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Resenha: Admirável Mundo Novo sem nada de novo

Admirável Mundo Novo finalmente saiu. É uma boa série? Spoilers: É, mas ao mesmo tempo é decepcionante, mas não por culpa da série

23/07/2020 às 18:01

Admirável Mundo Novo é um dos maiores clássicos da ficção científica, adaptar essa obra-prima para a TV não é tarefa fácil nem invejável. Incrivelmente os criadores da série conseguiram, mesmo assim o resultado foi decepcionante, apesar de ótimo.

A história se passa em um futuro, uns 200 anos dos tempos atuais, aonde depois de guerras e outras desgraças a Humanidade se organizou em uma Utopia Socialista, algo tão mal-disfarçado por Huxley que dois dos protagonistas se chamam Bernard Marx e Lenina Crowne.

A série conseguiu traduzir muito bem a sociedade que se livrou de todos os incômodos causados por emoções, ao consumir em quantidades industriais Soma, uma droga que pode ter vários efeitos, dependendo da dose. Na versão televisiva Soma foi ampliada, agora há vários tipos, para usos diferentes e diferentes níveis de stress emocional.

Os personagens usam constantemente dispensers de Soma, e o clique-clique se torna parte do cenário praticamente. Não é como aquele seu amigo maconheiro chato, que passa o tempo todo falando de maconha, Soma é parte da vida, ninguém se estressa, entristece ou fica com dor de corno. Qualquer incômodo, desce uma pílula.

No original a sociedade é perturbada pela descoberta de um jovem morando em uma reserva indígena no que costumava ser os Estados Unidos. Ele se revela filho de uma jovem Beta+ abandonada na reserva durante uma visita.

O Selvagem, como fica conhecido é obcecado por Shakespeare e quando volta para a Civilização, se enamora por Lenina Crowne, e é ao mesmo tempo amigo, mas ao mesmo tempo é usado por Bernard Marx para conseguir prestígio social em uma sociedade cuidadosamente estratificada.

O brilhante, brilhante dessa adaptação é que John, o Selvagem, não vive mais entre índios. A sociedade primitiva que ele fazia parte defendia monogamia, religião, famílias, privacidade, História, arte, cultura, consumismo, violência e outras coisas que não tinham mais lugar no paraíso de Nova Londres.

Por outro lado ele perde sua introspecção de ver o mundo pelos olhos de Shakespeare. Há uma dica de que ele vai usar música pra isso mas esse lado nunca é explorado. Ele é só um cara comum.

A tal sociedade, que era mantida em uma reserva, com cercas com campos de força, era basicamente a sociedade dos rednecks americanos dos últimos 30 ou 40 anos. É um conceito que já foi muito explorado em ficção científica, mas raramente tão bem. NÓS somos os selvagens, mas a tal Utopia tem pés de barro.

Em Admirável Mundo Novo as pessoas têm seu destino determinados ainda na fase de embrião. A casta de cada um é determinada de acordo com as necessidades da sociedade; se o Sistema perceber que haverá uma necessidade de cientistas em um futuro próximo, mais Alfas são produzidos. Se mais mineiros serão necessários, produzirão mais Epsilons.

Ao invés dos uniformes, com cores pra cada casta as pessoas usam uma lente de contato de realidade aumentada; ela mostra um ícone do lado de cada um, indicando a casta. A tal lente também grava e transmite tudo que a pessoa está vendo. Privacidade é um conceito alienígena, todo mundo é gerador de conteúdo. Sim, Admirável Mundo Novo é uma distopia, um futuro horrendo aonde todo mundo é youtuber.

A sociedade é dividida em cinco castas, Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Epsilons. Além das diferenças genéticas, cada casta é condicionada desde a infância a se achar extremamente afortunada. Epsilons são felizes fazendo trabalhos simples e braçais, Gamas são ótimos serviçais que não têm as responsabilidades das castas superiores.

Betas gostam de ser Betas pois se divertem muito sem ter que pensar tanto quanto os Alfas, e os Alfas gostam de ser Alfa por estarem no topo da Pirâmide.

A sociedade como um todo é extremamente hedonista, levando o discurso socialista ao extremo, é um bundalelê, ninguém é de ninguém. Cinema se resume a pornôs, orgias acontecem toda hora e “cada um pertence a todos”.  Monogamia é vista como uma perversão e atividade subversiva ameaçando o corpo social.

Uma adaptação nessa nova versão é que a sociedade é controlada por uma inteligência artificial, que foi criada por Mustapha Mond, Controladora Mundial para a Europa Ocidental, junto com um grupo de outros cientistas.

A tal IA vive fazendo simulações e descobriu que mesmo com todo o controle, a Humanidade estava estagnada, não tinha como evoluir e a solução era eliminar todos os humanos e o futuro ser dominado totalmente por máquinas.

Isso, claro, não consta no livro original, aonde a mensagem é que a tal Utopia era forte demais, e asa tentativas do Selvagem de provocar rebeliões não deram em nada. O final trágico não seria aceitável em 2020, aonde é preciso se revoltar contra o Establishment, e a revolução precisa ser bem-sucedida.

Daí inconsistências como uma revolta dos Epsilons causada por uma observação do Selvagem, e Lenina Crowne, que tem toda sua programação e condicionamento social destruídos depois de provar uma pipoca selvagem (maldita dislexia).

Para as plateias modernas é reconfortante a ideia de que uma sociedade distópica e maligna pode ser desmontada apenas com um sujeito dizendo para as pessoas se revoltarem pois não estão felizes de verdade, mas a realidade está longe disso, até porque na maioria das vezes o afegão médio está feliz.

É Surubão de Noronha todo dia!

O mais trágico é que boa parte dos “clichês” que a gente vê em Admirável Mundo Novo foram definidos no livro de 1932, e todas, literalmente todas as histórias envolvendo distopias e utopias sociais desde então devem muito à obra de Aldous Huxley, mas quando vemos na TV a história parece... mais do mesmo.

A ideia da Inteligência Artificial destruindo o mundo é indefensável, kibaram de Westworld, mas a série como um todo parece com um monte de coisas que você já viu antes.

É... inevitável. Admirável Mundo Novo inspirou incontáveis obras, nós assistimos a essas obras, e hoje o mundo da nova série não tem nada de novo, nem de admirável.

Há solução? Sinceramente não. Descaracterizar tanto a história a ponto de não lembrar nada do original não resolve. O jeito é aceitar que você vai assistir uma versão moderna, competente, cheia de potencial mas que não vai te surpreender em absolutamente nada.

Admirável Mundo Novo passa no serviço Peacock da NBC.

Trailer:

Cotação:

3/5 comprimidos de soma

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