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IAs disputando o direito de matar todos os humanos

IAs estão cada vez mais sofisticadas. Agora várias foram treinadas para pilotar caças e disputar o privilégio de combater um piloto humano

24/08/2020 às 1:43

IAs, ou Inteligências Artificiais estão sendo cada vez mais usadas, depois que os pesquisadores desistiram de esperar os filósofos se decidirem entre a IA Fraca – a inteligência artificial limitada a tarefas específicas – e a IA Forte, a inteligência generalizada que imitaria uma mente como a nossa.

Havia bastante otimismo de que a mente seria algo que pudesse ser reduzida a algoritmos, e que com algumas regras simples a complexidade surgisse e atingíssemos inteligência, mas essa IA Hard se mostrou muito mais Hard do que o esperado.

Mesmo desconsiderando quaisquer fatores místicos, a quantidade de sinapses em nosso cérebro é de 1014, que coincidentemente é a mesma chance da Luciana Vendramini aceitar um convite meu para um chopp. Com um “1 em” na frente, claro.

Nenhum computador é capaz de simular isso. Em 2013 um supercomputador usou 82.944 processadores para simular um segundo de atividade em uma rede neural composta de 1.73 bilhões de neurônios. O processo levou 40 minutos para rodar. Estima-se que um cérebro humano tenha entre 80 e 100 bilhões de neurônios, cada um com 10.000 sinapses, que são as conexões com outros neurônios.

Carl Sagan dizia que para fazermos uma torta de maçã temos que criar o Universo. O pessoal que queria usar robôs para pilotar tanques e aviões achou que teria que ensinar tudo, dos conceitos mais básicos e isso iria exigir um cérebro complexo como o nosso, mas não é o caso.

Sua torradeira não entende o conceito de torrada. Ela não tem o conceito de tempo, e muito provavelmente não sabe o que é pão, mas funciona perfeitamente.

O primeiro piloto automático foi criado em 1912. Era completamente mecânico, usava um giroscópio para manter um avião em voo nivelado seguindo uma rota determinada pela bússola. Aquele amontoado de engrenagens, presos por barro fofo e pedra lascada eram capazes de pilotar um avião melhor do que 99% de todos os humanos do planeta.

Com a sofisticação da tecnologia, as tarefas “simples” que máquinas eram capazes de executar se tornaram mais complexas, e hoje isso inclui tudo de dirigir um Tesla no meio de uma autoestrada a identificar tumores em imagens com melhor precisão que os melhores médicos.

A chegada dos sistemas usando Inteligência Artificial, com redes neurais e aprendizado de máquina trouxeram uma mudança completa na forma com que esses sistemas eram feitos.

Ao invés de explicar em detalhes, através de um monte de passos como o computador deve executar uma tarefa, ele é alimentado com os dados iniciais e o resultado esperado, e segundo um sistema de punição/recompensa produz resultados mais aproximados do desejado.

Usando os chamados “algoritmos genéticos” mutações são introduzidas aleatoriamente, o resultado delas é analisado. As que produzem resultados benéficos são mantidas, as que resultam em desempenho pior, são descartadas.

Com isso em algumas dezenas de gerações uma criatura virtual consegue aprender a andar.

O uso dessas técnicas está sendo cogitado para resolver um problema sério; drone são excelentes quando você tem superioridade aérea, e inimigo não é capaz de gerar interferência, mas quando a caca bate no ventilador, eles se tornam alvos fáceis.

Mesmo um hipotético drone de combate de alta performance não sobreviveria. Pense nos sinais indo e voltando para vários satélites, e na imensa banda necessária para passar todas as imagens em realidade virtual para garantir a imersão do ploto. Só o lag já tornaria inviável um combate aéreo.

Um drone de combate deveria ser uma solução autocontida, sem depender de conexões externas, mas como criar um algoritmo tão complexo que consiga enfrentar um humano em combate aéreo?

Esse era o requerimento do projeto AlphaDogfight da DARPA, aquela agência de pesquisas avançadas do Departamento de Defesa dos EUA. Iniciado ano passado, o projeto era um concurso entre várias equipes de universidades e empresas para desenvolver um agente inteligente capaz de pilotar um caça F-16 simulado e ser bem-sucedido em um combate aéreo.

Um ano atrás as primeiras gerações mal conseguiam taxiar, os aviões caíam feito moscas. Hoje não só voam como combatem de forma primorosa, como demonstrado na final do “concurso”, quando as últimas equipes se enfrentaram em combates simulados.

Ao final, a equipe vencedora, Heron Systems enfrentou a Lockheed-Martin, conseguindo uma apreciável totalização de 16 vitórias, perdendo apenas 4 combates para a equipe adversária, mas o melhor ainda estava por vir.

O “prêmio” para a equipe vencedora seria enfrentar um piloto de verdade, um oficial com experiência em caças reais. Uma reles máquina, uma coleção de algoritmos em software enfrentaria o resultado de milhões de anos de Evolução, instinto, intuição.

Foi um massacre.

O piloto humano teve oportunidade de analisar os combates de todas as IAs, viu como o sistema da Heron combatia.

Não adiantou nada. A Inteligência Artificial não tinha noção do que era um avião, combate, nada. Ela sabia que era recompensada quando não era destruída e quando colocava o avião inimigo dentro do cone de tiro de seu canhão. Todo o resto era irrelevante.

O piloto humano enfrentou uma IA que não tinha medo de entrar em um combate voando direto em rota de colisão, algo que nunca, jamais um humano faria. Como ela não conhecia o medo, sua performance em grande altitude era a mesma quando o combate descia até o piso de 300 metros.

A IA manobrava a menos de 30 metros do inimigo, mantendo curvas de até 9gs e mudando de direção quando achava melhor. Sozinha a IA aprendeu que um combate aéreo é um grande jogo de gerenciamento de energia, aonde velocidade é trocada por altitude e vice-versa.

No vídeo abaixo o combate final, entre Heron e Lockheed começa em 2h41min14seg.

O combate com o humano terminou com uma surra que mais parecia T1000 vs o cachorro do John Wick. A IA venceu 5 de 5 combates, sem levar um único tiro do humano. Você pode acompanhar a surra a partir da posição 4h39min26seg.

Pela quantidade de elogios feitos ao piloto antes do combate, a vitória da IA parece ter sido uma surpresa para o pessoal do projeto também, mas isso é só a ponta do Iceberg. O piloto humano teve a vantagem que não estar sendo afetado pela gravidade, ele jamais conseguiria manter as curvas fechadas num avião de verdade.

A IA também estava em desvantagem por pilotar um F-16, um avião cheio de limitações por precisar respeitar os limites dos frágeis sacos de carne sem os quais eles não voam. Um caça sem piloto pode ser projetado para aguentar acelerações brutais, manobrando de forma impossível para qualquer humano acompanhar.

Vai acontecer logo? Dificilmente, o combate aéreo hoje é todo a grande distância, feito com mísseis. Uma Inteligência Artificial sairia muito caro e seria menos flexível que um piloto humano, é mais seguro e mais barato investir em mísseis de longo alcance, esses sim com IA capaz de escolher alvos e mudar o perfil da missão on the fly.

Eventualmente a IA irá chegar aos aviões de combate, com provavelmente drones de alta performance, menores e mais baratos e aí a única forma de combatê-los será com... outros drones comandados por IAs avançadas.

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