamps e Barcamps, que eram apenas uma desculpa para o pessoal se encontrar e jogar conversa fora. No nosso caso, celebramos quatro anos de blog, com a promessa de que viriam muitos mais. Céus, ninguém imaginava quantos.

Internet apresentando no MB Expo

No mesmo ano, o Meio Bit me proporcionou um dos melhores momentos de minha vida nerd. Eu estava em São Paulo quando soube de um evento em Belo Horizonte com ninguém menos que o Woz. Chamei o Nick Ellis no ICQ (nós somos velhos) e ele correu atrás. O evento era só para empresários, estava lotado e custava mais de R$ 1000 o ingresso. Ele deu uma de João-Sem-Braço e, dizendo que era do Meio Bit, pediu credenciais de imprensa.

A assessora reconheceu o nome do blog e imediatamente liberou. Foi uma corrida contra o tempo, eu pegando um ônibus de SP, o Nick um avião do Rio, mas chegamos, assistimos à palestra em modo full fanboy e, depois de criar coragem, fomos até o camarim, exibindo nossas credenciais de imprensa no melhor estilo Wayne’s World.

Woz nos recebeu cansado, mas sorrindo. Eu posso dizer que tive o prazer de apertar a mão dele e dizer “Thank you, for everything”.

Nós éramos os únicos blogueiros presentes.

Nesses anos, nós vimos o Windows 7 aparecer, depois o 8, finalmente o 10, comprovando que assim como o Orkut a Microsoft não sabe contar. Graças ao Meio Bit, nós resenhamos os melhores celulares, assistimos a filmes em pré-estreia (desculpe, Gabriela) e conhecemos o Brasil que Deu Certo. Não só a Embraer, alvo normal dessa frase, mas inúmeras outras empresas que conseguiram sobreviver e desenvolver tecnologia em nosso insalubre ambiente.

Mr Cardoso goes to Brasília

Sim, graças ao Meio Bit eu, um desqualificado blogueiro metido a engraçadinho, fui parar no Congresso Nacional, convidado para cobrir o lançamento de uma App do Senado, e não pude deixar de tirar uma foto ao lado do Ex-Presidente José Sarney, que mastigou o cérebro de uma mesa cheia de blogueiros achando que iram pegá-lo de calças curtas em uma entrevista informal. O cara é bom no que faz.

Eu e o homem.

Mas nós somos também. Gilson, Moardib, Marcellus, foram muitos nomes que deram qualidade e personalidade ao Meio Bit, os textos do Dori até hoje despertam a fúria dos fanboys de consoles, independente da quantidade de graus, nós deixamos uma marca no Universo, o Meio Bit pode ser amado ou odiado, mas nunca fomos nem seremos “meh”.

Financeiramente, reconheço, o Meio Bit não foi bom pra mim, mas as experiências, amizades, histórias que adquiri nesses anos todos simplesmente não tem preço. Conheci gente do mundo todo, discuti transhumanismo regado à caipirinha com o Alex Kipman, ouvi fofocas sobre Richard Stallman bebendo cerveja com Peter Brown, da Free Software Foundation.

O mais legal é que sempre tive a sensação de que eu era apenas o passageiro, o veículo era o Meio Bit. Eu vivenciei essas coisas por causa dele. Não é pagar de humildão, é a percepção de que essas experiências foram fruto do trabalho de todo mundo, do respeito e dedicação mesmo diante das adversidades, onde o pessoal preferia não escrever a fazer algo ruim só para cumprir tabela.

Eu vi o Balmer ao vivo. Câmeras não conseguem captar seus movimentos.

Para não dizer que não falei de flores

Nem tudo são flores na história do Meio Bit. Nós pagamos um preço alto por não nos enquadrarmos no modelo tradicional. Nossos articulistas sempre foram opinativos, nunca tivemos paciência com marketês, e nunca, jamais mentimos aos leitores, e nossa postura também não foi fácil para eles, digo, vocês. Muitas vezes falamos o que ninguém queria ouvir, vide as matérias sobre o Programa Espacial Brasileiro.

Isso limitou nosso crescimento, mas nosso maior calcanhar de Aquiles era ser um blog composto de um monte de gente que sabia escrever e ninguém que soubesse vender. Sempre faltou marketing ao Meio Bit e isso fez o Blog passar por alguns perrengues, culminando na venda para o Nick Ellis em XXXX (sim, XXXX mesmo. É claro que eu não lembro da data e nem vou pesquisar).

Dramática Reconstituição do momento exato da venda do Meio Bit

Ganhamos uma sobrevida, o Nick é universalmente conhecido por ser “O” Nice Guy (mentira ele é o diabo!) e isso abriu várias portas, mas nice guy não é sinônimo de vendedor, e acabamos de novo com um conteúdo excelente, um monte de prêmios (do tempo em que a Internet dava prêmios), mas na hora de fechar as contas, não batia.

Por muitos anos eu me senti impotente (É uma metáfora, não precisei falar com meu médico) diante desse quadro. Eu não sou uma “people’s person”, não sou vendedor nem administrador, e acabei me colocando em uma posição de espectador, junto com os outros autores. Eu soube por alto de algumas propostas bem indecentes que não deram em nada, e me senti arrumando as cadeiras no convés do Titanic.

Quando o Nick soltou a bomba de que o Mobilon queria comprar o Meio Bit por um momento pensei “pra quê?” e entendi o súbito otimismo como se estivéssemos agora arrumando as cadeiras do convés do Hindenburg, mas então percebi que fazia sentido.

Dramática Reconstituição do momento exato da 2ª venda do Meio Bit

O Tecnoblog é um site muito forte em Soft News, eles têm uma imensa produção de textos curtos objetivos e no timing certo e, por isso, podem se dar ao luxo de fazer posts mais elaborados também, mas o Meio Bit não tem essa massa crítica. Acabamos só lembrados pelos artigos Hard, mas assim como Ruby, isso não escala.

Inicialmente, achei que esses artigos seriam incorporados e todos seríamos assimilados, reforçando a área de hard news e ciência do Tecnoblog, mas isso seria um erro e o Mobilon não sobreviveu até hoje na internet brasileira sendo burro.

A nossa produção seria diluída entre as dezenas de artigos que o Tecnoblog, publica todos os dias, e a própria linguagem dos dois sites é diferente.

Faz mais sentido manter o Meio Bit separado, e é isso que vai acontecer. Sim, houve a incorporação do Meio Bit sob a URL do Tecnoblog, mas continuamos como um segmento isolado. Nosso conteúdo é o mesmo, meus textões continuam os mesmos, a questão é 100% SEO, 0% EGO.

Ah, como, os posts de listas? Não são para vocês, são para o Google, crianças. O pessoal que busca “coisas legais” adora esse tipo de assunto e esses posts rendem horrores. São um preço muito pequeno para bancar os artigos de verdade que vocês adoram, mas pouca gente clica.

Entenda assim: para aquele filme de arte obscuro, que só você conhece e adora existir, é preciso uma indústria produzindo Vingadores. Você pode simplesmente não assistir Vingadores, mas ele vai continuar enchendo cinemas e bancando os filmes que você gosta.

Não há nenhuma briga para acabar com o Meio Bit, pelo contrário. A MobiCorp já despejou mais dinheiro e recursos humanos no Meio Bit do que jamais foi investido, e é seguro dizer que sem essas ações, a gente não estaria aqui hoje.

Anjinhas do Internet Explorer na TechEd 2010. O quê, queria outra foto do Mobilon?

Eu sei que mudanças assustam, mas no mundo empresariam incorporações, fusões, aquisições são normais. Podem ser traumáticas como casos onde só interessam as patentes, e os funcionários são absorvidos ou demitidos, como quando a Hooli adquiriu a Pied Piper, mas há outros cenários.

Eu vejo a aquisição do Meio Bit como um paralelo com uma empresa italiana que produzia tratores. Eles tiveram relativo sucesso fazendo carros, mas como não eram muito bons na área financeira, acabaram vendidos para a Audi. Ao invés de absorver o know-how, os melhores funcionários e fechar a empresa problemática, a Audi usou sua expertise, acertou as finanças e deixou os caras fazerem o que faziam melhor.

O nome da empresa? Lamborghini.

Rebuscando arquivos digitalmente empoeirados para falar sobre cientistas nazistas de 60 anos atrás, fuçando história de desenvolvimento de jogos de Atari ou falando mais sobre um filme de gibis do que todos os posts da concorrência juntos, a gente nunca vai se tornar um site pop. Um texto de 2 mil palavras sobre a Capitã Marvel nunca repercutirá como uma panfletagem besta de 100 palavras, 50% delas slogans e clichês, mas em compensação será lembrado por anos.

O cemitério está cheio de pequenas empresas que tentaram produzir excelentes carros, mas não conseguiram gerar escala. Não há mérito em morrer sozinho como um DeLorean, mas também não há mérito em sobreviver como um Land Rover, comprado pela Tata indiana.

Ser parte da Audi para mim é o melhor de dois mundos.

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