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Ameaça da Apple à Epic Games vai além do iPhone e Mac

Ao propor remover ferramentas da Epic Games do iOS e macOS, Apple ameaça prejudicar o desenvolvimento de software em várias plataformas

20/08/2020 às 10:00

A Apple não apenas não se intimidou pelo processo movido pela Epic Games pelo banimento de Fortnite do iOS, como escalou a briga: nesta segunda-feira (17) a maçã alertou o estúdio que irá encerrar suas contas de desenvolvedora do iOS e macOS, além de remover a empresa das ferramentas internas de ambos sistemas operacionais.

Caso a Epic não volte atrás em sua decisão de incluir uma loja alternativa em Fortnite para iPhone, a partir do dia 28 de agosto nenhum profissional que use um Mac e/ou iPhone como plataforma de desenvolvimento poderá usar as ferramentas do estúdio, incluindo a Unreal Engine, um dos motores gráficos mais populares do mundo.

Epic Games / Fortnite / Apple

Em um primeiro momento, a maioria dos usuários atribuiu a retaliação da Apple como um ato de menor importância, que afetaria "uma pequena parcela" de jogos para iPhone, iPad e Apple TV. No entanto, o buraco é bem mais embaixo.

A resposta da Apple contra a Epic Games

Em um documento enviado à Epic Games no dia 14 de agosto, anexado ao processo como "Evidência B" (páginas 52 e 53, cuidado, PDF), a Apple estabelece a medida como uma "ordem de restrição" de modo a proteger seus próprios interesses.

Nela, a maçã clarifica quais recursos serão limitados:

Você (Epic Games) perderá acesso aos seguintes programas, tecnologias e funcionalidades:

  • Todos os sofwares, SDKs, APIs e ferramentas de desenvolvimento da Apple;
  • Versões preliminares do iOS, iPad OS, macOS, tvOS e watchOS;
  • Versões preliminares de ferramentas como Reality Composer, Create ML, Apple Configurator e etc.;
  • Ações do time de engenharia para melhorar a performance em hardware e software da UnrealEngine nos dispositivos Mac e iOS; otimização da Unreal Engine no Mac para ambientes criativos, ambientes virtuais e seus sistemas de desenvolvimento e integração contínua; adoção e suporte de recursos de ARKit e futuros recursos de RV para a Unreal Engine por sua equipe de Realidade Estendida.

O ponto principal aqui é o último quesito: a Apple diz que com o fim da conta de desenvolvedora, a Epic Games perderá qualquer vantagem que a Unreal Engine possuía nos SOs da maçã.

De um ponto de vista neutro, Cupertino não mexerá mais nenhuma palha para otimizar o funcionamento do motor nos iGadgets.

Epic Games / Fortnite / Apple

Já de um ângulo mais pessimista, a Apple pode ativamente prejudicar o funcionamento da Unreal em seus aparelhos, buscando privilegiar outros motores (como a Unity, por exemplo) em detrimento da solução da Epic Games.

É possível também que o suporte seja completamente abandonado, principalmente se levarmos em conta o processo de transição do Mac de processadores Intel para Apple Silicon.

Note também o ponto de referência a "futuros recursos de RV", que pode ser uma referência ao suposto óculos de Realidade Aumentada que a Apple estaria desenvolvendo, em que a Epic seria uma das parceiras aos fornecer a Unreal Engine como ferramenta de desenvolvimento.

Apple usa devs como escudo contra Epic Games

O uso da Unreal Engine não se limita nem de longe a jogos de iPhone ou a Fortnite, como algumas pessoas andaram dizendo para minimizar a ameaça da Apple. O motor gráfico é um dos mais populares em títulos desde AAA a independentes, pela facilidade de uso e o fato de ser gratuito até certo patamar, que é de US$ 1 milhão em receita, sendo somente a partir daí que a Epic Games passa a cobrar royalties.

Um dos casos de uso mais recentes e sensacionais da Unreal Engine fora dos jogos foi em The Mandalorian, cortesia da Industrial Light & Magic:

Sua flexibilidade permite que a Unreal Engine seja usada em animações fotorrealistas, headsets de Realidade Estendida, janelas 3D que simulam ambientes inteiros, criação de atores digitais assustadoramente críveis, curta-metragens e em boletins de previsão do tempo, entre outras aplicações.

Até a Rede Globo brincou com o motor, usando-o na cobertura dos Jogos Olímpicos do Rio, e ele pode ou não ter sido usado em uma cena completa de uma novela de 2016 (a emissora nunca confirmou).

Embora a Unreal Engine possa ser usada em diversas plataformas, é fato que uma boa parcela dos desenvolvedores que usam o motor em seus trabalhos o fazem no macOS e iOS, e este é o calo que a Apple está apertando: a ameaça consiste em dizer a todos esses consumidores que eles devem fazer uma escolha, entre continuar na plataforma e abandonar o motor da Epic Games, ou migrar para o Windows.

A segunda opção é a mais traumática, pois para muitos envolve novo investimento em hardware e migração de todos os seus softwares de criação para uma plataforma com a qual não estão acostumados, sem falar nas questões de custo.

Ao mesmo tempo, rodar o Windows 10 via Boot Camp é uma opção que deixará de existir a curto prazo, quando a migração para o Apple Silicon for concluída: o macOS deixará de dar suporte a dual boot e a Microsoft não vende o Windows 10 ARM para usuários finais, apenas para OEMs.

Epic Games / Fortnite / Apple

Assim, a Apple está usando os devs de macOS e iOS como escudo contra a Epic Games, uma atitude absolutamente cretina, ao afirmar posteriormente que todo o rolo foi "um problema que a desenvolvedora criou para si mesma".

Em última análise, a maçã estaria contando com uma debandada geral de desenvolvedores, que abandonariam a Unreal Engine (contando com o fato de que a maioria não tem como migrar para o Windows) em prol de outras soluções, de preferência, endossadas por ela própria.

Juíza decidiu a favor da maçã em caso parecido

A Epic Games solicitou que a justiça dos Estados Unidos impeça a Apple de bloquear suas ferramentas no iOS e macOS, enquanto busca formar uma coalizão de empresas contra a maçã; a Spotify, um de seus maiores desafetos seria uma das primeiras alistadas, juntamente com a Sonos, fabricante de dispositivos de áudio.

No entanto, o caldo pode desandar para o lado da Epic: de acordo com o site Bloomberg, quem vai analisar o caso é a juíza Yvonne Gonzalez Rogers, da Corte Distrital do Norte da Califórnia (comarca onde a desenvolvedora entrou com a ação).

Em 2013, ela analisou um caso de antitruste semelhante de reclamantes contra a Apple, por monopólio quanto ao mercado de apps no iPhone e a taxa de 30% nas movimentações financeiras, as mesmas acusações que a desenvolvedora fez contra a maçã.

Na ocasião, a juíza Rogers dispensou inteiramente o caso, alegando que as reclamantes "não conseguiram provar acusações de que teriam sido impedidas de alternativas de custo mais baixo (provavelmente se referindo à distribuição via arquivo .apk do Android, por fora da Google Play Store), pagaram preços mais altos por apps fornecidos pela Apple, ou tiveram seus iPhones desabilitados ou destruídos".

succo / martelo de juiz / Pixabay / Apple

Sobre a taxa de 30%, a juíza afirmou que as reclamantes não tinham direito de processar a Apple por ela, visto que a cobrança seria invariavelmente repassada para os usuários finais, na forma do preço final do app e/ou das microtransações.

Como as reclamações da Epic Games são muito similares às do caso de 2013, há a possibilidade de que a juíza Rogers indefira a ação e feche a pendenga de forma favorável à Apple, caso ela considere que ambas situações são equivalentes.

Por outro lado, o CEO da Apple Tim Cook pode se complicar: no depoimento dado ao comitê antitruste em julho, ele afirmou que "a Apple não pratica bullying com seus desenvolvedores".

Como suas declarações (e dos CEOs do Google Sundar Pichai, do Facebook Mark Zuckerberg, e da Amazon Jeff Bezos) foram colhidas sob juramento, se os congressistas considerarem que a Apple está de fato cometendo ato de bullying contra a Epic Store (algo pelo qual a desenvolvedora torça para que aconteça), Cook pode ser processado por perjúrio.

No mais, como eu disse anteriormente, Apple, Google (que também está sendo processado) e Epic Games são tubarões brigando por dinheiro, e nesse cenário, os peixes pequenos (o público) continuarão a ser o almoço.

A atitude da maçã de virar os desenvolvedores contra o estúdio é uma cretinice, mas não é nada diferente da desenvolvedora de Fortnite convocar o público para defendê-la, uma empresa que vale US$ 17 bilhões e que permitiu a Tim Sweeney se tornar o primeiro desenvolvedor de jogos bilionário.

Logo, o certo a fazer é...

O primeiro prazo limite para a Epic se emendar ou não acaba na próxima quinta-feira (26), data em que começará a próxima temporada de Fortnite e como consequência, as versões para iOS e Android do jogo deixarão de funcionar. Já no dia 28, suas contas de desenvolvedora serão encerradas.

Assim, aguardemos os próximos capítulos dessa novela que pelo andar da carruagem, está longe de terminar.

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