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Navio de guerra americano vem pegando fogo há dois dias

Um navio de guerra em chamas não é uma boa notícia. Ao menos dessa vez o incêndio foi no porto, o que é mais vergonhoso mas resultou em menos perda de vidas

14/07/2020 às 15:59

O USS Bonhomme Richard (LHD-6) sofreu o pior pesadelo de qualquer navio de guerra: um incêndio de grandes proporções. E para acrescentar insulto à injúria, ele pegou fogo no píer, atracado, e tem pelo menos dois dias que ninguém consegue apagar.

Ele é um navio de assalto anfíbio, mas não foi feito pra participar de arrastões na praia. O Bonhomme Richard é essencialmente um mini-porta-aviões dos fuzileiros navais, capaz de levar uma força expedicionária para qualquer ponto do mundo.

“Mini” claro é uma descrição relativa. Ele tem 257 metros de comprimento, é maior que um porta-aviões da Segunda Guerra. Tem o dobro do deslocamento (41000 toneladas) que o PHM Atlântico, o navio equivalente brasileiro, que já é grande bagarai.

Ele pertence à Classe Wasp, são oito embarcações do mesmo tipo. Classe Tarawa os EUA têm cinco navios em atividade, e Classe América, a mais nova, três.

Além do complemento de quase 2000 fuzileiros, ele leva caças Sea Harrier, F-35B de decolagem vertical e helicópteros de ataque.

No dia 12 de julho de 2020, o Richard estava na base naval de San Diego passando por uma manutenção de rotina quando por algum motivo algo explodiu no hangar principal.

Firefighting boats spray water onto the U.S. Navy amphibious assault ship USS Bonhomme Richard as smoke rises from a fire onboard the ship at Naval Base San Diego, as seen from Coronado, California, U.S. July 12, 2020. REUTERS/Bing Guan

Quem já fez reforma sabe a zona que é, panos, latas de tinta, madeiras, jornais, isso tudo lambeu bonito e como provavelmente o sistema de combate a incêndio do navio estava desativado, e o fogo se espalhou.

Pelo menos 15 trabalhadores e 13 marinheiros foram parar no hospital, bombeiros começaram a combater o fogo, mas a situação era sinistra. Helicópteros de combate a incêndio estão sendo usados, junto com rebocadores com canhões de água.

Pesadelo em Alto Mar

Desde o tempo das embarcações de madeira fogo tem sido um terror constante para marinheiros, mesmo estando, ironicamente, cercados de água. Um navio é em essência um monte de compartimentos conectados, criando um caminho ideal para o fogo, e bem difícil para chegar até ele com unidades de combate a incêndio.

Os EUA sabem disso, aprenderam na pele no final dos Anos 60. Primeiro em 1966, com o incêndio no porta-aviões USS Oriskany.

Avião no convés do USS Oriskany

Um marinheiro estava brincando com um sinalizador de magnésio, o imbecil acendeu o troço, que é basicamente impossível de ser apagado. Para ocultar sua besteira, ele tacou o sinalizador dentro de um armário, que continha outros 250 sinalizadores. O resultado, óbvio, foi um incêndio que se alastrou, matando 44 tripulantes e ferindo 156.

Em 1967, aconteceu de novo

Em meio à Guerra do Vietnã o porta-aviões USS Forrestal estava em manobras no Golfo de Tonkin, quando um foguete Zuni disparou acidentalmente de um avião no convés. Ele voou por trinta metros, raspou o braço de um tripulante e acertou em cheio o tanque de 1500 litros de combustível na asa de um A4 Skyhawk. Daí a desgraceira foi uma só. Aviões explodiram, bombas explodiram, mísseis explodiram...

Uss Forrestal on fire nesse dia

No final foram 134 mortos, 181 feridos, e reformas que levaram cinco meses e 602 milhões de dólares em valores de 2019. A Marinha aprendeu várias lições para que um acidente assim jamais acontecesse de novo.

Em 1969, aconteceu mais uma vez

Dessa vez com o USS Enterprise, e agora a coisa era séria. Se um incêndio em um navio é ruim, um incêndio em um porta-aviões nuclear é pior ainda.

Algum estagiário deixou um carrinho de partida (um equipamento com um gerador e compressor usado pra acionar os motores dos aviões) com o escapamento diretamente apontado pra um lançador de foguetes Zuni preso a um Phantom II. O escapamento aqueceu a ogiva até detonar, explodindo os outros foguetes, tanques de combustível, etc, etc, mesma história de sempre.

Nem na mão da Michael a Enterprise sofreu tanto.

O convés foi rompido, combustível em chamas caiu nos decks inferiores, iniciando mais incêndios. Equipamentos anti-fogo foram destruídos pelas explosões, bombas detonaram e todos os procedimentos aprendidos com o acidente do USS Forrestal só funcionaram mais ou menos. Apenas metade dos tripulantes haviam passado por treinamentos anti-incêndio.

O saldo foram 51 dias no estaleiro, 28 mortos, 314 feridos e US$890 milhões de prejuízo, em valores de 2019.

Rescaldo do incêndio

Agora há gente bem-informada dizendo que o USS Bonhomme Richard deu PT. O que significa que só em navio, foi-se embora a bolada de US$750 milhões, fora equipamentos, aviões, etc.

O mais grave é que o acidente demonstra que apesar de todos os avisos e experiências prévias, os EUA ainda estão comicamente despreparados para lidar com acidentes graves em suas embarcações, muito menos preveni-los.

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