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Não! Cientistas NÃO reviveram micróbios de mais de 100 milhões de anos

Os micróbios pré-históricos foram ressuscitados? Veremos 2020 ser tomada por antigas criaturas do mal? Não, nada disso. Vamos entender, sem sensacionalismo

14 semanas atrás

Parece implicância, mas é assustador como a grande imprensa é incapaz de entender ciência e produzir artigos minimamente corretos. A bola da vez é uma pesquisa interessante que virou uma bobagem sobre micróbios de mais de 100 milhões de anos.

Como sempre as pessoas estão repassando alegremente as chamadas sensacionalistas, junto com piadinhas óbvia hurr durr Coronga 2020 mas a culpa é dos jornaleiros, não dos leitores.

Nah, só uma bactéria genérica, mas pra você são todas iguais né seu preconceituoso?

Segundo as matérias um grupo de cientistas, encabeçado por Yuki Morono teria encontrado bactérias adormecidas em uma camada de sedimento marinho de 101.5 milhões de anos de idade, sendo essas bactérias revividas depois de adormecidas por todo esse tempo, brrr....

Será seguro trazer de volta à vida esses organismos primitivos? Estará o Homem brincando de Deus? Será que devemos ter acesso a esse tipo de conhecimento?

Só tem um problema: Não foi isso que aconteceu.

É impossível uma bactéria sobreviver mesmo como um esporo por 101.5 milhões de anos. A culpa está no DNA.

Uma molécula de DNA vista por um microscópio eletrônico

Uma molécula de DNA vista por um microscópio eletrônico

O Ácido desoxirribonucleico além de fazer a gente pagar pensão, tem outra utilidade: Carregar a informação genética que faz eu eu, você você e a Luciana Vendramini aquela coisa maravilhosa. A desvantagem é que por ser uma molécula muito complexa, está sujeita a uma degradação acelerada. Calor, Oxigênio, raios cósmicos, tudo contribui para o DNA se corromper.

Em uma célula morta não há mecanismos de correção para fazer manutenção e manter o DNA inteiro. Com isso as ligações entre os nucleotídeos vão se rompendo. Cientistas calcularam a meia-vida do DNA, o tempo em que metade das ligações entre os nucleotídeos estarão corrompidas. Esse tempo é de 521 anos. (fonte: Nature: DNA has a 521-year half-life)

Em mais 521 anos, metade do DNA que ainda estava intacto vai se corromper. No final em no máximo 6.8 milhões de anos não vai sobrar NADA, é como se você tivesse um livro com cada palavra colada individualmente nas páginas. Com o tempo elas vão se soltando, você termina com páginas em branco e um monte de palavras soltas no chão, sem ideia de como organizá-las na história original.

O truque é esperar bastante pra fazer o teste.

Por isso os tais cientistas mentiram, certo?

Errado. Eles nunca falaram de organismos milena milionare muito velhos sendo ressuscitados. O que eles descobriram foi diferente, mas bem interessante: Analisando camadas de sedimentos entre 4.3 e 101.5 milhões de anos, separadas por silicatos que impediam a migração entre elas, eles descobriram bactérias VIVAS, mas passando necessidade.

Eu poderia explicar a imagem mas tiraria seu prazer de ler o paper original.

Originalmente as bactérias remontam ao passado, da mesma forma que nós somos descendentes de proto-ratos assustados que torceram pelo meteoro. São incontáveis gerações de bactérias que conseguiram sobreviver em um ambiente de baixíssima energia, consumindo oxigênio proveniente da oxidação dos silicatos à sua volta, dos corpos de outros microrganismos e com baixíssima atividade metabólica.

Imagine o Starvin Marvin de South Park, mas como uma bactéria.

Essas colônias de micróbios  se recusaram a morrer. São um exemplo do que Ian Malcolm disse em Jurassic Park: “A Vida sempre acha um caminho”, e quando os cientistas pegaram essas bactérias e as colocaram em um caldo de cultura com oxigênio e comida abundante, as colônias foram “revividas”, se multiplicando com disposição.

Entendeu? Eles reviveram as COLÔNIAS de micróbios, estimularam o crescimento das comunidades que estavam estagnadas, com seu crescimento restrito pela falta de recursos.

Nenhuma bactéria anciã levantou de um minúsculo caixão. Apenas uma bactéria magrinha filha de uma longa linhagem de bactérias magrinhas que levavam um tempão pra se reproduzir caiu numa vida de abundância e partiu pro bundalelê.

É bonito, é quase poético ver a Vida se segurando nas condições mais extremas, uma pequena comunidade isolada por milhões de anos, quase sem recursos, adaptando-se, consumindo o que encontra, limitando seu crescimento, inspirados por uma bactéria com um mini-megafone dizendo que se recusam a desaparecer sem luta, que estão lutando não contra a tirania mas pelo seu direito de existir.

Isso dá esperanças para encontrar comunidades de micróbios parecidas em Europa, Titã, Marte. Se a Vida surgiu em algum momento nesses mundos, ou foi levada até eles por algum asteróide, as chances são que ela ainda persista, agarrada de forma resoluta a uma rocha, aguardando a visita de seus primos distantes.

O paper com a pesquisa:

Morono, Y., Ito, M., Hoshino, T. et al. Aerobic microbial life persists in oxic marine sediment as old as 101.5 million yearsNat Commun 11, 3626 (2020). https://doi.org/10.1038/s41467-020-17330-1

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