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Star Trek: Lower Decks — Raramente audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve

Star Trek: Lower Decks é uma série diferente, uma animação apostando no humor e nas histórias dos personagens menos importantes da Federação.

12/08/2020 às 3:03

Animação não é nenhuma novidade para essa franquia. Em 1973 foi lançada a primeira de duas temporadas da chamada TAS – The Animated Series, mas Star Trek: Lower Decks é mais que uma versão, bem, animada de uma série de Star Trek.

O conceito de uma série mostrando a vida nos convés conveses decks inferiores de uma nave da Frota Estelar não é novo; pelo menos Voyager e A Nova Geração tiveram episódios com essa temática, mas caíram no mesmo problema: Quem liga a TV pra ver Picard e a Januária não quer ver o Alferes Expendable e seus amigos, então as histórias sempre envolviam a tripulação da ponte.

Lower Decks não. A série se passa ao mesmo tempo em que o que seria um episódio normal de Star Trek acontece como pano de fundo, mas a gente não está perdendo nada, pois aí entra a outra premissa de Lower Decks:

A USS Cerritos é uma das naves menos importantes da Frota Estelar. Ela é batizada em honra a Cerritos, uma cidadezinha de 50 mil habitantes que é uma das menos interessantes das várias que compõem a Grande Los Angeles. Normalmente as naves da Frota têm nomes históricos ou homenageiam grandes figuras, como a USS Sun Tzu, ou a USS Pasteur.

Em Lower Decks eles navegam no equivalente à USS Santana de Parnaíba ou USS Magé.

No primeiro episódio conhecemos o alferes Brad Boimler, um sujeito bem caxias e deslumbrado, que sonha em ser capitão algum dia. Ele é inexperiente mas não sabe disso, acha que tudo deve seguir regulamentos.

Ele é o oposto da alferes Beckett Mariner, que mantém um esquema de contrabando a bordo, odeia regulamentos e tem zero respeito pela hierarquia a bordo. Ela é bem mais experiente, tendo servido em várias naves. Mariner foi rebaixada várias vezes, e está na mira dos oficiais superiores, inclusive da Capitã Carrol Freeman, que só espera ela vacilar para mandar Mariner de volta pra USS Quito.

Descrito assim ela lembra muito a Michael Burnham, em Star Trek: Discovery, e quer saber? Ela É a Burnham, mas feita direito. Ela é a inconformista que não se encaixa na utopia certinha da Federação, mas ela não fica se lamentando, não faz a cara de bunda da Burnham, que parece o tempo todo que queria estar em qualquer outro lugar menos ali.

A Nave

É Star Trek, tem que ter nave. Tecnicamente a USS Cerritos (NCC-75567) é uma nave classe Califórnia, não tem nenhuma característica marcante. É uma das naves mais fracas da Frota, sua missão não é ir audaciosamente a lugar nenhum. Ela é especialista em Segundo Contato, a missão burocrática de estabelecer protocolos de comunicação, levar suprimentos, cuidar da papelada depois que naves mais chiques, como a Enterprise encontram pela primeira vez uma nova civilização.

A própria abertura da série é uma bela demonstração disso tudo, é uma abertura clássica de Star Trek, mas com a nave só se ferrando.

O Primeiro Episódio

Nesse episódio somos apresentados à nave, graças a D'Vana Tendi, uma Orion que embarca na Cerritos e fica sob supervisão do Alferes Boimler. Descobrimos que a Cerritos tem um bom complemento de shuttles, um bar e um Holodeck com programas provavelmente tirados das Holosuítes do Quark. O preferido da Alferes Mariner é “academia de treino olímpica – sem roupa”.

Ao mesmo tempo a nave está estabelecendo segundo contato com um planeta. Mordido por um mosquito alienígena, o Primeiro Oficial Jack Ransom leva a bordo um vírus que transforma todo mundo em zumbis canibais. Claro, a solução está na gosma que envolve o corpo do alferes Boimler, depois que ele foi chupado por uma aranha vegetariana alienígena.

Uma solução bem Deus Ex Machina, como só Star Trek sabe achar, e claro ninguém liga pro Boimler, só pra gosma e todos parabenizam a doutora T’Ana, que descobriu as propriedades curativas da gosma.

E a Luta de Classes?

Lower Decks não passa uma imagem de disputa, fora a alferes Mariner, não há ressentimento em relação à tripulação da ponte. Fica claro que eles não ligam pros problemas individuais de cada um, mas se preocupam com a nave como um todo. Eles são exagerados, afinal é um desenho e vemos a história pelos olhos dos protagonistas.

E o humor?

Ah, a Internet ODIOU Lower Decks. Aparentemente esqueceram que Star Trek sempre foi uma série bem-humorada, com episódios basicamente cômicos, como "The Trouble with Tribbles" (TOS) e "Trials and Tribble-ations" (DS9). Ou "Little Green Men" (DS9), "The Magnificent Ferengi" (DS9), "I, Mudd" (TOS), "Bride of Chaotica!" (VOY)… a lista é imensa.

Lower Decks por ser um desenho animado tem um humor mais intenso, mas é menos escatológico que Rick and Morty. Em termos de ritmo e texto eu diria que me lembra mais Archer, o humor situacional é bem mais presente do que o uso de piadas.

E as Referências?

Claro que iam encher a série de referências, algumas são mas explícitas, como o jipe do Picard em Nemesis, outras são mais obscuras, como a Mariner dizendo que já ficou em uma prisão Klingon aonde teve que brigar com um Yeti que queria os sapatos dela.

Isso é uma referência direta a Star Trek VI, quando Kirk passou pelo mesmo problema, o que quer dizer que 86 anos depois, o coitado do Yeti ainda está apodrecendo nas celas de Rura Penthe.

A melhor referência, entretanto, é a Dra T’Ana. Ela é uma caitian, uma espécie felina que apareceu muito raramente na franquia. A primeira aparição foi na... Série Animada de 1973, aonde a Tenente M'Ress fazia parte da tripulação da Enterprise.

Conclusão

Star Trek: Lower Decks não é pra todo mundo. Não é uma série séria, não tem as discussões filosóficas das séries antigas, nem a agenda política de Discovery. Se por um lado ela lembra muito uma Nova Geração exagerada, muita gente vai achar isso até ofensivo. Lower Decks não é uma série para crianças. Também não é para trekkers xiitas que não gostam de ver seu objeto de culto como alvo de piadas. Também não é pro pessoal que vê Star Trek como panfletagem. Não é pros fãs de ficção científica que querem histórias complexas e instigantes, e muito menos pros fãs de Family Guy ou Rick and Morty. E não é dadaísta como Gumball também.

Para quem é Lower Decks? Boa pergunta. Eu diria que é para os trekkers que amam a franquia mas estão cientes das palavras do filósofo Shatner: “Get a life, it’s just a TV show

Cotação:

3/5 Kirks com um Pingão

Aonde Assistir?

Star Trek: Lower Decks passa no CBS All Access, o serviço de streaming do canal. Por enquanto não se sabe quando e se a série passará no Brasil.

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